“Noooo! Noooo! Noooo!”. A palavra repetia-se, insistente, na voz do espanhol que a pretendia fazer chegar ao outro lado do relvado. Tê-la-á gritado aí uma dez vezes à medida que, com a mão direita erguida, abanava o dedo indicador, de um lado para o outro, em jeito de negação. A cara era de quem estava irritado e assim parecia mesmo estar Julen Lopetegui. Porque nem um minuto passara até alguém que tinha uma televisão à frente pegar no telemóvel, ligar para o banco de suplentes do FC Porto e dizer que, no tal outro lado do campo, o homem que segurava a bandeira se tinha enganado.

E como o árbitro foi na conversa anulou, logo aos 8’, o golo, a alegria e os festejos limpos de Brahimi, que rematara para a baliza uma bola que Ricardo Quaresma cruzara da direita e Herrera, perto do segundo poste, dominara mal para a deixar ao jeito do pé do argelino. E o treinador continuou, chateado, a embirrar com o erro a cada paragem no jogo, que aproveitava para, com outros ‘nãos’ ditos em castelhano, lembrar ao árbitro o golo que uma decisão roubara à equipa. Talvez insistisse nisto pois, no campo, poucas razões via para se preocupar com o muito que o Rio Ave deixava os dragões fazerem.

Rio Ave: Ederson; Lion, Prince, Nélson Monte e Zeegelaar; Wakaso, Tarantini e Diego Lopes; Ukra, Jonathan Del Valle e Jebor.

FC Porto: Fabiano; Danilo, Maicon, Marcano e Alex Sandro; Casemiro, Hector Herrera e Óliver Torres; Brahimi, Ricardo Quaresma e Aboubakar.

Os vila-condenses estavam ligados, bem despertos e com vontade de não andarem a cheirar a bola. Ukra e Del Valle eram atrevidos, iam lá à frente pressionar e tentar prender Danilo e Alex Sandro ao fundo das laterais, enquanto Diego Lopes e Tarantini tentavam não sair da sombra de Casemiro e, sobretudo, Óliver Torres. Eram teimosos e queriam ser chatos à força, mas a paciência, como se sabe, é uma virtude, e os dragões lembravam-se dela quando as coisas, aqui e ali, iam apertando. Por isso rodavam a bola a poucos toques para trás e para o lado quando precisavam de atalhos para a fazer chegar à frente e, aí sim, deixar que Brahimi e Ricardo Quaresma dessem muitos toques na bola.

O português, sobretudo ele, dava muitos e moía o juízo a Marvin Zeegelaar, na direita. Quando há ritmo na ginga do extremo há pesadelos para quem o defende e, aos 13’, uma simulação de cruzamento tirou-lhe o holandês do caminho e abriu espaço para uma trivela à figura de Ederson. Aos 15’ só ele conseguia rematar um ressalto no qual nem Aboubakar, Óliver ou Alex Sandro acertaram após Brahimi, na esquerda, rematar às mãos do guarda-redes do Rio Ave. O pontapé passou por cima da baliza. Era a Quaresma que a equipa pedia, sem cerimónias, que inventasse coisas quando virava a bola para a direita, depois de concentrar o Rio Ave do lado oposto antes de ter pressa a atirar a bola para o outro. A fórmula parecia ser esta, mas o golo só apareceu quando se fez algo diferente.

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Porque a primeira vez de Quaresma à esquerda do campo deu o primeiro remate dos perigosos quando um cruzamento largo de Danilo foi parado pelo pé direito do português, o mesmo que à entrada da área rematou a bola à barra da baliza do Rio Ave. A bola fez ricochete para dentro da área e o mais rápido a chegar-lhe foi Danilo, mais rápido sobretudo do que Zeegelaar, que o derrubou e fez o árbitro apitar para penálti. Bola a 11 metros da baliza, pé direito de Quaresma, 1-0 e sexto golo no campeonato para o extremo.

O golo aparecia quando a bola ficara quieta, mas o FC Porto fazia-a correr quase como queria perto da área do Rio Ave. Os toca e foge de Brahimi, Herrera, Alex Sandro e Danilo eram muitos e o simplificador funcionava nessa alturas. Os anfitriões, a perder, começaram a arriscar mais e o desarme passou a ter tanta prioridade quanto as perseguições aos adversários. Tarantini começava a fazê-lo várias vezes e, aos 30’, uma correria sua levou a bola até Ukra, na esquerda, que a ajeitou para dentro e rematou pouco por cima da baliza. Jebor o mesmo fez aos 41’, quando apertou o relaxamento de Herrera, roubou-lhe a bola, tabelou com Diego Lopes para, à entrada da área, rematar às mãos de Fabiano.

