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“Há uma falta de compreensão entre este painel e na própria audiência, que até é uma audiência notável, mesmo tendo em conta os padrões de esquerda da BBC”, disse Nigel Farage, líder do UKIP, durante um debate ao vivo em abril. Seguiram-se protestos de quem estava sentado na audiência a questionar os líderes dos vários partidos e Farage acabou por dizer que a sua verdadeira audiência “estava em casa”. No entanto, pouco tempo antes das eleições, essa audiência teima em não aparecer, com as sondagens a preverem que o partido terá um resultado muito abaixo do esperado há um ano e acabará por eleger apenas um deputado – menos um do que tem atualmente.

Com 12% das intenções de voto da população britânica, e apesar de poder ser o terceiro partido mais votado, o UKIP conseguirá no máximo eleger um ou dois deputados para o próximo parlamento, um resultado muito aquém para um partido que ganhou eleições locais e arrebatou as últimas eleições europeias no Reino Unido. Se por um lado o sistema eleitoral britânico é responsável pela falta de tradução da preferência dos cidadãos no partido – o UKIP pode vir a receber cerca de 4 milhões de votos, mas como os votos estarão dispersos por todo o país, não consegue reunir os votos suficientes para disputar os círculos eleitorais -, os britânicos parecem cada vez menos convencidos pelos argumentos do partido eurocético.

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Nigel Farage já veio mesmo dizer que caso não seja eleito, não se vai recandidatar, já que é a terceira vez que se está a candidatar a um assento em Westminster. “O meu pescoço está em risco. Eu tenho de ganhar esta eleição. Eu sou o líder do partido e preciso de ser eleito porque senão vou deixar de o ser”, afirmou o eurodeputado. Um apelo final, já que o Yougov indica que o círculo pelo qual concorre, South Thanet, em Kent, deverá ser ganho pelos conservadores. Os eurocéticos estão à frente apenas num círculo eleitoral, Clacton, parecendo para já que o UKIP perdeu mesmo o círculo de Rochester and Strood.

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“Se eu deixar a política, vou pescar e vou ter mais tempo para ir ao pub”, disse Nigel Farage.

Para esta perda de popularidade têm contribuído vários fatores. Desde logo o esvaziamento das questões do UKIP por parte dos conservadores, especialmente no que diz respeito à resistência britânica à União Europeia e à imigração. Os conservadores propuseram um referendo, prometem renegociar os termos de permanência do país na organização e querem um controlo mais apertado da entrada de pessoas dentro do Reino Unido, temas puxados para a praça pública pelo UKIP – que nasceu de uma cisão de vários conservadores -, mas que David Cameron se viu forçado a abraçar. Devido às tendências xenófobas de alguns dos membros do UKIP e receios de ligações à extrema-direita, a intervenção dos conservadores nestes questões é encarada com mais seriedade.

O escândalo mais recente dentro do partido, foi motivado pelo candidato ao círculo eleitoral de North East Hampshire. A candidatura de Robert Blay, do UKIP, foi suspensa depois de ter sido apanhado por um jornalista a dizer que gostaria de dar um tiro no candidato conservador. Blay acusou ainda o candidato conservador de ter um filho só para ser eleito, chamando vários nomes ao seu oponente. Ao mesmo tempo, Elliot Nichols, um antigo candidato do UKIP que tinha saído dos conservadores, disse que cometeu “um grande erro” ao juntar-se a Nigel Farage.

“Há dois anos deixei o Partido Conservador e juntei-me ao UKIP. Troquei com grande esperanças, mas depois de alguns acontecimentos – especialmente nos últimos meses – apercebi-me que estava cometer um grave erro”, diz Elliot Nichols.

Um dos mais controversos episódios nesta campanha foi quando Nigel Farage disse, durante um debate, que a maior parte dos diagnósticos de VIH no Reino Unido são de imigrantes e que cada doente custa mais de 25 mil libras por paciente ao serviço nacional de saúde britânico. Não era a primeira vez que o líder do UKIP tinha mencionado estes dados, tendo já sugerido que fosse impedido o acesso de imigrantes aos medicamentos contra o VIH. Foi dito em direto, chocou muitos britânicos e causou uma onda de revolta nos restantes líderes presentes. Esta afirmação foi o momento mais comentado no Twitter de todo este debate, com muitos críticas a Nigel Farage.

Nesta última fase da campanha, até o argumento eurocético parece estar a falhar ao partido, já que vários conservadores alegam que votar no UKIP é assinar “um bilhete de suicídio” pois apenas um Governo liderado por David Cameron conseguirá realizar o prometido referendo, que vai perguntar aos britânicos se eles pretendem ou não continuar na União Europeia. Iain Duncan Smith, secretário de Estado do Trabalho do Governo de Cameron, defendeu numa entrevista ao The Telegraph que a não realização do referendo “é um risco, já não é um protesto” e que os eurocéticos deviam votar nos conservadores para estes chegarem ao poder. Farage respondeu que este tipo de comentários só atrairá mais pessoas para o UKIP. Esta quinta-feira, UKIP e conservadores enfrentam-se nas urnas.