Uma lenda, define o sempre fiável Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, através do portal Infopédia, é uma “tradição oral ou narrativa escrita de sucessos duvidosos, fantásticos ou inverosímeis, mas que assenta num facto real.” E é especialmente importante, no que a este artigo diz respeito, ter em conta a última parte da definição. Até porque a lenda em questão começa precisamente por um facto real.
Há pouco mais de duas semanas chegou por email à redação deste e de outros meios um comunicado a dar conta da abertura de um novo restaurante em Lisboa, chamado Brasserie Sixty 6. E é esse o facto real sobre o qual assenta a lenda. O restaurante existe e está, efetivamente, de portas abertas, a servir clientes. Também não é menos verdade que à frente dessa brasserie de inspiração parisiense está um simpaticíssimo indivíduo de 71 anos, chamado Tomás Mascarenhas. A partir daqui, torna-se tudo mais duvidoso, fantástico ou inverosímil, para citar a definição inicial. A começar no percurso de Tomás, assim descrito no dito comunicado.
Foi viver para a Suíça com apenas 4 anos. Apaixonado por cozinha desde cedo, acabou por no último ano do curso de Gestão Hoteleira pôr-se a caminho de Paris para tirar um curso na prestigiada escola francesa de gastronomia Le Cordon Bleu. Com 21 anos entrou para a cozinha do Maxim’s em Paris. Pouco tempo depois já era sous chef do Hotel Georges V, onde veio a ser chef executivo. A vontade de aventurar-se fora do ramo hoteleiro levou-o nessa altura a aceitar o desafio de ser chef pessoal de Georges Pompidou. Foi, também chef da Rainha Juliana dos Países Baixos, em Haia, onde trabalhou durante dois anos. A esta passagem por Haia seguiu-se o lugar de chef pessoal de Conrad Hilton e de Ronald Reagan (no primeiro mandato deste). Do seu percurso profissional fazem parte o trabalho em alguns dos melhores hotéis do mundo como o Waldorf Astoria, o New York Hilton And Towers, o Fontainebleau Miami e o Sheraton Commander Boston, entre outros. Foi proprietário de diversos restaurantes em Nova Iorque, entre os quais o Sans Souci, o Plantation e o L’Ermitage, mantendo-se proprietário de restaurantes em Moscovo, em Dublin, Meersburg e Konstanze, que deixou à gestão da filha.
Impressionante, sem dúvida, mas não conta tudo: bastou uma conversa de duas horas com o chef Mascarenhas — que apesar de ter passado 66 anos fora do país se expressa num português nativo quase imaculado — para este acrescentar mais uns quantos capítulos fabulosos à sua vida:
- Pertencia a uma das famílias mais poderosas do Estado Novo e cortou cedo relações com os pais.
- Casou-se nove vezes. Os divórcios custaram-lhe caro mas ficou amigo de quase todas as ex-mulheres. Os filhos licenciaram-se todos em Harvard.
- Naturalizou-se americano há 47 anos, o que lhe valeu nove meses na guerra do Vietname.
- Só aguentou o primeiro mandato de Ronald Reagan muito por causa de Nancy, a primeira-dama.
- Foi chef do Kremlin e abriu o primeiro restaurante de Moscovo no pós-Perestroika, o Kropotkinskaya 36.
- Viveu dois anos com Pavarotti, como chef pessoal deste. Chamavam-se maestro um ao outro.
- Teve programas de culinária na NBC, Channel 3 e na televisão russa.
- Fala dez idiomas e tem uma coleção de 15 automóveis na sua propriedade nos Estados Unidos da América.
A acompanhar a narração destas histórias, o chef ia folheando um dossiê com fotografias e recortes antigos, em que surgia em diferentes cenários e contextos, ora em recepções oficiais ora na cozinha de restaurantes. O seu discurso, altamente cativante, parecia corroborar com curiosidades, factos e descrições específicas tudo aquilo que dizia.
“O Pavarotti tinha um prato próprio, enorme, onde comia pasta. Ainda perguntei à Nicoletta [Mantovani, ex-secretária e viúva do tenor] o que é que lhe tinham feito depois de ele morrer mas já tinha desaparecido.”
“Os três tenores odiavam-se. O Pavarotti ficou possuído quando soube que o José Carreras se ia mudar para o mesmo prédio dele em Nova Iorque, para um andar superior. Fez de tudo para não deixar o ‘piccolo’, como lhe chamava, mudar-se para lá. Mas não conseguiu.”
