Futebol

Seis pormenores da história com que o FC Porto embalou o Bayern

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Além dos golos, da pressão que não parou, do penálti e da história que o FC Porto escreveu no 3-1 ao Bayern, há outras coisas que ficam da vitória da primeira mão dos "quartos" da Liga dos Campeões.

Podíamos estar aqui a falar do conta-quilómetros nas pernas, dos passes certeiros e dos falhados, dos contra-ataques ou até dos remates. Mas números, para quê? Não há treino que os faça, eles não se treinam, mas são antes como um fruto que cai das árvores que sim, se treinam, conseguem abanar. E o dia em que o Bayern chegou de Munique para visitar o Porto mexeu com várias, mesmo que tenha havido abanões que apenas se viram em pormenores, coisas pequenas em que as câmaras não se centraram, mas mostraram, ou em outras às quais os treinadores dedicaram, ou não, muitas palavras.

1. A irritação de Alonso e o pé esticado de Neuer

Os dragões arrancaram frenéticos, com a genica no máximo, eletrificados. O Bayern de Pep Guardiola, viciado em ter a bola, até podia passar muito tempo com sua companhia, mas daí a fazer o que bem lhe apetece com ela, é outra história. Os homens do FC Porto pressionaram, muito e bem, e Jackson Martínez deu o primeiro exemplo. O colombiano foi chatear Xabi Alonso, que poucas bolas costuma perder: deu-lhe um encosto, dividiu a bola e o espanhol barbudo caiu, desequilibrado, no relvado.

Ficou mais atrapalhado do que revoltado, pois nem falta pediu. Gatinhou antes de se levantar e começar a correr, quando Jackson já estava a desviar a bola de Manuel Neuer, na área, e o guarda-redes alemão a tocar-lhe com a ponta do pé esquerdo, desviando-a para o lado. Esse desvio tirou a bola do caminho da baliza e mesmo que o germânico não tivesse derrubado o colombiano, Jackson ficaria de lado, não de frente, para as redes. Por isso houve um cartão amarelo, e não um vermelho, a suceder ao apito com que o árbitro marcou penálti. Ao mesmo tempo lá estava Alonso, dentro da baliza, com a cabeça tapada pela camisola, a esbracejar com gestos de descontentamento. Na segunda parte voltou a perder uma bola na fronteira com a área e aí, furioso, bateu com a palma da mão na relva.

2. Pressionar não é só correr, é ser esperto

Há jogadores que parecem ver tudo, como se a cabeça fosse uma torre de controlo com uma vista de 360º. Dante nem é um deles, mas quando, lá atrás, a bola passada por Xabi Alonso estava a caminho do seu pé esquerdo, terá antes visto que Ricardo Quaresma estava longe, perto do lateral esquerdo do Bayern. E estava. Porque o português esperou, foi paciente, não cedeu à tentação de correr que nem um desalmado e soar o alarme do que aí vinha. Não, Quaresma esperou que Dante o visse longe e que, depois, fixasse o olhar na bola.

E só aí, quando o brasileiro olhou para baixo, é que o português arrancou. Era o sinal de partida pelo qual aguardava. Quaresma sprintou e tão rápido foi que na altura em que Dante reergueu o olhar, o homem do FC Porto já só estava a um metro de relva dele. Não teve tempo — e pézinhos, claro, porque é nestas alturas que a técnica salva um homem — para remediar a situação. Falar, nestas alturas, também ajuda, porque, mesmo parecendo, não há jogador que consiga ver tudo. Será que alguém, nestes dois segundos, avisou Dante do que aí vinha? Talvez não.

3. Quaresma também chegou a adormecer

Os cantos curtos são tramados porque só existem para tramar os outros. O Bayern fez um destes na primeira parte e preferiu tocar a bola com passes curtos, do lado esquerdo, até a fazer chegar quase à linha do meio campo. Dante, um dos centrais, até começou a correr para regressar à área do Bayern, à qual pertence, quiçá para mostrar que a equipa já desistira daquela jogada. Parecia que já nada se ia passar, mas isto era apenas um sinal para enganar.

