Salah Abdeslam. O mundo está no rasto do terrorista mais procurado do momento, um dos homens envolvidos no massacre de Paris, que tirou a vida a mais de uma centena de pessoas, na última sexta-feira. As autoridades emitiram um alerta internacional, e as últimas notícias apontam para que esteja ao volante de um Citroen Xsara.

Para trás, fica o seu irmão, Ibrahim Abdeslam, que se fez explodir em frente a um dos cafés da cidade luz, depois de ter disparado contra dezenas de civis. O cabecilha da carnificina, Abdelhamid Abaaoud, foi abatido durante a madrugada, na sequência da operação da polícia francesa em Saint-Denis, nos arredores de Paris. No final da tarde desta quarta-feira, o The Washington Post avançou a notícia da sua morte, de acordo com duas fontes da Inteligência Europeia. A informação foi sustentada oficialmente, na manhã de quinta-feira, pelo procurador de Paris, François Molins. O responsável pelas investigações do atentado de sexta-feira confirma a morte do radical islâmico, com base nas impressões digitais recolhidas. Apesar de não ter participado fisicamente nos ataques, Abdelhamid Abaaoud, é o homem apontado como mentor dos atentados, responsável por planear a barbárie.

Os três extremistas islâmicos viviam em Molenbeek, um bairro que fica a cerca de três quilómetros de Bruxelas, em tempos apontado como uma incubadora de terroristas. Foi a este bairro, aliás, que a polícia belga fez uma rusga na passada segunda-feira já no rasto destes radicais.

Salah Abdeslam, o terrorista

Olhos castanhos, 1,75 metros de altura e apenas 26 anos. As autoridades francesas divulgaram publicamente os traços de Salah Abdeslam. Logo após os ataques de Paris, o mundo ficou a saber que o terrorista nasceu na Bélgica, mas tem nacionalidade francesa: “Um indivíduo muito perigoso”.

Salah Abdeslam terá alugado o Volkswagen Polo preto utilizado no ataque à sala de espetáculos Bataclan, e é apontado como um dos terroristas envolvidos nos ataques nos bairros 10 e 11 da capital francesa. Várias pessoas morreram, muitas ficaram gravemente feridas. 

Eram 21h20 de sexta-feira quando Abdeslam, acompanhado de outros dois terroristas (ainda não identificados), saíram de um Seat Leon preto e, com a cara destapada, armas automáticas nas mãos, dispararam sobre os clientes do bar Le Carillon e do restaurante e Le Petit Cambodge. Dali, seguiram para o Café Bonne Bière e continuaram o massacre. Às 21h36, chegaram ao restaurante La Belle Equipe, onde voltaram a matar. Os outros dois terroristas fizeram-se explodir. Abdeslam conseguiu fugir.

“Não tínhamos notado nada com os meus irmãos. Não sei o que realmente aconteceu, não sabemos onde ele está. Nem sabíamos que Ibrahim [o irmão de Salah que morreu durante os ataques] estava em Paris”, disse à imprensa um outro irmão (são seis) dos dois terroristas. “São dois rapazes normais, não sei como isto aconteceu”, acrescentou.

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O El Mundo escreve que Abdeslam terá viajado para a Síria há cerca de um ano. À data, as autoridades francesas alertaram as forças de segurança espanholas de que quereria entrar em Espanha. Em fevereiro, já tinha sido identificado pelas autoridades belgas que suspeitavam de uma eventual ligação à ação terrorista, mas não estava registado como membro de qualquer grupo radical islâmico.

Salah foi apanhado através de uma câmara a caminhar na rua parisiense, no bairro 10, onde fica o bar LeCarillon e o restaurante LePetit Cambodge, ambos no Canal de Saint Martin, perto da Praça da República. A filmagem é de quinta-feira, 12 de novembro, um dia antes dos atentados, e demonstra que o terrorista sabia daquela câmara: olha diretamente para ela e faz uma careta.

Abdeslam terá viajado para a Áustria, através da Alemanha, em setembro, mas as razões dessa viagem ainda não foram confirmadas. “A questão agora é a de saber onde é que ele esteve na Áustria e por que razão”, disse Johanna Mikl-Leitner, ministra do Interior austríaca em declarações à rádio ORF. Abdeslam é irmão de Ibrahim Abdeslam, o terrorista que se fez explodir em frente a um café em Paris.

Abdelhamid Abaaoud, o cabecilha

Tem 27 anos, nasceu na Bélgica e juntou-se ao Estado Islâmico depois de viajar para a Síria, em 2014. Será o estratega, o mentor dos atentados. Não participou fisicamente nos ataques, mas será o autor do plano sanguinário. A partir de um vídeo partilhado pelo Estado Islâmico nas redes sociais, pode traçar-se-lhe um perfil psicológico perturbador: Abaaoud arrasta dezenas de corpos de vítimas sírias amarradas a uma carrinha. Vai ao volante visivelmente contente, assim como quem o filma. Há um homem sentado na caixa aberta da carrinha, olhando os corpos. No final do vídeo, aparece outro com um lenço a tapar a face por causa do cheiro nauseabundo dos corpos sem vida. Todos riem e parecem dizer piadas. As imagens são chocantes.

