Cientistas da Universidade de Cambridge descobriram que algumas alterações relacionadas com o material genético dos progenitores poderá passar à descendência, a descoberta foi anunciada a instituição em comunicado de imprensa. Mas como é que isto acontece?
Um halterofilistas pode trabalhar muito os músculos durante a vida, mas isso não implica que os filhos venham a ser mais musculados. Assim como um macaco que se estica muito para conseguir a fruta, não vai passar à descendência braços mais compridos ou um corpo mais ágil. Assim como um filho não vai nascer com as mesmas cicatrizes que o pai. Qualquer alteração no organismo que não afete diretamente os genes dos óvulos e espermatozóides não passa para os filhos.
Pelo menos era o que se tinha como certo até agora. Mas a equipa de Azim Surani, professor no Cancer Research UK, verificou que há uma parte das alterações nas células dos progenitores que podem passar aos descendentes. O melhor é explicar o processo passo a passo.
É o ADN que tem o nosso código genético e os genes são partes desse código que controlam determinadas características ou funções. O ADN contido no núcleo de cada célula não está todo ativo ao mesmo tempo, existem algumas moléculas que funcionam como interruptores dos genes – ligando e desligando os genes num processo chamado metilação. Este processo pode acontecer naturalmente ou condicionado pelo ambiente em que vivemos, como quando passamos por períodos de fome ou por alguma doença.
Ligar e desligar os genes é importante para o indivíduo regular algumas funções do organismo, mas também pode trazer alguns problemas de saúde. De qualquer forma, não seria expectável que este processo, que pode afetar várias células do corpo incluindo as células reprodutoras, afetasse a geração seguinte, isto porque os interruptores são “apagados” e o ADN “limpo” durante a formação do embrião.
“A informação epigenética é importante na regulação dos genes, mas qualquer metilação anormal, se passada de geração em geração, pode ser acumulada e prejudicial para a descendência. É por esta razão, que a informação precisa de ser apagada em cada geração antes que nova informação seja adicionada para regular o desenvolvimento do ovo recém-fertilizado”, explica Azim Surani em comunicado de imprensa. “É como apagar o disco de um computador antes de se adicionar novos dados.”
O estudo agora publicado na revista científica Cell verificou que cerca de 5% do ADN do embrião resiste a esta “limpeza” e “reprogramação”, que acontece entre a segunda e a nona semana de desenvolvimento. Estas regiões que se escaparam à “limpeza” estão particularmente ativas nas células neuronais, que parecem estar associadas a condições como a esquizofrenia, alterações metabólicas e obesidade, referem os investigadores.
Mas a metilação pode ter uma função de proteção dos genes e “apagá-la” também significa eliminar a primeira linha de defesa dos genes herdada dos nossos progenitores. Os investigadores verificaram também que parte dos mecanismos de defesa se “escapam à limpeza” o que nos pode proteger de algumas situações potencialmente nefastas.