Os dados económicos dececionantes que foram divulgados esta madrugada na China e as tensões que se geraram no Médio Oriente este fim de semana estão a levar ao pior início de ano de sempre para muitas bolsas mundiais. O desaire já se alastrou às bolsas norte-americanas, onde o índice Dow Jones Industrials também entrou em 2016 com o pé esquerdo, com o pior desempenho desde 1931, em plena Grande Depressão.

“Dia difícil para os investidores mundiais”, afirma Pedro Ricardo Santos, gestor da corretora XTB Portugal. “Depois de os dados relativos aos PMI da indústria chinesa terem entrado em terreno que traduz contração, as bolsas europeias e americanas registaram perdas avultadas”, explica o especialista, que salienta, também, a “escalada de conflito entre Arábia Saudita e Irão, que reavivaram receios de um possível envolvimento militar entre estas potências petrolíferas do Médio Oriente”.

Depois de as bolsas chinesas terem chegado a cair 7%, levando a um fecho antecipado da negociação, as bolsas europeias abriram e negociaram o dia todo com perdas acentuadas. No final do dia, o índice Stoxx 600 de ações europeias caiu 2,5%, o que segundo a Bloomberg é o pior início de ano desde que o índice foi criado.

A bolsa que mais caiu foi Frankfurt, perdendo cerca de 4,3%, pressionada pela exposição das suas grandes empresas industriais aos mercados emergentes e, em particular, à China. O PSI-20, em Lisboa, até foi dos índices que menos caíram, com uma desvalorização de 1,54%. A subida de 6,3% do BPI, na sequência das notícias do fim de semana envolvendo Isabel dos Santos, ajudou a conter a queda do PSI-20.

Economista-chefe do FMI está preocupado

O impacto da desaceleração e da incerteza na China para o resto do mundo “tem sido muito maior do que poderíamos ter antecipado”, afirmou esta segunda-feira o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) numa entrevista colocada no site do organismo.

“Um crescimento abaixo dos objetivos oficiais das autoridades [chinesas] pode, uma vez mais, assustar os mercados financeiros globais. Continuam a existir grandes desafios à reestruturação das fragilidades nos balanços das empresas estatais, nos mercados financeiros e na flexibilidade e racionalidade geral na alocação de recursos”, diz Maurice Obstfeld.

Maurice Obstfeld receia que a China e os mercados emergentes sejam o tema crucial para a economia mundial em 2016. Têm sido muito debatidos e escrutinados os riscos da transformação que o governo chinês quer fazer na economia chinesa, reduzindo a importância relativa das exportações e estimulando a procura interna de uma classe média em expansão.

É, também, fácil de compreender o impacto económico inicial de uma luta contra a corrupção que, num cenário otimista, poderá tornar a economia chinesa mais sustentável a prazo. Ainda assim, também se compreende que o resto do mundo irá ficar nervoso se vir que o crescimento no motor chinês ficar muito longe dos 7% pretendidos. E, falamos, claro dos dados oficiais do governo chinês, que muitos economistas dizem ser imensamente lisonjeiros em relação ao que se passa realmente na economia.

Este foi, claro, um dos temas que foi analisado no trabalho recente publicado no Observador sobre as 10 grandes questões para a economia global em 2016. O tema da China e o investimento em 2016 foram algumas das questões que serviram de base à entrevista do Observador ao diretor de investimentos do Banco Best, Carlos Almeida. Leia aqui as suas opiniões sobre como reagir perante quedas como esta.