Antes de começar a discorrer prosa sobre o novo restaurante do Páteo Alfacinha, convém situar quem lê sobre o próprio Páteo Alfacinha — nem toda a gente reconhece o nome. Trata-se da recriação de um bairro típico lisboeta, construída em 1984, pela mão de Vítor Seijo, avô do atual proprietário, Miguel Seijo. E é uma recriação tão bem feita que parece ter muito mais do que os trinta anos que celebrou recentemente. Ajudará o facto de ter sido construída com materiais retirados de casas de Lisboa demolidas, incluindo as colunas de um antigo palacete da Rua Castilho, do arquiteto Raul Lino, vencedor do prémio Valmor em 1930.

O Páteo Alfacinha tem sido, ao longo da sua existência, local de eventos, tirando partido dos diferentes espaços que o compõem: entre eles, um salão nobre com um jardim de inverno onde Miguel, em tempos, mergulhou na respetiva fonte (fazendo com que o avô se livrasse dela), uma pequena capela com vitrais pintados à mão, uma tasca com bancos de madeira e pipas de vinho, uma padaria com um forno a lenha funcional e até uma casa a que chamam a da Mariquinhas, que copia uma (apertada) habitação lisboeta do início do século.

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As decorações não são permanentes: pouco depois da reportagem aconteceu uma festa para convidados espanhóis / Hugo Amaral ©

No entanto, por ali nem tudo é diversão. No espaço também funcionam uma galeria de arte, diversas empresas e existe até uma antiga fábrica de azulejos que funcionou até janeiro do ano passado, tendo sido recentemente transformada em ateliê para diversos artistas. Posto isto, vamos à comida.

No Páteo há dois restaurantes: um chamado Horta, que só funciona no verão, e este novo Mercearia do Páteo Alfacinha, aberto há cerca de um mês. O nome escolhido não se deve a efeitos puramente estéticos ou a um revivalismo forçado: logo à entrada há diversos produtos em exibição, todos eles disponíveis para serem comprados. E não são produtos quaisquer: no vinho há algumas raridades, como edições vintage do vinho de Colares; a charcutaria é de um pequeno produtor de Barro Branco, perto de Vila Viçosa, e o arroz é de Calasparra, em Espanha, um tipo de arroz que não se encontra em mais lado nenhum em Portugal, ideal para todo o tipo de receitas que exijam um elevado grau de malandrice, gastronomicamente falando.

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Arroz que é uma bomba. Vem de Calasparra, um produto espanhol, da zona de Murcia / Hugo Amaral ©

Claro que quem não quiser sujar tachos e panelas pode (e deve) sentar-se à mesa e fazer uma refeição completa, como faria em qualquer outro restaurante. A carta inclui uma série de sugestões de petiscos, sendo que algumas delas se desdobram também em prato (dose maior). Casos, por exemplo, do bacalhau de asa branca com arroz bomba Calasparra ou dos ovos rotos com cogumelos e chouriço de porco preto.

Miguel transportou para o restaurante alguma da experiência acumulada na Casa do Marquês, a empresa de catering da família, onde trabalha, e isso nota-se em pormenores como o carrinho de queijos e enchidos que vem à mesa no início da refeição — o cliente escolhe e paga a peso — ou o carrinho de sobremesas que funciona como derradeira tentação, com destaque para o cheesecake (há várias compotas para combinar) ou um gelado de pudim abade de Priscos bem genuíno. Entre um momento e outro é possível provar uma gama de pratos/petiscos que incluem não só os mencionados arroz de bacalhau e ovos rotos, mas também lombo de atum com cebolada, carré de borrego com castanhas e hidromel, camarões em polme com maionese de coentros ou almôndegas de lebre com flor de sal, entre muitos outros. O cliente que queira beber vinho a acompanhar paga o preço que a mercearia pede por ele (“equivalente ao de qualquer supermercado”, garante Miguel), pagando uma taxa de rolha de 6€.

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Carré de borrego com castanhas e hidromel, bebida que, a confiar na internet, pode estar na origem da expressão “lua-de-mel” / Hugo Amaral ©

Para já, este Mercearia do Páteo Alfacinha está aberto ao jantar apenas à sexta e sábado, mas se a popularidade assim o exigir, Miguel não nega a possibilidade de abrir mais noites por semana. De qualquer forma, durante o dia não faltam (outros) argumentos para a visita: não só a vista do restaurante para a ponte 25 de Abril é mais nítida, como há mais hipóteses de se cruzar com aquele que, segundo o responsável, é o verdadeiro manda-chuva do Páteo Alfacinha, o gato Atlético.

Nome: Mercearia do Páteo Alfacinha
Morada: Rua do Guarda-Jóias, 44 (Ajuda), Lisboa.
Telefone: 21 361 2171
Horário: Aberto aos almoços de terça a domingo (12h30 às 15h00) e ao jantar à sexta e sábado (19h30 às 22h30)
Preço Médio: 25€
Reservas: Aceitam