As autoridades europeias já o tinham identificado no início de 2015 como o comandante de um grupo que, desconfiam, se preparava para atacar a polícia belga em janeiro. Depois dos atentados de sexta-feira à noite em Paris, a polícia francesa chegou a dizer que Abaaoud estaria na Síria e teria planeado desde lá os atentados. Mas, esta quarta-feira de manhã, o terrorista foi o alvo principal da operação das forças de segurança gaulesas no bairro de Saint-Denis, em Paris. As informações diziam que era lá que estava um dos homens mais procurados do momento. Um dia depois, já na manhã de quinta-feira, o procurador de Paris, François Molins, confirmou a morte do cabecilha, com base nas impressões digitais recolhidas. O responsável pela investigação avança ainda que a mulher que se fez explodir em Saint-Denis, era prima de Abaadou. Nessa operação, houve também um homem morreu com o raide policial.

Abdelhamid Abaadoud será um dos recrutadores de milhares de jovens jihadistas que acabam por entregar a vida à guerra santa. Entre estes, o seu irmão, uma criança com apenas 13 anos. 

As autoridades belgas identificaram-no, inicialmente, como o canal que ligava os radicais islâmicos na Bélgica à célula terrorista do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, na sequência de uma intervenção que deixou dois homens, alegados terroristas, mortos em Verviers, na Bélgica, a 15 de janeiro deste ano. Nessa operação, os comandos belgas lançaram raides sobre algumas casas em Verviers: morreram aqueles dois homens e 13 pessoas foram detidas. As forças de segurança encontraram, nessas residências, armas automáticas e químicos – como o TATP, um explosivo utilizado pelos bombistas suicidas nos ataques em Paris. As autoridades francesas e belgas suspeitam que Abaadoud estará ligado a outros ataques ocorridos em território europeu.

 Ibrahim Abdeslam, o outro

Ouvir hip hop árabe, fumar cannabis e debitar opiniões sobre os benefícios de estar desempregado e receber subsídios. Era desta forma que Ibrahim Abdeslam, o irmão do terrorista mais procurado do momento, gastava os dias. Quem o diz é a sua ex-mulher numa entrevista ao Mail Online. Tinha 31 anos e nasceu na Bélgica, assim como Salah Abdeslam. É daquele país que Niama, casada durante dois anos com o terrorista que se fez explodir próximo do café Comptoir Voltaire na sexta-feira em Paris, fala ao jornal inglês.

Esteve casado com Niama durante dois anos, entre 2006 e 2008. A ex-mulher conta que Ibrahim passava o dia em casa a ver DVD e a ouvir música. Dois a três charros por dia também faziam parte do cardápio, de acordo com o Mail Online.

Niama conta que o ex-marido era desinteressado pelos assuntos do quotidiano e ainda menos pelas notícias. Nem televisão queria ter. Mas a ex-mulher também assegura que nunca lhe notou qualquer azia com o Ocidente.
Niama vive em Bruxelas e tem 36 anos. Da sua casa em Molenbeek, em Bruxelas (onde foram detidos sete suspeitos na segunda-feira por alegadas ligações aos atentados de Paris), sublinhou ao jornal inglês: “O seu hobbie preferido era fumar erva e dormir. Dormia muito durante o dia. O número de charros que fumava por dia era alarmante”.

Ibrahim tinha um diploma como eletricista, mas nunca encontrou trabalho. “Isso fez com que ficasse preguiçoso”, acredita Niama, que também nunca o viu rezar, nem tão pouco frequentar uma mesquita. O único ritual religioso que praticava era o Ramadão porque a sua família a isso o obrigava: “Vivíamos com os subsídios de desemprego, mil euros por mês, e estávamos preocupados com o dinheiro”, recorda. O orçamento reduzido foi, aliás, a razão para não terem filhos.

Ibrahim Abdeslam gostava de arranjar confusão quando era mais novo. Roubava e chegou a estar preso duas vezes: a primeira durante três meses, a segunda durante seis. Mas, mesmo com este passado turbulento, Niama conta que “era boa pessoa, tranquilo” e que nunca tinha sido violento com ninguém.

Niama e Ibrahim separaram-se em 2008, mas só se divorciaram em 2013. Desde essa altura que a ex-mulher do terrorista diz não se ter cruzado com ele ou com algum membro da sua família.

Na segunda-feira, as autoridades identificaram mais de 160 pessoas em vários pontos de França. Foram detidas 23 e outras 104 ficaram sob vigilância.

Na ofensiva levada a cabo na madrugada desta quarta-feira, no bairro de Saint-Denis, “morreram pelo menos duas pessoas, possivelmente mais”, adiantou o ministro do interior francês, Bernard Cazeneuve. Os media franceses tinham revelado, durante a manhã, que havia uma terceira vítima mortal, mas essa informação não foi confirmada. Há sete pessoas detidas, algumas hospitalizadas.

Os 118 raides que ocorreram na madrugada desta quarta-feira resultaram em 25 detenções e foram encontradas 34 armas de fogo. Em três noites, no total, ocorreram 414 operações de busca, que terminaram em 60 detenções e 75 armas apreendidas. A polícia entrou em 118 propriedades. 

As declarações de François Molins, já ao início da noite, revelaram ainda outras informações: foram nove terroristas envolvidos e não oito, como se pensava ao início. Dentro do Seat León que disparou sobre vários bares e restaurantes do 10º bairro, viajavam três terroristas – um deles era Brahim Abdeslam, que se fez explodir, dos outros dois não se conhece a identidade. Também não se conhece a identidade de um dos bombistas suicidas junto ao Stade de France (foram três no total). E houve mais três terroristas envolvidos no ataque ao Bataclan.

Artigo atualizado às 12h30 de quinta-feira