Medicina

E se pudesse mudar de corpo? Literalmente

Um neurocirurgião italiano diz que pode transplantar cabeças em 2017, apesar de ter grande parte dos cientistas contra ele. E já tem 50 pessoas na fila à espera de uma nova vida.

A operação obriga a um investimento de 10 milhões de euros e a um coma induzido de um mês

AFP/Getty Images

A notícia correu mundo e já foi explicada aqui, mas agora foram divulgados os detalhes do procedimento. De um lado estará o corpo de um paciente em morte cerebral, do outro a cabeça de alguém que precisa/quer mudar de corpo. Primeiro, arrefecem-se os dois corpos até à temperatura de 12ºC. Depois, o neurocirurgião separa as cabeças dos dois corpos, seccionando com precisão os vasos sanguíneos, os ossos e as terminações nervosas. E então transplanta a cabeça no novo corpo, voltando a unir todas as estruturas através de uma “cola médica” chamada polietiglicol.

Parece uma descrição tirada da imaginação Mary Shelley, criadora de Frankenstein, ou mesmo de um episódio da saga “Saw”. Na verdade, este é o projeto de Sergio Canavero que vai ser apresentado na Conferência Anual da Academia Americana de Neurologistas e Cirurgiões Ortopédicos, em Annapolis (Estados Unidos).

De acordo com as declarações do neurocirurgião italiano com 52 anos ao ABC, a cirurgia demorará dois dias, custará cerca de 9 milhões de euros e exige uma equipa médica com 150 pessoas. Ao fim de um mês em coma induzido e de um ano em fisioterapia intensiva, qualquer pessoa que se tenha submetido a um transplante de cabeça vai conseguir mover-se e falar sem qualquer restrição.

Quando Sergio Canavero anunciou à comunidade que o projeto – em estudo há 30 anos – podia concretizar-se em 2017 e ser aperfeiçoado no prazo de cinco anos, também sublinhou que este transplante pode melhorar a qualidade de vida de pessoas com degeneração muscular ou cancro terminal. O neurocirurgião garante que tem dezenas de patrocinadores interessados em investir no procedimento e outras tantas pessoas em lista de espera para serem operadas. “A maioria são transsexuais e pessoas com muito dinheiro”, afirma o médico italiano.

Dois meses depois do anúncio de Canavero, Valeri Spiridónov estava a contactar com o neurocirurgião. É um programador russo de 30 anos que sofre de atrofia muscular. Ao ABC, Spiridónov diz que a sua “decisão é definitiva” e que o medo não pode ser impedimento a que tente mudar de vida.

Além das vantagens de um transplante de cabeça em pessoas doentes, este procedimento levanta outra questão: será que podemos eternizar a vida? Com uma cirurgia desta natureza, pode transferir-se infinitamente uma cabeça para um corpo mais jovem assim que se envelhece.

É essencialmente neste ponto que se levantam as questões éticas relacionadas com as práticas médicas: pode o homem ter o poder de controlar a duração da vida? E até que ponto essa gestão é realmente saudável? Também existem questões de ordem psicológica. Em 1988, por exemplo, um homem pediu que lhe retirassem a mão transplantada por não se sentir mentalmente conectada com ela. Pode isso acontecer com a cabeça?

Canavera julga que isso não se coloca. Todos os pacientes vão receber apoio psicológico durante pelo menos seis meses antes da operação e mesmo depois dela. E quando esse transplante é executado devido a uma deficiência física ou doença fatal “não há problemas éticos, com pacientes desse tipo faz-se o transplante e ponto final”.

Faz-se, se for possível. Mas não é, diz Carlos Ruiz Ocaña, presidente da Sociedade Espanhola de Neurocirurgia ao ABC. “É impossível transplantar uma cabeça humana nas condições apresentadas neste projeto”, porque a ciência ainda não evoluiu até esse ponto. Até porque ao utilizar polietilenglicol para unir ossos e terminações nervosas, iria impedir que a comunicação entre o cérebro e os membros.

Os transplantes de cabeças já estão a ser tentados pela comunidade científica há muitos anos, mas nunca foram bem sucedidos. Em 1954, Vladimir Demikhov tentou transplantar a cabeça e membros de um cachorro para o tronco de um cão adulto, mas o animal morreu ao fim de uma semana. Dezasseis anos depois, em 1970, Robert White experimentou o procedimento num chimpanzé, mas não conseguiu ligar a medula espinal e o animal não durou mais que nove dias.

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