Ana Maria Magalhães

Coautora, com Isabel Alçada, da coleção “Uma Aventura”, editada pela Caminho. A dupla acaba de lançar Uma Aventura na Pousada Misteriosa, com ilustrações de Arlindo Fagundes.

“Quando eu era pequena o meu livro favorito era As Férias, da Condessa de Ségur, escritora francesa traduzida em todo o mundo. Era como se eu pertencesse àquela família. Li e gostei muito da história, mas liguei-me à família com laços de amizade, cada vez que abria o livro sentia que ia a casa de pessoas amigas, e esse é o segredo da ligação com os livros. Tinha oito anos. Li-o muitas vezes, mas às tantas só abria em determinado capítulo. Era como ir a casa de uns tios e ir só lanchar ou tomar um café. Era essa a relação que eu tinha. Pensei que se um dia tivesse um filho rapaz ia chamá-lo de Tiago, como um dos personagens, e foi isso mesmo que aconteceu.

No livro, lembro-me muito bem da escada, onde o grupo das meninas que vivem na quinta esperava pela chegada dos primos. Sabia aquilo tudo de cor e vivia aquele momento como se estivesse lá. O livro foi escrito no século XIX e as coisas mudaram muito, mas sempre gostei de o ler. Inconscientemente, criei empatia com os meus leitores à semelhança do que conseguiu a escritora. Se procurei isso foi de forma inconsciente, para que os leitores se sintam dentro do livro e se relacionem com os personagens.”

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Catarina Sobral

Escritora e ilustradora. Distinguida em 2014 com o prémio internacional de ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha com o livro O Meu Avô.

“Não tenho a certeza da idade, porque foi a minha mãe que mo leu. Devia ter uns seis, sete anos. As Aventuras de João Sem Medo do José Gomes Ferreira, um panfleto mágico que subverte os contos de fadas, escrito mais de meio século antes do Shrek. O livro conta os sucessos audaciosos de um rapaz que decide saltar o Muro que separa a sua aldeia Chora-Que-Logo-Bebes (uma terra bem portuguesa, de “infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite”), da floresta onde vivem todos os entes fantásticos das histórias de infância (e alguns das histórias dos adultos): varinhas de condão, príncipes, princesas com números de registo, homens sem cabeça, incompetentes triunfantes, etc. Ficou na memória por tudo isto, e talvez por ter sempre andado espantada de existir.”

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Afonso Cruz

Escritor e ilustrador de livros para crianças, jovens e adultos (não necessariamente por esta ordem). Entre os muitos títulos premiados que publicou conta-se o romance Para Onde Vão os Guarda-Chuvas.

“Há uns dias estive a ler com o meu filho o Astérix Legionário. Julgo que por volta dos sete ou oito anos comecei a ler BD franco-belga. Juntava todo o dinheiro que recebia da mesada para comprar os volumes encadernados da revista Tintin e, no Natal e aniversário, recebia alguns álbuns que lia com avidez. Acabei por vir a ter uma grande coleção de BD e alguns destes livros marcaram o meu modo de ler e de entender o humor, e, em especial os de Hugo Pratt ou de Comés ou de Tardi, tiveram o condão de me mostrar novas perspetivas na narração e no desenho.

Mas voltando ao Astérix Legionário, lembro-me, e pude corroborar agora ao relê-lo, de o ter achado um dos livros mais divertidos que tinha lido, especialmente pelo duplo sentido de muitas das situações, mas também pela capacidade de o desenhador, Uderzo, representar as suas personagens com uma naturalidade desconcertante”.

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Isabel Minhós Martins

Escritora e co-fundadora da editora de livros infantis Planeta Tangerina, tem dezenas de livros publicados na editora.

“O meu preferido é A Floresta, de Sophia de Mello Breyner. Quando o li descobri-me lá dentro: a protagonista chamava-se Isabel e tinha 11 anos, exatamente como eu. Nesse dia percebi que podemos encontrar-nos dentro de um livro.”

