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Uma chinesice. A expressão, se se atentar nela, até é ligeiramente xenófoba, mas serve-nos para descrever aquele produto que é de qualidade menor, sempre ou quase sempre inútil e produzido na China (ou em Taiwan, ou na Indonésia, tanto faz; lugares onde é produzido em massa e a baixo custo).

O “GME1” é uma espécie de smartwatch, quase como o da Apple. Mas só “quase”. Diz-se dele que é “100% espanhol”, mas é fabricado, lá está… na China. Uma chinesice de 99,90 euros, mas que, dizem os seus criadores, não quer entrar no competitivo mercado dos smartwatch, mas num nicho, como chamar-lhe?, mais “divertido”. 

Esta engenhoca de 25 gramas (só) possui um acelerómetro. Um acelerómetro que mede a pulsação, os movimentos e a vibração do braço. A informação recolhida é enviada, via Bluetooth, para uma aplicação (há-a para iOS e Android) no smartphone do utilizador. 

E o que é que essa informação que é enviada para a aplicação lhe possibilita interpretar? O exercício físico, pois claro, mas também o sono (mais ou menos agitado, com ou sem pesadelos de maior), a pegada ecológica (já lá vamos) e… o desempenho sexual.

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O “GME1” da empresa madrilena Geeksme não faz quase nada do que o Apple Watch, por exemplo, faz. E mesmo o que faz, não é “cientificamente exato” — são os criadores que o dizem, não nós.

E como é que o “GME1”, ou melhor, o seu acelerómetro mede o desempenho sexual? É aí que está a chinesice. Ele até mede a frequência cardíaca, mas tem que ser o utilizador a dizer quando se iniciou e concluiu o ato sexual – não será coisa que lembre ao diabo, mas damos o benefício da dúvida à geringonça da Geeksme.

E depois? Depois mede a duração do ato (não vale esquecer-se de clicar no final), as calorias queimadas durante o dito e a sua intensidade. Certo. E depois? Depois a aplicação diz que animal o utilizador é, numa alusão que vai de lebre a tartaruga — não vale a pena detalhar mais, pois não?

“Os utilizadores vão poder compartilhar com os amigos nas redes sociais: hoje fui um tigre!”, graceja Angel Sanchez, o diretor executivo da Geeksme. Mas alerta: “Não é científico nem certo, mas é divertido, e servirá para promover a parte social da aplicação”.

A outra característica “especial” deste relógio está relacionada com o ambiente. O CEO da empresa sabe que “um relógio que lhe diz se é ou não bom na cama vai vender”, mas também lhes interessa “o aspeto ambiental”. E como é que se mede a pegada ecológica com o smartwatch? Descarrega-se uma aplicação, o utilizador descreve o seu estilo de vida, “se usa baterias recarregáveis ou não, se recicla o lixo, quantas vezes conduz por semana, quanto tempo demora no duche ou quantas vezes usa semanalmente as máquinas de lavar roupa e louça”. E ele mede a sua pegada ecológica — como uma simples folha de Excel o faria, afinal.

Honestamente, não sabemos quem é mais smart: se os criadores ou se o relógio.