A indústria do jogo de Macau não tem sido capaz de controlar a criminalidade, verificando-se delitos nos casinos, entre lavagem de dinheiro, presença de tríades, intimidação para pagamento de dívidas, agiotagem e raptos, indica um estudo.

Em “Governação de Casino em Macau: Dimensões e Comparações com Singapura”, o académico de Hong Kong Sonny Lo, juntamente com Dennis Hui, analisa cinco aspetos ligados à gestão dos casinos e ao seu impacto para Macau, destacando a criminalidade e a relação com os ‘junkets’ (angariadores de jogadores) como um dos pontos em que Macau mais falha em relação à Cidade-Estado.

Além de casos envolvendo os próprios trabalhadores dos casinos – com croupiers a roubarem fichas, por exemplo – Sonny Lo destaca que “raptos e agiotagem são vistos como crimes comuns diretamente relacionados com os casinos de Macau”.

Através do estudo publicado este mês, o académico salienta que os ‘junkets’ “podem facilmente tornar-se um veículo para lavagem de dinheiro e outras atividades ilegais”.

Enquanto em Singapura as operações dos angariadores de jogadores “têm sido estritamente controladas” e o seu licenciamento tem sido feito de forma “cautelosa” (apenas três operadores têm licença), em Macau há 200 ‘junkets’ a promover o setor do jogo.

Além disso, os regulamentos são “frequentemente ignorados por um largo número de operadores de ‘junket’ sem licença”.

Sonny Lo salienta que as atividades dos ‘junkets’ “têm sido associadas com a competição entre gangues criminosos que querem expandir o seu controlo sobre o negócio das salas VIP” dos casinos.

O elevado número de angariadores a operar nos casinos de Macau leva também a situações de “intimidação e detenção ilegal” para cobrar dívidas, tendo em conta “a natureza informal do crédito acordado entre os ‘junkets’ e os clientes”.

O estudo chama ainda a atenção para a “maré de lavagem de dinheiro”, que Macau não consegue “efetivamente travar” apesar de leis que obrigam os casinos a reportar todas as transações acima das 500 mil patacas (cerca de 58 mil euros).

A facilidade com que os turistas da China conseguem trazem elevadas somas de dinheiro é apontada como um motivo, estimando-se que a circulação anual de dinheiro nos casinos envolvendo lavagem de dinheiro chegue aos 1,57 biliões de patacas (183,7 mil milhões de euros).

“Macau tem de enfrentar o desafio constante de lidar com persistentes grupos criminosos e as suas atividades relacionadas com casinos, como agiotagem, rapto e lavagem de dinheiro”, indica o estudo.

Sonny Lo alerta ainda para o facto de tríades locais e de Hong Kong se terem “infiltrado em algumas, mas não todas, [empresas] de ‘junkets'”, o que significa que “os casinos acabaram por lhes disponibilizar uma oportunidade de ouro para lucrar, tanto por meios legais, como ilegais, através da entrada nas salas VIP como agentes de marketing e através de atividades como agiotagem dentro dos casinos”.