Em 2005 dois adolescentes de origem africana, Bouna Traoré e Zyed Benna, fugiam da polícia, em Clichy-sous-Bois, Seine-Saint-Denis. Eram perseguidos por suspeita de arrombamento, quando se esconderam num edifício com algumas instalações elétricas inacabadas e morreram eletrocutados. O incidente levou a uma série de distúrbios que rapidamente se estenderam a toda a França. E os subúrbios de Paris encheram capas dos jornais e a abriram telejornais por todo o mundo.

Milhares de jovens saíram à rua com cocktails molotovs e pedras na mão, queimando milhares de carros e entrando em confrontos violentos com a polícia. As declarações do ministro do Interior francês da altura, Nicolas Sarkozy, não ajudaram a acalmar os ânimos: Sarkozy afirmou que ia “limpar” os bairros problemáticos da “escumalha” que os habitava. A revolta cresceu e a problemática situação social nos subúrbios parisienses tornou-se o tema principal dos debates.

Saint-Denis fica a pouco mais de 11 km de Paris. Pouco mais de meia-hora de caminho de carro.

Tudo começou em Seine-Saint-Denis. Esse mesmo. O departamento onde se verificou a operação policial, na madrugada desta quarta-feira, que cercou um apartamento com suspeitos de envolvimento nos atentados em Paris no dia 13 de novembro de 2015, e que terminou com sete detidos e, pelo menos, dois mortos. Saint-Denis voltou assim às bocas do mundo.

Saint-Denis. Uma história de bidonvilles, esquerda e problemas sociais

Saint-Denis é uma comuna, com cerca de 94 mil habitantes, que faz parte do departamento de Seine-Saint-Denis. Este departamento foi criado no dia 1 de janeiro de 1968, nos termos de uma lei datada de 10 de julho de 1964, e que deveria abranger o antigo departamento de Seine (que engloba 24 comunas que formam os atuais distritos de Bobigny e Saint-Denis) e uma pequena parte de Seine-et-Oise (16 comunas que formam o distrito de Raincy).

Esta zona tem registos pré-históricos que lhe oferecerem um enorme património arqueológico. Algumas ferramentas descobertas neste local, com mais de 300 mil anos de antiguidade, datam do Paleolítico Inferior. 

Mas já no século XXI, a divisão territorial verificada pelos anos 60 influenciou não só a geografia da região, como a demografia e, como consequência, a liderança política. Este departamento pertenceu, quase desde a sua formação, ao chamado “cinturão vermelho” de Paris. Isto é, e à semelhança de grande parte dos arredores da capital francesa, Seine-Saint-Denis tem uma tradição de ser um forte e um dos últimos redutos do Partido Comunista francês. Um dos últimos porque, até 2008, a esquerda comunista tinha a maioria nos conselhos gerais apenas neste departamento e no de Val-de-Marne, altura em que os socialistas ganharam as eleições e subiram ao poder.

Estas zonas nos arredores de Paris começaram a ser habitadas nos anos 50. Lá começaram a surgir os chamados bidonvilles (bairros de lata em português). Um termo nascido no Norte de África, criado num contexto de guerra colonial. Os desequilíbrios e a explosão demográfica misturavam-se, com as populações a mudarem-se para as grandes metrópoles. Com esta onda de imigração, iniciada nos anos anteriores à Guerra da Argélia (em resposta à contestação social em relação ao domínio colonial francês muitos argelinos foram recebidos no país sendo-lhes oferecido trabalho e, em teoria, melhores condições de vida), chegaram também os receios de criminalidade e insegurança, conflitos étnicos e pobreza. Só em Seine-Saint-Denis a percentagem da população de origem estrangeira cresceu dos 19% em 1968 para os 57% em 2005. Entre eles havia também muitos portugueses. 

A paisagem à volta de Paris ficou preenchida desses bairros de lata, instabilidade e precariedade. Paisagem esta que não sofreu grandes alterações em alguns locais. Noutros foi substituída por bairros sociais. E noutros construiu-se um estádio: 

bairros de lata seine-saint-denis

À esquerda o bidonville de Franc-Moisin, em Seine-Saint-Denis, nos anos 60. À direita, Bobigny no mesmo departamento em 2014. PIERRE DOUZENEL/ NICOLAS SERVE

1962 Bidonville de Cornillon

Bidonville de Cornillon na zona onde hoje se localiza o Stade de France. PIERRE DOUZENEL

E a vida política nesta zona parisiense é quase tão homogénea como a paisagem. Apesar de, até 2008, este departamento representar uma espécie de último reduto da esquerda francesa, tendo apenas nesse ano o Partido Socialista ultrapassando os comunistas e passando a liderar os destinos de Seine-Saint-Denis, nas eleições departamentais deste ano, os resultados são elucidativos. A coligação do Partido Socialista com o Partido Os Verdes reuniu a maioria dos votos do eleitorado, sendo seguido de perto pelo Partido Comunista que ficou em segundo lugar. Ou seja, apesar de o partido da liderança ter mudado em 2008, a posição de esquerda da população mantém-se.

Sinal disso mesmo foi a pouca expressão que a Frente Nacional de Marine Le Pen arrecadou no sufrágio, contrariando o avanço dos nacionalistas no resto do país. O partido de extrema-direita ficou nos últimos lugares ,com apenas 4% dos votos, provando a ‘aversão’ que os habitantes de Saint-Denis ainda têm pela direita. 

Até os próprios militantes e deputados municipais do partido liderado Le Pen neste departamento acabam por se desviar do caminho ideológico e tradicional da Frente Nacional. Exemplo disso mesmo foi facto de Maxence Buttey, deputado municipal de Noisy-le-Grand em Seine-Saint-Denise, se ter convertido ao Islão em outubro de 2014. Sobre a decisão Buttey chegou a admitir que “os eleitores vão ficar desiludidos com a minha escolha” mas acrescentou que “a religião e a Frente Nacional têm muito em comum”. 

Portugueses pelos subúrbios

Em França, e particularmente em Paris, está presente a maior comunidade portuguesa na Europa e no mundo, e uma das mais importantes comunidades estrangeiras no país, que ronda o milhão de pessoas. Espalharam-se ao longo das últimas décadas pelos subúrbios da Cidade Luz, e Saint-Denis não foge à regra. 

Os portugueses ou lusodescendentes envolvidos nos atentados de 13 de novembro espelham bem o caminho e a presença lusa pela cidade de Paris.

Manuel Cota Dias: o emigrante português que morreu junto ao Stade France. Era taxista, natural de Mértola, vivia na comuna de Reims há 40 anos. Localizada a quase 130 km da capital, Reims faz parte da região administrativa de Champagne-Ardenne e no departamento de Marne. 

Précilia Correia: a lusodescendente de 35 anos estava a divertir-se no Bataclan quando os atacantes entraram na sala de concertos. Précilia e o seu namorado francês de origem espanhola estão entre as 89 vítimas. Filha de pai português e mãe francesa, nasceu em Asnières-sur-Seine, um subúrbio localizado nas margens do rio Sena e pouco mais de 8 km do centro de Paris. Cresceu com os pais, mas estes divorciaram-se. A sua mãe, francesa, fez questão de manter o apelido português da filha. 

Omar Ismael Mostefai: de pai argelino e mãe portuguesa, Omar foi identificado como um dos terroristas que se fez explodir no Bataclan. Nasceu na comuna de Courcouronnes, a 26 km de Paris, tal como milhares de outros portugueses e lusodescendentes, no meio da instabilidade social e étnica que caracteriza os subúrbios da região. Terminou a vida da pior forma. Radicalizou-se. E morreu a matar.