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Quando os atenienses se preparavam para enfrentar a poderosa Esparta, o seu chefe não lhes declarou que ganhariam a guerra por serem mais numerosos ou estarem mais bem armados. O que Péricles anunciou foi que Atenas venceria devido à superioridade do seu espírito e do seu regime político.

Disse que os atenienses tinham maior confiança em si próprios do que quaisquer outros porque cultivavam a beleza e gostavam de especular. Estavam habituados a reflectir e a discutir livremente os assuntos, tanto privados como públicos. Tomavam as decisões mais graves sem receio de examinar e debater ousadamente todas as implicações. Aceitavam tolerantemente as divergências de gosto e de ideias. Abriam o porto e a cidade às mercadorias e viajantes de todo o mundo. E buscavam a riqueza não pelo desejo de ostentação mas porque lhes dava maiores possibilidades de actuação.

Por outro lado, Atenas tinha um regime político único chamado democracia. Na qual cada um era tido em conta e ouvido nos assuntos públicos, não pelo grupo social a que pertencia mas pelos seus méritos e valor pessoal. Portanto os atenienses respeitavam fielmente as leis, obedeciam de boa vontade aos governantes e mobilizavam-se livremente e com a maior coragem para as guerras da Cidade.

Atenas era então uma comunidade livre, criativa, forte e auto-confiante, que não temia o mundo nem a vida. Assim foram sempre todos os povos ganhadores, como os portugueses do século XV ou os ingleses da era vitoriana. Também Roosevelt não pensava de modo muito diferente de Péricles quando teve de enfrentar ao mesmo tempo o imperialismo nipónico, o nazismo e o expansionismo soviético.

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A União Europeia é hoje porém um vasto campo entrincheirado. Abolimos apressadamente as fronteiras mas, em contrapartida, escavamos no interior das nações profundas trincheiras ideológicas, políticas, sociais e geracionais – para nos abrigarmos de uma sensação geral de incerteza que faz alastrar o medo e estimula o ódio.

Convinha que a Europa fosse percebendo, como fez o Reino Unido, que as antigas fronteiras naturais e históricas são preferíveis às novas trincheiras sociais interiores. Porque as fronteiras, afinal, constituem zonas de passagem segura entre nações livres e confiantes. Enquanto as trincheiras são abrigos irredutíveis construídos pelo medo – e apenas transponíveis pela violência.

Os europeus actuais não querem cada vez mais barreiras externas para se tornarem fortes. Constroem trincheiras porque se tornaram fracos. Porque perderam aquela famosa auto-confiança dos atenienses do tempo de Péricles, baseada num forte sentimento de soberania, na liberdade do espírito e num ideal de beleza.