O programa do BCE de compra de dívida pública continua a assegurar que os juros das obrigações do Tesouro na zona euro se mantêm nos níveis mais baixos de sempre. É o caso da dívida portuguesa, mas também espanhola, italiana e dos vários países da união monetária. Mas um indicador de risco sobre estes mesmos títulos de dívida sugere que os investidores estão a mostrar algum receio quanto ao resultado das eleições de 27 de setembro e às implicações que estas poderão ter para a permanência da Catalunha no reino espanhol. Um risco que preocupa alguns, mas que não é mais do que ruído para outros.

Nos últimos dias, subiu o custo de comprar um instrumento que protege o investidor em dívida pública espanhola em caso de incumprimento. O preço a pagar por um credit default swap sobre dívida espanhola subiu de menos 100 pontos base para mais de 107 pontos em cerca de uma semana. Isso significa que para proteger 10 milhões de euros em dívida espanhola durante cinco anos implica um pagamento anual de 107 mil euros.

Risco na dívida espanhola sobe quase 10% em poucos dias

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A generalidade dos analistas e investidores tem-se mostrado relativamente tranquila face aos resultados das eleições, apesar de as sondagens dizerem que os independentistas estão próximos da maioria absoluta. Ainda assim, no terreno, ainda esta semana o Expansión noticiou que alguns investidores e escritórios de advogados com ligações a empresas catalãs estão a exigir cláusulas que os protejam em caso de secessão. E os bancos dizem que irão “reconsiderar a sua implantação na Catalunha perante o risco de secessão de Espanha”. As entidades pedem que sejam preservadas “a ordem constitucional e a permanência na zona euro do conjunto de Espanha para proteger os depositantes”.

Estas eleições são mais importantes que as de dezembro

As eleições de 27 de setembro apenas irão escolher o novo Parlamento regional, mas a atual liderança da Generalitat – na figura de Artur Mas – já declarou que a consulta popular equivalerá a um referendo à permanência no Reino espanhol. A administração central, por seu lado, recusa que esta equivalência possa ser feita e recorda que não há base legal para uma secessão e que esta não será reconhecida pelos outros países.

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Os analistas estão a olhar para as eleições na Catalunha este domingo com maior atenção do que, propriamente, as eleições legislativas que acontecem no final do ano.

“Já que um conflito aberto entre o governo central e o governo regional iria pesar consideravelmente sobre a economia espanhola, a eleição regional na Catalunha é, sem dúvida, um risco muito maior para os mercados de dívida do que as eleições gerais agendadas para dezembro”, escreve em nota de análise Ralph Solveen, economista do Commerzbank que segue de perto a Península Ibérica. Sobretudo porque, diz o especialista, “partidos como o Podemos deixaram de ser a ameaça que já foram“.

O especialista nota que, apesar de os juros da dívida continuarem em queda, “a incerteza acerca do futuro da Catalunha levou a uma dilatação da diferença entre os juros de Espanha e de Itália para o nível mais expressivo desde meados de 2013. Isto apesar de as perspetivas económicas de Espanha serem melhores do que as de Itália”. Por outras palavras, apesar de Espanha estar a crescer mais, está a ser penalizada na sua perceção de risco pela aproximação destas eleições na Catalunha.

Mas há investidores que consideram que as eleições e o risco de independência não são mais do que “ruído”. É o caso, por exemplo, dos gestores de carteiras de obrigações da londrina Bluebay Asset Management. Os especialistas dizem que veem “valor nas obrigações espanholas”, não só pelo juro de quase 2% a 10 anos mas, também, pelo facto de as taxas se terem dilatado na diferença face a Itália.

Mesmo que os partidos pelo Si à independência vençam, “a nossa expectativa é que o governo regional faça algum ruído a forçar a independência mas, no final de contas, acabarão por aceitar um grau maior de autonomia, à semelhança do que já acontece com regiões como o País Basco”, concluem os especialistas da Bluebay, recomendando que, como esta casa de investimento está a fazer, os investidores aproveitem para comprar ou reforçar posições na dívida espanhola.