Porque é que se juntam as palavras enxames, tsunamis, cidades, ondas de choque e galáxias no mesmo texto? Para falar do que acontece às galáxias que se encontram muito compactadas num espaço muito pequeno. As compressões e fusões podem fazer com que a as galáxias sejam devolvidas à vida e cresçam. Mas vamos lá explicar isto de uma forma mais simples.

Imagine uma colher a agitar o conteúdo de uma caneca de café. A imagem é criada por Andra Stroe, aluna de doutoramento no Observatório de Leiden (Holanda), para explicar o efeito das “ondas de turbulência no gás galáctico” que dão origem ao colapso do gás. “[É] este processo [que] leva à formação de nuvens de gás frias e muito densas que dão origem depois à formação de novas estrelas”, revela a investigadora em comunicado de imprensa. Neste processo intenso dentro das galáxias, formam-se umas estrelas e morrem outras e grandes quantidades de gases são expelidas das galáxias nestas explosões.

Algumas destas estrelas estão incluídas em grandes cidades de galáxias – autênticos enxames onde milhares de galáxias convivem num espaço relativamente pequeno. Tal como numa cidade humana sobrepovoada, vive-se em condições extremas, e muitas galáxias podem até estar mortas, ou pelo menos moribundas. Já a nossa Via Láctea vive nos subúrbios, uma área com poucos vizinhos, o que lhe permite formar novas estrelas ativamente.

Quando as galáxias dos enxames se fundem, crescem, mas, mais importante do que isso, formam ondas de choque – “verdadeiros ‘tsunamis’ com milhões de anos-luz de extensão, que se propagam ao longo de todo o enxame e que comprimem o gás”, refere o comunicado.

“A onda de choque cria condições para a formação de novas estrelas e também ativa os buracos negros das galáxias”, refere David Sobral, investigador no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. “De uma forma simples, o tsunami cósmico traz as galáxias, que se encontravam numa espécie de coma, de volta à vida!”

“Até há pouco tempo, sabia-se muito pouco acerca dos efeitos que a fusão de enxames e os tsunamis cósmicos tinham nas galáxias”, lembra David Sobral, que liderava a equipa que trouxe novos dados sobre o efeito da onda de choque. Para o investigador foi “surpreendente” perceber que as galáxias não eram meros espectadores. Mas Andra Stroe, que também participou no estudo, lembra que a equipa vai agora “estudar uma amostra muito maior de enxames de galáxias”,para perceber se o que viram “acontece [apenas] em condições particulares ou se é aplicável a qualquer choque de enxames de galáxias”.

Os resultados agora apresentados (aqui e aqui) resultaram da observação com os telescópios de La Palma, nas ilhas Canárias, e do Havai, com a aplicação de filtros especiais desenvolvidos por David Sobral.