O jornalista do Público Tolentino da Nóbrega morreu esta terça-feira, no Funchal, vítima de doença oncológica. O jornalista de 63 anos – e mais de 40 de profissão – trabalhava no Público desde 1993 e acompanhava como correspondente no Funchal a atualidade da Madeira.

Iniciou-se como colaborador do Comércio do Funchal, o pequeno jornal impresso em papel cor-de-rosa que, com Vicente Jorge Silva à cabeça, era, nos anos que antecederam a revolução do 25 de Abril, um semanário com impacto nacional.

Trabalharia depois no Diário de Notícias do Funchal, entre 1974 e 1993, altura em que optou de vez pelo Público, tende sido desde então o seu correspondente em exclusividade no Funchal. Pelo meio ainda ficaram colaborações com o Expresso, os desaparecidos A Luta e O Jornal e o Diário de Notícias (de Lisboa). Também chegou a dar aulas, pois foi professor na Escola Secundária Francisco Franco,

Foi Prémio Gazeta Jornalismo (o mais prestigiado da profissão) em 1999, tendo-se distinguido pela forma independente como cobria a realidade madeirense, sobretudo o longo “reinado” de Alberto João Jardim, que por regra abordava de forma crítica, sendo por isso considerado incómodo pelo poder regional.

Em 2006, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Numa entrevista que deu em 1999 ao jornal Record, a propósito do Prémio Gazeta, assumia que era adepto de um jornalismo “que se bate por causas nobres”: “Foi a ideia que me transmitiram as pessoas que fui admirando ao longo destes 25 anos, a ideia de um jornalismo partidário da cidadania”.

Na mesma entrevista, dizia-se não “um crítico do dr. Alberto João Jardim”, mas sim “um crítico de todas as formas de autoritarismo e de todas as formas de governo que desrespeitem as liberdades, muito particularmente a liberdade de expressão”. Para ele, “se há, numa região de Portugal, pressões e coações contra jornalistas, restrições ao acesso às fontes de informação, então não há democracia plena, há défice democrático”.

Tolentino da Nóbrega sabia do que falava, pois ele próprio teve de se confrontar, nos primeiros anos de democracia mas já com um governo eleito na Região Autónoma da Madeira, com a mais poderosa das formas de intimidação: as ameaças à própria vida. “Acordei duas vezes com uma bomba debaixo do carro”, recordava nessa mesma entrevista.

A doença impediu-o de cobrir as recentes eleições regionais, as primeiras sem Alberto João Jardim, O seu último artigo para o Público data de fevereiro e era sobre a exclusão do partido de Marinho Pinto.

O funeral realiza-se às 15h de quarta-feira para o Machico, que era a sua terra natal. Antes, pelas 13h30, será celebrada uma missa na Igreja Velha de São Martinho no Funchal.