Una cagada é uma porcaria. Do espanhol para o português, à letra, tintim por tintim, é isto que significa. Mas podia ser pior. Podia ser como o “desculpe, mas isso é uma merda” com que Pep torceu o nariz ao jornalista que atribuiu a Guardiola a reputação de ser o melhor treinador do mundo. Com ou sem um nariz torcido na cara do catalão, isso talvez até seja verdade. Pelo menos tanto quanto isto — pelo que se viu até agora, qualquer equipa em que Pep Guardiola toque está habilitada a ganhar canecos. Foi assim no Barça e assim o é no Bayern. O problema foi quando as duas se tiveram de cruzar.

Porque durante quatro anos Pep habituou a os catalães a ganharem tudo, dominando, e agora vai no segundo ano a tentar habituar os bávaros a fazerem o mesmo. No primeiro ano a coisa correu assim-assim, pois em Munique não chega ganhar tudo na Alemanha e, na Europa, chegar às meias-finais e perder 5-0 com um Real Madrid que viria a vencer a Liga dos Campeões. “Enganei-me. Enganei-me completamente. É uma grande cagada. A pior cagada que fiz como treinador“, lamentaria Guardiola, queixoso por ter posto toda a carne no assador e deixado Cristiano Ronaldo e companhia castigarem-no com livres e contra-ataques.

Essa foi a maior cagada, só que agora apareceu uma parecida. O sorteio foi matreiro. Quis ver um Barça que já gosta mais de passar a bola rápido para a frente do que lenta para os lados a jogar contra um Bayern que, com Guardiola, mete os jogadores juntinhos até ao meio campo para depois lhes soltar da trela e fazê-los acelerar até à baliza. Não correu bem para o lado de Pep, que no regresso a Barcelona apenas se aguentou até aos 77 minutos. Até Lionel Messi fazer das suas messizices, marcar dois golos, dar outro a marcar (3-0) e, pelo meio, fazer tombar Jérôme Boateng como um pinheiro. Correu tão mal que Franz Beckenbauer até tentou aproveitar o argentino para tirar moral aos que o rodeiam: “Sem Messi, o Barcelona seria apenas uma equipa banal.”

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Mas isso nem a um talvez podia chegar. Porque na segunda mão, mesmo com o Bayern a entrar a matar e, logo no arranque (7′), ver a cabeça do marroquino Mehdi Benatia a dar-lhe um 1-0, foram os que rodeavam Messi a mostrarem que não têm nada de banal nos pés. Muito menos Luis Suárez, o dentudo uruguaio que transformou duas bolas em assistências redondinhas para Neymar, o moleque brasileiro que marcou os dois golos do Barça. A cagada aparecia cedo — à meia hora de jogo os alemães de Guardiola já precisavam de rematar cinco bolas para dentro da baliza se quisessem chegar à final da Champions.

Não o conseguiram, mas ao menos diminuíram o tamanho da cagada. E devem um danke a Robert Lewandoski, o homem da máscara de ferro vindo da Polónia, e a Thomas Müller, o alemão que menos pinta de jogador tem, pois ambos marcaram golos de craque, com remates em jeito, dos bons. Ficou 3-2 (5-3 na eliminatória), o Bayern ganhou, mas foi o Barcelona a seguir caminho para a final da Liga dos Campeões, em Berlim, mesmo ali ao lado. E que cagada também já está a ser a relação de Pep Guardiola com a capital alemã — foi lá que, na época passada, venceu a Taça e conseguiu a vitória que lhe garantiu a conquista do campeonato, e é para lá que não irá esta temporada, porque perdeu nas “meias” da Taça da Alemanha e, agora, da Champions.

Mas as cagadas acontecem e ninguém pode ganhar sempre, mesmo que ganhe muito. E, neste caso, a cagada de Pep apareceu contra alguém que, de repente, lhe parece estar a seguir as pisadas. Sim, Luis Enrique, o ex-avançado de feitio difícil que chegou a coexistir com Guardiola no Barça, enquanto jogador, conseguiu, tal como ele, chegar à final da Champions na primeira época a treinar a equipa catalã (com o mesmo número de jogos feitos e tudo: 56). E isto já não é cagada. É obra.