Se já acordou num sábado ou domingo de manhã completamente de rastos e ainda teve de ouvir da companhia da festa “quem não sabe beber, não bebe”, este artigo é para si. Nem as ressacas nem as pessoas são todas iguais, é certo, mas chega a ser ingrato ver alguém que bebeu o triplo acordar fresco que nem uma alface. Aí vêm as desculpas: tinha dormido ou comido pouco, a idade já não é o que era, já não bebia há muito tempo. Mas serão estes os únicos culpados?

As ressacas ocorrem devido aos efeitos secundários dos químicos produzidos quando o álcool é processado. O álcool por si é inofensivo, mas as enzimas transformam-no em acetaldeído e isso é que causa o estrago todo. Quanto mais tempo o acetaldeído estiver no organismo, pior será para si e para o seu fígado. Existem outras enzimas que ajudam a eliminar o acetaldeído, mas os valores nos quais funcionam são extremamente variáveis de pessoa para pessoa.

Muitos asiáticos têm uma mutação num gene que aumenta a velocidade a que o acetaldeído se forma. Ou seja, em comparação com os caucasianos, eles sofrem muito mais efeitos colaterais provenientes do álcool, tais como rubor e náuseas. Existem outras ligeiras mutações de genes que alteram a quantidade de acetaldeído que uma pessoa consegue produzir e a rapidez com que consegue eliminá-lo.

Um estudo feito a mais de quatro mil gémeos na Austrália mostrou que a suscetibilidade às ressacas tem uma enorme componente genética. Obviamente que os genes que controlam estas enzimas são importantes, mas não são o único fator a ter em conta.

De acordo com o jornal The Guardian, foi feito um estudo nos Estados Unidos no ano passado que se focou, pela primeira vez, no que acontece aos micróbios quando uma pessoa bebe demais. Nesse estudo, foi dado um copo de vodca a 25 voluntários saudáveis, que não bebiam com regularidade. O resultado variou bastante, sendo que aqueles que tiveram os piores sintomas tinham os maiores níveis de toxinas provenientes dos seus micróbios dos intestinos. Para além de provocar uma inflamação, o álcool produziu um grande aumento das espécies de micróbios que eram pró-inflamatórias nos intestinos, estimulando o sistema imunitário como se estivesse a ser alvo de um ataque, contribuindo assim para a sensação de enjoo tão comum nas ressacas.

A ingestão de álcool de forma moderada pode aumentar a diversidade de micróbios benéficos para a saúde. Já a ingestão de muito álcool faz com que os micróbios libertem toxinas e também com que cresçam mais espécies de micróbios amantes de álcool. Estudos mostraram que, quando se dão estas toxinas a ratos, eles procuram mais álcool do que os ratos normais, sugerindo assim que os micróbios, através das suas toxinas, podem estar a encorajar-nos a procurar mais álcool, quem sabe levando mesmo à adição.

Se os micróbios são parte do problema, o que acontece se os eliminarmos? As experiências feitas em ratos aos quais foram dadas quantidades exageradas de álcool mostraram sinais de danos no fígado, novamente devido às toxinas e à inflamação. Quando esta experiência foi feita em ratos sem os micróbios, não foram encontrados sinais de danos no fígado. De regresso aos ratos normais, os cientistas decidiram alimentá-los com uma dieta rica em fibras e shots e compará-los com outros ratos a quem foi dada uma dieta pobre em fibras. Os ratos da dieta rica em fibra não apresentaram efeitos secundários do álcool nos seus fígados.

Agora já pode culpar os seus micróbios sempre que acordar com aquelas dores de cabeça, náuseas e letargia. No entanto, os micróbios também podem fazer parte da solução. Se souber de antemão que a noite vai ser dura, comece-a com uma fatia de queijo (dos mal cheirosos) ou com um copo de iogurte natural com alto teor de gordura e deixe os seus micróbios diminuírem parte da dor e do sofrimento. Pode não ficar a 100 por cento, mas no caso de uma grande ressaca, toda a ajuda é bem-vinda.