Maryse chegou à redação do Le Journal de Dimanche em maio de 1968, numa época agitada na contestação jovem. Georges era cartoonista no mesmo jornal. Ela nasceu no seio de uma família católica e recebeu uma educação conservadora. Ele era o rosto da irreverência, da criatividade e do humor que ela havia aprendido a ignorar. Mas não ignorou. E apaixonaram-se à primeira vista. O relato é feito pela BBC.

Foi assim que começou o casamento apaixonado de um dos cartoonistas do jornal satírico Charlie Hebdo morto no atentado terrorista de janeiro em Paris. Georges Wolinski saiu de casa na manhã de 7 de janeiro para a primeira reunião editorial de 2015. Nem sempre o fazia, mas entendeu que devia comparecer ao primeiro encontro do ano na redação do Charlie.

Maryse é jornalista e nessa manhã tinha uma reunião. Decidiu desligar o telemóvel durante o encontro, mas ligou-o quando entrou no táxi que a levaria para casa. Nesse momento, choveram mensagens a perguntar pelo marido. Foi ao comentar com o taxista que soube do atentado à sede do Charlie.

O primeiro impulso foi seguir para a rua Nicolas-Appert, mas o genro persuadiu-a a esperar em casa. Uma hora depois, ouviu as palavras do marido da filha. “O Georges morreu”. E a vida da esposa do cartoonista alterou-se por completo. Sentiu-se “como se já não vivesse no presente, como se o mundo tivesse parado”.

Maryse aprendeu a recordar a sua relação com a mesma paixão com que se pautava a vida de Georges. Guiavam-se por valores semelhantes, baseados na tolerância, igualdade, paz e liberdade. Mas não pensavam da mesma maneira. “Eu não concordo com Saint-Éxupèry quando diz que o amor consiste em olharem juntos na mesma direção”, ilustra a jornalista.

“A chave para o nosso casamento era o humor”, confessa Maryse. Em 2002, a jornalista publicou o livro “Separate Rooms”, onde refletiu sobre os aspetos que perpetuaram o casamento com Georges, ao contrário do que aconteceu com a maioria dos amigos do casal. Para ela, o cartoonista tinha a capacidade de relativizar as situações mais complicadas e, por isso, “qualquer tensão entre nós acabava por se evaporar”.

Maryse não compreende o que aconteceu e chega a acreditar que o facto de o atentado ter acontecido durante uma reunião editorial foi o resultado de uma fuga de informação. E sente-se injustiçada, já que Georges nunca desenhou Mohammed: dedicava-se essencialmente aos cartoons políticos e sexuais. Na redação, Georges chegou a demonstrar preocupação: “Estamos a pôr em risco a nossa vida?”, queixava-se o cartoonista.

Em 2007, o caso sobre cartoons de Mohammed chegou aos tribunais e garantiram-lhes segurança. Mas, segundo Maryse, a situação não parecia perigosa neste momento. “Os jihads não matam pela religião, mas matam quem não pensa como eles”, afirma Maryse, certa de que os dois homens que invadiram o  Charlie naquele dia eram capazes de abater qualquer um sem motivo racional.

Depois do seu desaparecimento, são os hábitos de Georges que a mantêm empenhada em lidar com a morte do marido. Nos dias mais difíceis, em que não se cruzavam em casa, Georges gostava de colar post-tis pela casa a explicar como foi o seu dia. E deixava uma mensagem que a fazia sempre sorrir: “Eu beijei o teu sorriso adorável”. Além disso, enquanto ela trabalhava à secretária, Georges sentava-se por perto e desenhava-a. Às vezes, incluía-a nos cartoons: uma silhueta loira que os colegas sabiam ser a Maryse.

Agora, o apartamento do casal está forrado por estas mensagens, de modo a que a última nota que ela lê antes de se deitar seja “Boa noite, querida”. Ao fim de 47 anos de casamento, é isto que a encoraja a seguir em frente: “Olhar para todas estas palavras que ele deixou para trás”.

É assim que a esposa de uma das vítimas do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo recorda a vida e a morte dos membros da emblemática redação: “Morreram com as canetas na mão, morreram em ação”.