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David Machado

Escritor e vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca com o conto infantil A Noite dos Animais Inventados, publicou recentemente Eu Acredito, com ilustrações de Alex Gozblau.

“Um dos livros que li em criança que mais agitado me deixou é Os Cinco na Ilha do Tesouro, da Enid Blyton. Durante anos, a memória daqueles amigos, ainda crianças, quase da minha idade, sozinhos de férias numa ilha e longe do mundo dos adultos, vivendo perigos e aventuras, fez-me acreditar numa outra dimensão da infância, tão próxima da minha (por causa da forma como a história estava contada) que a possibilidade de eu entrar nela me parecia absolutamente real. Enfim, tudo o que se quer de um livro aos oito ou nove anos.”

Os Cinco Tesouro

André Letria

Ilustrador e editor da Pato Lógico. Acaba de lançar, com Ricardo Henriques, o livro Teatro, que pertence à coleção “atividários”.

“Tenho uma recordação familiar, que tem a ver com o livro do meu pai [José Jorge Letria], que se chama O Pequeno Pintor. Situo-o num período em que eu era criança, e foi um livro que me acompanhou para além dessa ligação. É engraçado saber que ele foi escrito a pensar em mim e numa imagem que ele teria do que eu viria a fazer, ilustração, porque o livro falava exatamente de um rapaz que tinha uma vocação artística e queria desenvolvê-la. O personagem não era ilustrador, mas sim mais ligado à pintura. O livro tem ilustrações de Henrique Cayatte, ilustrador e designer que sempre admirei muito e que ajudou a que o livro se fixasse na memória.

O Pequeno Pintor tinha como inspiração a nossa convivência entre pai e filho e através daí pode ter contribuído para me inspirar nesta atividade. Não me lembro que idade tinha quando o li pela primeira vez, mas foi publicado nos anos 80, por isso eu teria dez ou 11 anos. É um livro para crianças ou jovens, não é muito infantil, e encaixava perfeitamente na minha altura.”

O Pequeno Pintor

Isabel Alçada

Coautora, com Isabel Alçada, da coleção “Uma Aventura”, editada pela Caminho. Foi Ministra da Educação entre 2009 e 2011.

Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur. Era uma autora que na nossa época era muito lida, aquela sociedade ainda era muito próxima da nossa e nós conhecíamos os problemas que afetavam aquele grupo de meninos. Que me lembre assim com mais força é o livro que, de alguma forma, me revelou o que era um livro inteiro, com capítulos. Eu andava na terceira classe, tinha entre oito e nove anos, e foi uma prenda de final de 2.ª classe. À medida que ia lendo estava a sentir uma felicidade enorme por estar a ler um livro com capítulos, ainda por cima tinha ilustrações a cores, o que não era muito comum na época. O efeito foi fulminante porque me fez ler todos os outros livros dela e as coleções onde ela estava. Foi uma revelação também para ler mais, ler outros livros. Foi absolutamente determinante.

Tenho a sorte de me lembrar muito bem da infância, tive uma infância fantástica e de alguma forma influenciou-me a mim e à forma como propus, e consegui, o Plano Nacional de Leitura com muitos livros que são aconselhados para surtirem o efeito de levar uma criança a ler os outros, que é o que se pretende. Isso tem muito a ver com o primeiro livro que eu li.

Não sou capaz de dizer se me influenciou enquanto escritora. Há uma coisa que há nos livros da Condessa de Ségur que nós também temos nos nossos. É que as personagens são muito bem recortadas, de forma a que o leitor se sinta próximo do personagem. A Sofia era uma menina com quem eu quase falava, eu sentia o que ela dizia e fazia. É também uma revelação para quem começa a ler — ter a capacidade de entrar nos pensamentos do personagem. De alguma forma ajuda muito o desenvolvimento psicológico das pessoas, conhecer os motivos que estão por trás das ações, os sentimentos, a revolta, tudo isso ajuda muito à compreensão do outro e de nós próprios.

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