Sábado foi dia de reflexão para as eleições em Espanha. Mas, nas ruas de Madrid, parecia que as únicas coisas sobre as quais os espanhóis estavam a refletir eram os presentes de Natal, a lotaria El Gordo e o novo filme da saga Star Wars. Durante toda a tarde, dezenas de milhares de pessoas encheram completamente a Puerta del Sol e as ruas adjacentes. Em todas as caixas multibanco havia filas de espera. E a fila para poder comprar um bilhete da lotaria na Doña Manolita, a casa de apostas mais famosa de Espanha, tinha mais de 500 metros. “A quem é que lembra marcar eleições para a época das festas?”, insurge-se Manu González ao Observador. Pois é, pela primeira vez na história democrática espanhola, as legislativas acontecem mesmo junto ao Natal.

Que presentes terão os eleitores no sapatinho? É a pergunta que vale mais do que um bilhete vencedor da lotaria. As últimas sondagens, publicadas há uma semana, apontavam para uma vitória do Partido Popular (PP) e uma incerteza quanto ao segundo lugar. Também pela primeira vez, é importante saber quem fica em segundo, porque o PP não vai conseguir uma maioria absoluta e, se quiser governar, terá de fazer acordos. Caso contrário, pode mesmo acontecer o que já vimos em Portugal: o PSOE e o Podemos entendem-se para formar governo, com ou sem o Ciudadanos, que tudo indica que vai ser fundamental na resolução do impasse.

E neste jogo dos acordos, há já alguns posicionamentos definidos. Mariano Rajoy recusa uma espécie de bloco central em Espanha, aliando-se ao PSOE de Pedro Sánchez e o Ciudadanos recusa entrar numa solução “à portuguesa” e promete ser a chave para o vencedor (PP ou PSOE) conseguir maioria.

Apesar de ser proibido publicar sondagens na última semana de campanha, os institutos de estudos de opinião continuam a fazê-las e a mostrá-las a políticos e jornalistas. Segundo escreve o jornal El Español, os últimos dados apontam para uma disputa feroz entre o PSOE e o Podemos pelo segundo lugar, o que, a acontecer, significa duas coisas. Primeiro, que o Podemos fez mesmo uma remontada, conseguindo melhorar — e muito — os resultados que lhe eram apontados nas sondagens de início de novembro. Em segundo lugar, que o Ciudadanos foi perdendo fôlego ao longo das duas últimas semanas. Contas feitas: o bipartidarismo pode mesmo acabar este domingo, sim, mas muito provavelmente não com o estrondo que se previa.

Apesar de a noite eleitoral deste domingo ser decisiva, todos os votos só estarão contados na quarta-feira, quando acabe o escrutínio dos votos do estrangeiro. E, este ano, o voto da emigração terá um impacto diferente nos resultados. Face às eleições de 2011, houve mais 98 mil espanhóis a exercerem o seu direito através dos Correios — nem todos são emigrantes, mas segundo o próprio Ministério do Interior, é a grande maioria. Mas votar por carta em território espanhol também não foi tarefa fácil e o prazo teve mesmo de ser alargado. “Claro que, no Natal, os Correios estão cheios de pessoas que querem mandar presentes e postais”, comenta Manu. Por isso, quem quis votar antecipadamente enfrentou horas de filas.

Além da prestação dos quatro atores principais — Rajoy, Sánchez, Iglesias e Rivera –, os olhos dos espanhóis estarão postos igualmente noutras personagens. Como Artur Mas, o ainda presidente do governo autónomo da Catalunha que está há quase três meses a tentar ser reinvestido nesse cargo. O partido com que se apresenta às legislativas espanholas, o Democracia e Liberdade, quer fazer destas eleições uma espécie de segunda volta das autonómicas de setembro, tentando reafirmar a vontade de independência catalã. Segundo as sondagens, os eleitores catalães deverão, contudo, seguir o padrão de anteriores escrutínios nacionais, preferindo partidos não-independentistas. A marca catalã do Podemos, En Comú Podem, poderá mesmo ser a grande beneficiária da transferência de votos.

As urnas fecham às 20h (19h em Lisboa) e, nessa altura, serão conhecidas as primeiras projeções eleitorais. Resultados oficiais só por volta das 22h30. O Observador vai estar a acompanhar tudo em liveblog, com reportagem a partir de Madrid.