Novecentos e catorze dias. 914. É muito tempo, certo? José Mourinho não contribuía para a sua tendinite preferida, aquela potenciada pelo levantamento de tantos e tantos canecos, desde 2012, numa altura em que ganhou a Supertaça Espanhola pelo Real Madrid. Agora voltou a sentir o sabor da vitória, sorriu, mandou-se para o chão, armou-se em Nadia Comăneci, quase chorou, reconheceu o valor do adversário e disse sentir-se um garoto.

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Vamos por partes. O Chelsea despachou o Tottenham de Pochettino na final da Taça da Liga inglesa por 2-0, com golos de John Terry e Diego Costa. O jogo não foi espetacular, nem muito emotivo, nem com 300 fintas de Hazard ou Eriksen ou jogadas dignas de serem recordadas daqui a dez anos. Nem dez dias… Mas Mourinho compensou, ó se compensou. Já lá vamos, okay?

Durante a partida, um jornalista italiano, Tancredi Palmeri, que é seguido por mais de 100 mil twitteiros, não acreditava que o treinador português considerasse que a Taça da Liga serviria para colocar um ponto final na seca de conquistas. Mais: disse ter demasiado respeito por Mourinho para considerar esse um cenário, desvalorizando a Taça da Liga. Mas foi aqui que este italiano começou a pecar: subestimar Mourinho. Um troféu será sempre um troféu para o português, ainda por cima na competição que lhe ofereceu a primeira medalha em Inglaterra, em 2005.

Os blues igualaram o Aston Villa com cinco Taças da Liga, numa lista liderada pelo Liverpool (8). Mourinho venceu três das cinco. Então ele está a oferecer cimento e robustez à história do clube que adora e não haveria de ficar feliz? Que mensagem passaria para os jogadores se desvalorizasse uma competição? Este foi o 21.º troféu desde 2003. É dose e promete ser só um appetizer

As coisas começaram a correr bem no autocarro, quando a comitiva do Chelsea se deslocava para Wembley. É que o Manchester City, principal rival na luta pelo título, escorregara no campo do Liverpool (1-2). Depois do jogo, Mourinho falou numa missão impossível que culminou numa intenção de homicídio. O português não queria que os jogadores soubessem o resultado do City. Não queria ver ninguém a piar, fosse de alegria por uma escorregadela, fosse de frustração por um golo tardio. Queria os jogadores na escuridão, fazendo lembrar o filme de Iñarritu (“Birdman”), que cantarolava uma tal de “inesperada virtude da ignorância”. Não havia televisão no autocarro e o tema de conversa tinha de ser esguio como Hazard costuma ser. Mas alguém vacilou…

“Estávamos a ser bem-sucedidos nisso, mas um membro da minha equipa técnica saltou no autocarro. Fu%#… O Silvino, vocês conhecem o Silvino, saltou no autocarro. Eu queria matar o homem! Um membro do meu staff quebrou a regra”, continuou, entusiasmado, após a partida. Ou seja, os jogadores do Chelsea entraram em Wembley sabendo que poderiam, num futuro próximo, ficar com oito pontos de vantagem para o segundo lugar. Se houve distração ou não, ninguém sabe, mas a coisa rolou e bem. Foi um jogo sério e maduro por parte dos blues, daqueles que não importa se não se joga bem pois só interessa ganhar. À Mourinho.

Depois, sim, começou o show. Juntos, os jogadores esperavam a taça, para a erguer e mostrar aos adeptos. Quem a levou foi um tal de José. Os atletas estavam serenos, tranquilos, era mais um dia no escritório (uma expressão que soa melhor em inglês: another day at the office). Mourinho chegou, em passo de corrida, pousou o caneco, deitou-se, esticou a perna, qual ginasta (daí a referência no início a Nadia Comăneci), saltou, deu murros no ar e gargalhou. Parecia um miúdo que acabara de receber a primeira bicicleta. Os jogadores, até ali serenos, abriram um sorriso de orelha a orelha e berraram de felicidade. Parecia o filme “300”, só faltou o tradicional “auh! auh! auh!”. É este o poder de Mourinho: transmitir aos jogadores que ganhar é bom e vicia. E eles lá saltaram e celebraram.

https://www.youtube.com/watch?v=FKjiZxHydcI

“Antes do jogo, senti a mesma coisa que na primeira final [que disputei, em 2005] e é importante para mim sentir a mesma felicidade como nessa vitória”, explicou. “É importante para mim sentir-me um miúdo de 15 anos.” E foi isso que se viu. Sorridente antes do jogo, a trocar piadas com Hazard enquanto esperavam o hino, parecia que estava na véspera de Natal. Uma final é como o Natal para Mourinho, e foi isso que escapou ao tal jornalista italiano. Depois foi vê-lo brincar com um operador de câmera, atirando-lhe água, e o espetáculo frenético no pós-batalha. Foi especial, como ele disse que era em 2004 quando aterrou em Londres. Na segunda aterragem refutou esse cognome e preferiu “Happy One”. E foi isso que se viu domingo, um homem feliz.

Já depois de virar Wembley do avesso, de ameaçar a lágrima, de serenar, Mourinho sentou-se na sala de imprensa e transformou-se num homem em paz, esquecendo guerras do passado e o ar pesado, agastado e frustrado. Estava de bem com a vida. Elogiou o rival, lembrou ausências e contou a tal história de Silvino. “Estou muito feliz. Penso que devo começar por falar sobre o Tottenham e sobre Mauricio [Pochettino], porque são uma equipa fantástica. Ele está a construir uma grande equipa, ofereceram-nos um jogo muito difícil e lamento por eles. Ele está a fazer um fantástico trabalho e tem evoluído muito na sua carreira”, disse Mourinho.

O treinador português, de 52 anos, já meteu o primeiro troféu da época no bolso e promete ser um caso sério na Liga dos Campeões e na Premier League. Em Inglaterra está tudo bem encaminhado: em caso de vitória no jogo em atraso, fica com mais oito pontos do que o Manchester City a 11 jogos do fim. Na Europa garantiu um resultado favorável vs. PSG, em Paris, e piscou o olho aos “quartos”. Gary Lineker, uma antiga estrela inglesa, disse tudo: “Parabéns ao Chelsea. Mourinho é tão bom que ganhou a Premier League e a Taça da Liga no mesmo dia”. A lenda continua…

OS 21 CANECOS DE JOSÉ MOURINHO

FC PORTO (2002-2004)

– Campeonato português (2): 2003; 2004

– Taça de Portugal (1): 2003

– Supertaça Portuguesa (1): 2003

– Liga dos Campeões (1): 2004

– Taça UEFA (1): 2003

CHELSEA (2004-2007; 2013-…)

– Premier League (2): 2005; 2006

– Taça de Inglaterra (1): 2007

– Taça da Liga (3): 2005; 2007; 2015

– Supertaça Inglesa (1): 2005

INTER (2008-2010)

– Serie A (2): 2009; 2010

– Taça Italiana (1): 2010

– Supertaça Italiana (1): 2008

– Liga dos Campeões (1): 2010

REAL MADRID (2010-2013)

– La Liga (1): 2012

– Taça do Rei (1): 2011

– Supertaça Espanhola (1): 2012