A prova de que nada disto foi planeado está na meia dúzia de linhas que se segue: em junho do ano passado, Paulina Mata, coordenadora do mestrado em Ciências Gastronómicas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, foi convidada para participar num congresso no Brasil. Entre a audiência estava Juliana Magalhães Adjafre, chef de cozinha e, também ela, professora. Juliana, que sempre quis prosseguir a carreira académica na área da gastronomia, ficou a saber do mestrado e três meses depois estava em Lisboa, pronta para assistir à sua primeira aula.

Daí até ao Aromas e Temperos, o restaurante que a chef abriu há menos de um mês perto da Estefânia, foi uma sequência rápida de acontecimentos. “Conheci uma pessoa que tinha este espaço e que me disse: ou abrimos lá alguma coisa ou eu vendo-o.” Abriram.

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A par do restaurante e do mestrado, Juliana também dá aulas de cozinha brasileira na Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal. (foto: Tiago Pais / Observador ©)

O nome, que até já existia — fruto de uma encarnação anterior do mesmo local, um típico snack-bar de almoços à portuguesa –, assenta que nem uma luva (de cozinha) ao conceito que Juliana implementou. “Temos os aromas brasileiros com os temperos portugueses.” Cada prato da carta, que ainda não é uma carta, antes um quadro de ardósia colocado numa das paredes do espaço, segue essa regra.

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Por exemplo, o que a chef designa por “Meu Pastel de Bacalhau” é uma reinterpretação de um dos mais famosos petiscos nacionais: a massa é de pastel, sim, mas de um pastel tipicamente brasileiro e o recheio de bacalhau leva azeite de dendê e leite de coco. O “Crocante da Ilha”, outra das propostas, é composto por cubos fritos de tapioca com queijo da ilha, acompanhados de uma geleia picante (leva malagueta) de pera-rocha e sumo de clementina a acompanhar. E o conceito estende-se ao resto das criações da chef cearense. Em qualquer uma delas há sempre elementos dos dois lados do Atlântico. Mais: todas são feitas para partilhar. Juliana explica a razão. “Com doses pequenas, as pessoas conseguem provar mais pratos e ficar com uma ideia melhor desta cozinha. A ideia é que, por exemplo, um casal peça três ou quatro pratos e uma sobremesa.” E mesmo nesse campeonato pode esperar-se criatividade, uma aliança de sabores luso-brasileira — como no melífluo sagu ao Porto com creme de lima e limão — e duas colheres.

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Sagu ao Porto, uma das sobremesas da casa. O cuidado na apresentação é comum a todos os pratos da chef. (foto: Tiago Pais / Observador ©)

Desde que abriu o restaurante, Juliana tem recebido várias visitas dos seus professores, como a própria Paulina Mata ou o gastrónomo Virgílio Nogueiro Gomes. E será que têm gostado? “Sim, a reação tem sido muito positiva”, conta. E isso só augura coisas boas para a carreira académica da chef, já que o Aromas e Temperos vai servir-lhe de tese de mestrado. O que não quer dizer que seja um projeto temporário. “Nada disso, a intenção é mesmo ficar por cá”, garante. E até abrir aos almoços, em breve, quando “estiver tudo estabilizado”.

Nome: Aromas e Temperos
Morada: Travessa Rebelo da Silva, 2 (Arroios), Lisboa
Telefone: 21 362 0119
Horário: De segunda a sábado das 19h30 às 23h30
Preço Médio: 15€
Reservas: Aceitam