“O Gordon Ramsay? Aquilo é tudo show off, para a televisão. Conheço-o bem, é um tipo encantador.”
“Toda a gente sabia que era a Nancy Reagan que mandava na Casa Branca. O Ronald era um doce de pessoa mas ela era terrível. Todos os dias tinha de aprovar a ementa. Agora imagine, ela era um palito… só gostava de saladas.”
A sala de refeições da Brasserie Sixty 6 (foto: Nuno Lapa)
No meio jornalístico ainda estão bem frescas as memórias do caso Artur Baptista da Silva, o suposto colaborador da ONU que deu entrevistas e participou num debate televisivo sobre a dívida portuguesa. É natural, por isso, que antes de escrever o artigo em questão fosse imprescindível obter referências que corroborassem um currículo tão preenchido. Mas não foi fácil encontrá-las: a internet é parca em menções a Tomás Mascarenhas (ou Thomaz Mascarenhas na respetiva versão norte-americana).
Confirma-se, a fiar em referências como esta e esta, que foi chef de alguns restaurantes nova-iorquinos, como o Plantation — uma churrascaria brasileira de grandes dimensões que existiu perto do Central Park –, o Aja ou o L’Ermitage. Confirma-se igualmente que tem (ou teve), de facto, um restaurante na Alemanha, chamado Pane&Vino e há algum tempo que se tornou empresário de restauração em Dublin, onde não é dono da Brasserie Sixty 6 local mas sim de outra steak house, chamada Buenos Aires.
Tomás Mascarenhas diz que na Brasserie Sixty 6 serve a melhor carne irlandesa. “A mesma que Olivier tem, a metade do preço.” (foto: Nuno Lapa)
Na maior parte dessas referências, Tomás/Thomaz Mascarenhas é descrito como o antigo chef de Georges Pompidou e Ronald Reagan. Mas em parte alguma se encontram provas substanciais dessa ligação aos ex-presidentes de França e dos Estados Unidos da América. Pelo contrário. O chef executivo da Casa Branca durante o primeiro mandato de Ronald Reagan foi o suíço Henry Haller, autor da obra The White House Family Cookbook, e que se retirou em 1987, depois de 21 anos nessa posição. Da mesma forma, quando se pesquisa pelos antigos chefs de Pompidou, surgem à baila nomes como Gerard Potel ou Bernard Vaussion, mas nada de Tomás Mascarenhas.
Entre as menções a chefs pessoais de Luciano Pavarotti (aqui e aqui) também não se encontra nenhuma que corrobore a história de Mascarenhas. E nem o seu envolvimento no suposto primeiro restaurante da Moscovo pós-perestroika, o tal Kropotkinskaya 36, parece ser fácil de provar: de acordo com uma série de artigos, como este ou este excerto de um livro, o dono dava pelo nome de Andrei Fyodorov. E quem cozinhava era, pelos vistos, uma chef de nome Marina Khamidulin.
Um dos pratos do menu, fricassé de gambas e vieiras. (foto: Nuno Lapa)
As dúvidas suscitadas pela pesquisa foram expostas à assessora responsável pela comunicação do espaço que se prontificou a falar com o chef. As respostas foram algo evasivas — afinal fora chef pessoal de Reagan e Pompidou “antes de estes se terem tornado presidentes”, daí não constar nos registos da Casa Branca e do Eliseu. Já no restaurante de Moscovo era sócio de Andrei porque “era muito difícil ter um negócio no nome de um estrangeiro”.
Será este o chef português (ou não) com a vida mais preenchida e entusiasmante de todos os tempos? Ou não passará a sua narrativa de uma patranha criativa, com o intuito de despertar a curiosidade de potenciais clientes? Não caberá a este texto dar uma resposta definitiva. Mas quem quiser encontrá-la pode sempre visitar a Brasserie Sixty 6 e, com sorte, ouvir a lenda de Tomás Mascarenhas da boca do próprio.
Nome: Brasserie Sixty 6
Morada: Travessa da Fábrica dos Pentes, 20 (Rato)
Telefone: 213 870 230
Horário: De segunda a sexta-feira das 11h30 às 15h00 e de terça a sábado das 18h00 à 00h00
Preço Médio: 30 euros
Reservas: Aceitam