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O Rio Ave melhorava nos ataques e os dragões não encravavam os seus. Brahimi continuava a dar um pezinho de dança com os adversários e a guardar outro para tocar a bola em tabelas por todo o lado, guardando a bola até ver uma nesga para a rematar. Danilo teve mais do que isso a segundos do intervalo, quando vários passes rodaram até encontrarem o brasileiro à beira da área, no meio, sem médios adversários por perto, com tempo e espaço para o jeito do pé direito curvar a bola para a baliza. Era o 2-0 e o 100.º golo que o FC Porto marcava esta época.

Era o segundo festejo da tarde, a segunda vez que Lopetegui, em castelhano ou português, gritava golo. Ou “Toooooor”, como gritam os alemães do Bayern de Munique treinado por Pep Guardional, com quem os dragões têm um encontro marcado na quarta-feira, para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. Julen não queria saber disso quando falou antes do jogo, mas talvez os jogadores quisessem, pois a segunda parte arrancou com eles mais descansados, mesmo que, logo aos 48’, um remate de Alex Sandro só não tenha dado golo porque Nélson Monte estava em cima da linha para tirar de lá a bola.

Depois os pés azuis e brancos foram relaxando. No passe, na velocidade, nas corridas e nos ressaltos. Quem está em campo, a jogar, não demora a reparar nisto e os jogadores do Rio Ave sentiram-no. A equipa foi avançando uns metros, apertou os dragões e apressou as jogadas por notar que, do lado contrário, as reações eram mais lentas. Como o foram num canto, aos 51’, em que a cabeça do baixinho Diego Lopes passou a bola à do grandalhão Jebor que a rematou bem perto do poste esquerdo da baliza de Fabiano. A bola tinha mais companhia de Ukra e, sobretudo, Diego Lopes, que não paravam quietos e tentavam contagiar os seus.

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Só aos 70’, num livre em que Danilo viu uma hipótese de estoirar para a baliza — ou bem para trás dela, como aconteceu. De resto a bola ia chegando a Hernâni, que substituíra Quaresma, ou a Aboubakar sem que nada de útil fosse inventando com ela. Os dragões confiavam que as coisas estavam controladas e amoleciam nessa confiança. Na que Danilo e Maicon tiveram para acharem que um encosto bastava para, no minuto seguinte, interromper uma arrancada de Zeegelaar pela esquerda. Mas não, o holandês nem sequer abrandou e acabou a cruzar rasteiro para Tarantini, perto da marca de penálti, marcar e dar o 2-1 que espicaçou o jogo.

Lopetegui, agora sim, gritava o maior “nooo”. A equipa tinha de acordar e não deixar o Rio Ave continuar a espreguiçar-se e a conseguir trocar passes e passes com um à vontade que ia aproximando a posse de bola para os 50-50. Os vila-condenses estavam ligados ao objetivo da reviravolta, o mesmo ao qual Pedro Moreira não teve tempo de se habituar. Entrado há minutos, o médio recuou até perto da área para tabelar com Prince, mas o passe que pretendia devolver ficou curto e Aboubakar apanhou-o a meio caminho. O camaronês arrancou, livrou-se do central francês e mandou a bola para a frente da corrida de Hernâni, à direita, cuja canhota bateu de primeira Ederson para, aos 83′, fazer o 3-1 — e o primeiro golo do extremo, vindo do Natal do Vitória de Guimarães, pelos dragões.

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Os golos “acalmam a equipa”, disse Quaresma, no final, com o jogo feito. Tinha razão. Os dragões venceram onde o Benfica, semanas antes, acabara a perder (2-1) e mantiveram os três pontos de distância na perseguição ao líder. Mas o 2-0 que a equipa levou para o intervalo fê-la voltar dos balneários relaxada demais para um Rio Ave que aproveitou para subir um degrau na intensidade e arriscar uma reviravolta.

O FC Porto venceu porque na primeira parte mostrou o toca-e-vai, as tabelas e a paciência para simplificar os passes que safam os jogadores da pressão adversária. É esse tipo de coisas que terá de se focar para, na quarta-feira (19h45), nos ‘quartos’ da Champions, fazer frente ao Bayern de Munique que há um ano e meio joga com a convicção de Pep Guardiola — de que um jogo domina-se e controla-se através da bola. Será a primeira vez esta época que os dragões estarão no relvado com uma equipa que quer tanto ter a bola como eles.