Imaginem um dia alguém dizer a Magnus Carlsen, o campeão do mundo e rotulado o “Mozart do Xadrez”, que não podia usar as duas torres (Danilo, Alex Sandro), um robusto peão que defende a zona central do tabuleiro (Casemiro) e um cavalo (Óliver), que descobre espaços como ninguém. Imaginem agora Carlsen encolher os ombros e dizer: então, por opção, vou jogar sem a rainha (Brahimi) — tais são as movimentações sem aviso e as rotações — e sem um bispo (Tello). Foi esta a história de Julen Lopetegui no Estádio do Bessa. Mas o FC Porto venceria o duelo por 2-0, cortesia de Jackson e Brahimi.

Os receios de que o sintético poderia estragar o jogo do FC Porto rapidamente escaparam ao horizonte do dérbi da Invicta, que já não acontecia desde 2008. Os dragões entraram bem, e assim ficaram praticamente até à meia hora. Estavam rápidos, dinâmicos e com vontade de resolver a questão rápido. Não deixa de impressionar ver assim uma equipa remendada, que mudou seis jogadores em relação ao jogo com o Basileia. Fica a prova de que este é um senhor plantel de futebol.

Hernâni assinou a primeira titularidade no FCP, Rúben Neves tornava-se no jogador mais jovem a participar em dois dérbis do Porto (17 anos) e Ricardo dava sinais de que está feito um belo jogador. O lateral direito tem aproveitado bem as viagens à equipa B para regressar mais sólido, com boa pinta, bom toque de bola, ótimas decisões e competência na hora de fechar espaços. Já Quintero, que aqui e ali mostrava alguma classe, seguia no sentido oposto. Estava meio perdido.

Mas o colombiano até foi chave no momento mais perigoso para a equipa de Lopetegui. Esse lance aconteceu a um minuto dos 45′: Quintero picou a bola por cima da defesa, para dentro da área, descaído para o lado esquerdo; Jackson, com a sua experiência e paciência, deixou a bola bater e preparou-se para fazer o que melhor sabe. Mas um homem vestido de amarelo saiu de rompante da baliza, fechando-lhe o caminho e, porventura, intimidando-o, tal foi a velocidade furiosa da saída. Mika esteve bem e segurou o zero-zero.

Até aos 44′ pouco houve a registar. O FC Porto esteve sempre melhor, com muita bola — 73% de posse de bola quando se aproximava o intervalo — e boas decisões. Mas às vezes faltavam homens no meio-campo para permitir ao jogo sair ainda mais fluído (algo que Óliver e Brahimi fazem tão bem no corredor central). Faltou também, mas aqui ao longo de todo o jogo, mais peso na área do Boavista. Afinal, o FCP precisava mesmo de vencer esta partida. Apenas Quaresma, que estava mexido, fez tremer a defesa da equipa da casa até ao tal lance de Jackson. Os dragões ainda pediram um penálti, por alegada falta de João Dias sobre Hernâni (fica a dúvida, mas parece haver derrube). Intervalo no Bessa.

Mais intenso do que o jogo no relvado, estava o dérbi das bancadas. Está vivo o dérbi da Invicta, senhoras e senhores. Mas longe de ser o que era, pois sem um Boavistão, a lutar pela Europa, este duelo não tem o mesmo sabor. Nota positiva para a dupla de centrais dos dragões, que parece que está para ficar — Marcano e Maicon. Este último não terá grandes memórias do Boavista, já que foi expulso muito cedo no Dragão e contribuiu para o empate caseiro. O Boavista tinha uma missão: fechar-se e magicar uma forma de fazer os inimigos esquecerem os caminhos para baliza. Não estava fácil segurar o rival, mas em algumas ocasiões conseguiram anular o FCP e até sair em contra-ataque. Foi raro, mas aconteceu.

A segunda parte começou como a primeira, com o FC Porto a empurrar os homens da camisola do xadrez para a baliza de Mika. Quaresma, que continuava ativo, ganhou logo um canto e, abanando a mão, pediu o apoio dos adeptos. A precipitação começou a apoderar-se do cérebro dos jogadores do FC Porto, enquanto os boavisteiros serenavam e começavam a habituar-se àquele jeito de sofrer, arrumadinhos, organizados e certinhos. A ousadia chegaria mais tarde, principalmente pelos pés de Uchebo (entrou aos 54′) e Brito. Lopetegui, com o jogo a caminho de um desfecho perigoso, recorreu ao tal bispo e rainha: Tello entrou aos 54′, Brahimi aos 65′.

E… a sensivelmente dez minutos dos 90, o suspeito do costume daria conta do recado. Quem? O rei do xadrez de Lopetegui: Jackson Martínez (79′). O colombiano nunca tinha marcado ao Boavista, era a única equipa que lhe faltava na Primeira Liga. E pronto, já está. Não há quem se livre deste senhor. A jogada foi de Tello, que recebeu já dentro da área, do lado esquerdo. O espanhol depois encarou o defesa, com uma simulação-para-ali-mas-eu-vou-para-aqui, e cruzou, forte, com a canhota. Jackson antecipou-se ao marcador direto e, apesar do desvio e efeito imparável, a bola que rodava a 300 quilómetros à hora lá atravessou a fronteira para um país chamado “Glória”.

Antes do golo do colombiano, o Boavista até tinha obrigado Fabiano a uma grande e apertada defesa. Foi aos 73′, pelo lado direito da área dos dragões. Brito encheu-se de coragem e rematou, com muita força, mas o gigante guarda-redes brasileiro fecharia a porta, que não era dia para perder pontos.

Aos 85′, chegaria o golo da tranquilidade para os visitantes. A jogada foi inventada pelo centro até chegar à esquerda. Tello tocou para dentro, para Brahimi, e o argelino desviou de um defesa e chutou para o poste direito de Mika, 2-0. Julen Lopetegui parecia querer enviar o braço para a bancada, tal a violência do gesto efusivo na hora da festa. Fez lembrar Jürgen Klopp, o excêntrico treinador do Borussia Dortmund. Na bancada começaram a gritar-se os tradicionais “olés”, que servem, mais do que para gritar a qualidade do próprio clube, para tentar humilhar o rival. Afinal, isto é um dérbi com barbas. Curiosamente até chegariam a ouvir “olés” de volta, como troco.

Ponto final no Bessa. Fica a dúvida se Alex Sandro, Casemiro e Danilo levaram o cartão amarelo no jogo com o Vitória de Guimarães para limpar e estarem aptos para o clássico com o Sporting, mas, se foi essa a intenção, foi arriscado. Óliver depois magoou-se. Mas o que surpreendeu mesmo foi Lopetegui ter deixado Brahimi e Tello no banco, prontinhos para entrar para corrigir um desvio qualquer que poderia acontecer. E aconteceu. Mas quem tem o rei do tabuleiro do xadrez tem tudo. FC Porto vence, soma três pontos e volta a colocar-se a quatro pontos do líder Benfica. Para a semana há clássico. E esse terá torres, cavalos, peões, bispos, reis e rainhas… Terá tudo.