Ouço Marcelo a falar numa sala cheia de gente. Jantamos há anos neste dia por razões que obviamente nada têm a ver com as presidenciais. E de repente tudo mudou. Toda esta gente teve convicções fortes nas outras presidenciais. Noutras eleições trocariam argumentos. Talvez até se tivesse de antecipar o momento dos doces para evitar clivagens maiores. Agora todos nos tornámos telespectadores. Assiste-se sem paixão como se ninguém perdesse nem ganhasse nada. E contudo esta é uma noite com derrotados e com vencedores.

O maior derrotado está sem dúvida no PS e chama-se Francisco Assis. O resultado humilhante obtido por Maria de Belém fragiliza ainda mais Assis. Outro dos derrotados foi o PCP e desta vez a derrota do PCP não é necessariamente a do seu secretário-geral: o mau resultado obtido por Edgar Silva não lhe permite continuar a acalentar o sonho — que chegou a verbalizar — de substituir um Jerónimo de Sousa que se mostra cada vez mais renitente em abandonar o cargo. O falhanço no teste das presidenciais dos possíveis substitutos de Jerónimo de Sousa transformou o actual secretário-geral comunista num valor acrescentado de um partido que está claramente a ser suplantado pelo BE, um dos dois vencedores desta noite. À custa do PS, e essa contabilidade um dia será feita.

O outro vencedor é claramente Marcelo. Não só pelos votos que teve mas também por aqueles que conseguiu que os outros candidatos não tivessem. Ao apresentar-se como uma espécie de plasticina ideológica, Marcelo deu um forte incentivo para ficar em casa a uma esquerda moderada mas não arrebatada com Maria de Belém e que não se revia em Sampaio da Nóvoa.

Quanto a Costa e Passos, esperam. Costa não viu o seu candidato, Sampaio da Nóvoa, ganhar mas isso não foi necessariamente uma má notícia para o primeiro-ministro. Quanto a Passos tem o seu candidato como vencedor mas isso não faz dele um ganhador.

Passos e Costa esperam. Afinal, qual é o poder deste homem que na noite em que ganhou as presidenciais chegou a uma Faculdade de Direito em cujo exterior o esperavam pouco mais de uma dúzia de apoiantes e uma multidão de jornalistas? Qual é o poder de um homem só como Marcelo? Nem Passos nem Costa o sabem. Os portugueses também não. Quem sabe esperam que Marcelo presidente lhes explique isso. Se fosse na televisão funcionaria. A partir de Belém não se sabe.

* Helena Matos é jornalista