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A poucas horas do primeiro debate entre Passos Coelho e António Costa, vale a pena manter em memória algumas das questões mais importantes a que os dois líderes políticos têm fugido. Ponto de situação, para perceber hesitações (ou surpresas positivas) no duelo televisivo.

Questões para Passos Coelho:

  • Como poupar 600 milhões nas pensões sem as cortar, se em quatro anos nunca teve solução para isso? Ainda ontem, Paulo Portas deu três garantias: não irá contra o TC, não cortará nas pensões, vai procurar um consenso com o PS. Mas a verdade é que o programa da coligação não é claro – e a ministra das Finanças já disse, há uns meses, que a hipótese de cortes reais estava em cima da mesa. Mais até: nestes quatro anos, nunca a maioria conseguiu encontrar essa fórmula mágica.
    Sem dizer em que solução está a pensar, Passos colocou-se em posição defensiva. Costa não deixará passar a oportunidade de o questionar, como tem feito quase todos os dias. E deixa caminho aberto à oposição para levantar o fantasma de cortes passados.
  • Como quer fazer o plafonamento das pensões – com precisão? A proposta do programa da coligação mais contestada pelo PS está também em aberto. Catarina Martins perguntou ontem a Portas qual é o limite a partir do qual os portugueses poderão investir o dinheiro no privado – e quanto vai custar o período de transição. Portas limitou-se a dizer que ficaria “muito abaixo” de um milhão de euros ao ano.
    Costa tem visto caminho aberto para dizer que a coligação porá em causa a sustentabilidade da Segurança Social e se prepara para dar “negócio” aos privados. Será desta que Passos concretiza?
  • Há pressa em vender o Novo Banco? E nas concessões dos transportes? São pontos quentes para o debate: o Governo deu vários sinais públicos de que contava com uma venda rápida do Novo Banco, mas Portas disse – numa entrevista – que não havia pressa. Marques Mendes falou, no fim de semana, na hipótese de um adiamento. Mas ainda não se ouviu Passos falar das hesitações dos candidatos chineses, nem da injeção de capital de que o banco precisa.
    Para mais, há outro problema para discussão entre os líderes: o caso do papel comercial, que vale pergunta para os dois: que solução defendem?
    Quanto às empresas de transportes, são há muito motivo de divergência entre Passos e Costa. Os dois chegaram a negociar a concessão da Carris e Metro de Lisboa com a Câmara de Lisboa, mas o Governo acabou por avançar para os privados; na TAP, Costa prometeu reverter a privatização; nos SCTP e Metro do Porto, o Governo avançou com uma adjudicação direta apenas há uma semana – e o PS logo prometeu bloquear o concurso. A pressa promete discussão.
  • Onde estão as contas do programa? Uma das fragilidades maiores do discurso da coligação vem do facto de não ter mostrado as contas das suas propostas eleitorais – contestando depois as contas do programa do PS. Passos tem-se refugiado no Programa de Estabilidade entregue em Bruxelas, em abril, mas a verdade é que o lote de propostas da maioria vai muito para além dele. António Costa vai cobrar.
  • O que é que faz não tendo maioria absoluta? E se perder? São as perguntas políticas que os entrevistadores têm de fazer, mas à qual os líderes não têm qualquer interesse em responder (para não perderem votos). Mas as questões são cada vez mais importantes, tendo em conta as sondagens mais recentes.
    É altamente improvável que saia uma maioria absoluta do 4 de outubro, e Passos tem defendido até ao limite a necessidade de ter um Governo estável. Sem ele, como governa? O melhor que lhe ouvimos foi, este fim de semana, lembrar que já esteve na oposição e que não precisou de estar no Governo para negociar um orçamento do PS. Já sobre o cenário de derrota, nem uma palavra. Mas não falta quem, como Maria Luís Albuquerque, já tenham defendido que Passos se mantenha na liderança. Será?

Questões para António Costa:

  • Como garantir que a baixa da TSU não crie um rombo no OE ou na Segurança Social? É a dúvida mais vezes levantada por Passos Coelho nesta campanha – e com ajuda de contas com muitos números: 6 mil milhões, contas que diz serem do próprio PS; ou 14 mil milhões de euros, nas contas de “especialistas” não identificados. Jorge Bravo, o homem que ajudou a fazer o programa da coligação no que respeita à Segurança Social, fez outra conta: 12,5 mil milhões de euros em quatro anos.
    A proposta de redução da TSU levanta, de resto, outras perguntas difíceis de responder a Costa: como fazer com que a perda de receita, o aumento do consumo e das importações, que daí resultará, não acabem num problema orçamental e de aumento do défice comercial do país? Ou como convencer os parceiros sociais para apoiarem a medida? Costa tem uma defesa: as contas e o modelo que lhe foi entregue por Mário Centeno. Mas terá que explicar os riscos – e não terá vida fácil a explicar num debate um modelo tão complexo.
  • O que é que faz se a Comissão Europeia não aceitar a TSU? Ou se não tiver maioria na AR para a aplicar? É uma questão chave para os socialistas: primeiro, precisam de convencer Bruxelas a aceitar uma medida que contraria os planos que têm sido desenhados para toda a Europa – de contenção do consumo interno e aposta nas exportações. Mais ainda precisa de convencer quando Portugal ainda não saiu de procedimento de défices excessivos e precisa do ok de Bruxelas para o seu próprio Orçamento do Estado?
    Mas antes de chegar lá, Costa precisa de mais: de encontrar um partido no Parlamento que aceite dar-lhe apoio para esse plano – e até aqui todos os partidos dizem que esse apoio não será dado. Problema? Costa tem dito e sublinhado que todo o seu modelo económico está “interligado”, dependendo desta medida para atingir os efeitos de recuperação económica que ‘pagam’ o seu próprio custo – em dois anos. Sem ela, todo o modelo pode estar em causa.
  • O que é que teria feito se recebesse o Governo do país em 2011? Costa e Passos vão debater a economia de hoje – e vão divergir, um dizendo que já se passou o Cabo das Tormentas, outro que estamos ainda em plena crise. Mas também vão discutir os quatro anos passados, com Costa a repetir a tese de que o Governo aplicou austeridade a mais e afundou o país. A questão chave para Costa será sempre esta: se tivesse liderado o Executivo nestes anos, querendo ficar no euro, teria feito o quê de diferente?
    Passos quererá, aliás, ir mais longe, levando Costa aos tempos da governação socialista de José Sócrates, que diz ser a causa e consequência do que se passou no país nos últimos anos. Como é que o líder socialista vai lidar com a herança? Vamos ver.
  • Se votasse na Grécia, votava em Tsipras ou no PASOK? A Grécia foi assunto dominante no debate Portas-Catarina Martins. E Passos tem feito questão de usar o que se passou na Grécia contra o PS de Costa, que chegou a congratular-se com uma liderança política que prometia mudar o sentido da Europa.
    Com eleições marcadas para daqui a 10 dias na Grécia, Passos não largará o assunto, procurando uma colagem das propostas socialistas (e do seu discurso contra a “submissão à troika”) às de Alexis Tsipras.
  • O que é que faz não tendo maioria absoluta? E se perder? As sondagens não dão bons indicadores e o líder socialista vai sob pressão para o debate desta noite. Mais até do que Passos, Costa tem dito e repetido que não quer qualquer coligação com os partidos à direita. E tem disparado críticas (e recebido) do Bloco e PCP. A questão que sobra é, claro, se Costa quer governar em minoria. E, já agora, se fica na liderança (conquistada há menos de um ano a Seguro) se perder as eleições.

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