A bola recuou tanto, mas tanto, que Ricardo Quaresma, e outros, decidiram avançar. Até que a bola foi parar ao lado direito, ao outro central dos alemães, Jérôme Boateng. Estranho, não? Sim, o suficiente para Quaresma olhar para trás e ver que Thiago, em sentido contrário, estava a entrar na área do FC Porto, sozinho, em direção ao segundo poste da baliza. O português viu-o, até começou a recuar, mas fê-lo a passo lento, quase sem correr. Por isso, quando Boateng cruzou a bola, rasteira, e ela passou pelos poucos dragões que andavam na área, Thiago lá estava sozinho para a rematar e marcar o golo do Bayern.

4. Herrera e Óliver mascararam-se de sombras

O Bayern de Munique, e Julen Lopetegui carregou nesta tecla várias vezes, é uma das melhores equipas do mundo. Pep Guardiola montou-a para ter paciência até chegar com os jogadores juntinhos à linha do meio campo, enquanto vão trocando passes e tabelas com a bola para, só a partir daí, carregarem no acelerador e arrancarem em desmarcações, trocas de posições e ataques à séria à baliza — isto se tiverem homens livres para tocarem na bola. E quase nunca tiveram, sobretudo porque Hector Herrera e Óliver Torres se colaram a quem andava ali com a missão de fazer a bola chegar ao ataque.

O mexicano e o espanhol não largaram Thiago Alcântara e Philip Lahm, ou Mario Götze, quando este se fartava da solidão e vinha atrás à procura da bola. Eram como sombras de todos eles e, mesmo que tocassem na bola, não deixavam que os bávaros se virassem com ela na direção da baliza do FC Porto. Por isto, e pela pressão que os restantes dragões andaram a fazer, é que muita da bola que o Bayern teve andou nos pés dos defesas centrais da equipa. Além de puxar muito pelo físico, isto consegue-se pela coisa que Evandro, do FC Porto, sublinhou após o jogo: “O nível de concentração esteve hoje [ontem] muito acima.”

5. Lopetegui e o calendário

O FC Porto está a meio da viagem e a chegada ao destino das meias-finais não está garantida. Quando a euforia se espalha pelos adeptos é comum ver os treinadores a baixarem o lume para tornarem brandas as expetativas. Julen Lopetegui fê-lo após o jogo, uma e outra vez, enquanto dizia que ainda falta uma partida contra “uma das melhores equipas da história”. Será na próxima terça-feira, às 19h45, em Munique. Pelo meio, os dragões jogam às 18h de sábado, para o campeonato.

O treinador espanhol “não gosta” disto e acha que “não é bom para o futebol português”, tanto que até o repetiu várias vezes. Lopetegui criticou-o sem dizer porquê nem revelar o que pretendia que acontecesse. O fim de semana em que se joga a 29.ª jornada da liga já estava agendado antes de o FC Porto saber que ia estar nos quartos-de-final da Champions. Jogar de três em três é duro, sim, mas pelo qual as equipas que pretendem ganhar, dar nas vistas e lutar por tudo têm de passar. E o Bayern de Munique também joga no sábado, às 14h30, para a Bundesliga.

6. Os dragões de rastos, no final

Quando o árbitro apitou três vezes, dando sinal que, por fim, já não se mexia no 3-1 histórico do FC Porto ao Bayern de Munique, o Estádio do Dragão explodiu. Trocaram-se gritos, palmas, abraços e palavras de euforia nas bancadas. Os jogadores também deviam estar felizes, mas houve uns quantos que suspiraram de alívio. Como Danilo e Casemiro.

O primeiro deixou logo cair estendido no relvado, ficando a olhar para o céu, a arfar. O segundo estava perto, não deitado, mas com as mãos apoiada nos joelhos e os braços a susterem o peso de um corpo curvado. Ambos estavam exaustos, de rastos. Porque se é certo que uma equipa como o Bayern (e o FC Porto) corre menos quanto maior for o tempo que passa com a bola, também é verdade que, para não fazer o que lhe apetece com ela, quem não tem a bola tem de correr muito. E cada portista, em média, correu mais quatro quilómetros que cada bávaro.

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