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Lisboa

Segunda Circular. O fungagá da bicharada

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Podem os pássaros ser perigosos para o tráfego aéreo? Será que as obras na Segunda Circular vão atrair passarada a mais para a zona do aeroporto? Foi assim o debate na Assembleia Municipal de Lisboa.

Autor
  • João Pedro Pincha

Amigo não empata amigo. Tudo bons rapazes. Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Qualquer uma destas frases feitas se aplica ao debate temático sobre as obras na Segunda Circular promovido pela Assembleia Municipal de Lisboa esta segunda-feira. Depois de todo o sururu sobre o projeto, os intervenientes na sessão mostraram uma rara unanimidade e foram poucas as vozes críticas que se ouviram. O debate acabou por ficar marcado pelas recomendações que algumas pessoas fizeram à câmara e — surpreendentemente — por uma discussão sobre aves.

A meio do mês de janeiro, em plena discussão sobre a requalificação da Segunda Circular, algumas entidades vieram chamar a atenção da autarquia para o facto de as árvores que estão previstas para o separador central da estrada poderem atrair muitos pássaros — o que, alegadamente, poderia ser perigoso para os aviões. O vereador do Urbanismo não deixou passar em claro esta pequena polémica dentro da polémica maior. “A consulta foi inquinada. Muito do debate andou à volta de questões que não constam dos projetos”, disse Manuel Salgado na intervenção inaugural do debate, garantindo que “não se propõe plantar mais árvores das que já existem” na zona do aeroporto.

Questão arrumada? Pelos vistos sim. É “uma não-controvérsia”, disse Luís Coimbra, presidente da NAV – Navegação Aérea de Portugal, que disse aos cerca de 150 espectadores que em 2015 só houve 42 incidentes envolvendo passarada e aviões. Justificação: “Os pássaros não são surdos e fogem.” E destes, “só sete incidentes com aves provocaram danos nos aviões”, mas coisa pouca. “Uma amolgadela na asa, um rachar do vidro do cockpit” e coisas do género, disse.

Não tenham medo de meter mais verde na Segunda Circular, desde que sejam arbustos e a sua expetativa de crescimento não ultrapasse a altura dos candeeiros”, afirmou o especialista em tráfego aéreo.

Também a provedora dos animais de Lisboa, chamada a pronunciar-se, considerou que aves, pessoas, automóveis e aviões podem “coexistir harmoniosamente” na Segunda Circular (e noutros sítios da cidade, bem entendido). Inês de Sousa Real apelou à câmara que procure “algumas soluções” que contribuam para “a manutenção da fauna existente” e para a “promoção da biodiversidade” naquela estrada. No mesmo sentido, mas a pensar na segurança aérea, foi a intervenção de Jorge Ponce de Leão, presidente da ANA Aeroportos, que pediu ao município o “desenvolvimento de um programa de controlo da avifauna” em redor da Portela.

“Epá, pelo amor de Deus”

Pássaros, ao que parece, não são problema. Mas as árvores podem ser, alertaram alguns dos intervenientes do debate. Vasco Santos, deputado municipal do MPT — partido cujo presidente disse há dias estar contra a plantação de árvores que atraem aves na Segunda Cicular — afirmou que as espécies arbóreas “vão chamar os pardais e outras aves de pequeno porte, que não vão interferir com os aviões, pelo menos de forma perigosa, mas que vão eventualmente chamar outros predadores”. Que o deputado não quis nomear.

As árvores, considerou Carlos Barbosa, do Automóvel Club de Portugal (ACP), podem induzir os peões a atravessar a estrada, que é atualmente a mais movimentada da cidade. “Todos nós que estamos aqui gostamos de árvores. Ponham arbustos junto aos raides”, pediu Barbosa, para quem “este separador central, com a largura que se pretende, vai convidar ao atravessamento dos peões”. Preocupação semelhante mostrou Jorge Jacob, presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, que ainda acrescentou que “as árvores podem constituir obstáculos perigosos” e provocar despistes.

Segunda Circular

Segundo Jorge Jacob, em 2015 houve 12 mortes na Segunda Circular:

  • 6 em atropelamentos
  • 3 em colisões
  • 3 em despistes

Tirando as intervenções de Carlos Barbosa e de Florêncio Almeida (presidente da ANTRAL, representante dos táxis), os restantes discursos pautaram-se, na generalidade, por elogios e pelo reconhecimento de que o projeto é importante. Mesmo Florêncio Almeida começou logo por dizer que mudou de opinião nas últimas semanas. “Quando nos chegou o primeiro projeto, naturalmente ficámos muito preocupados. O segundo projeto não traz qualquer problema para nós”, disse o dirigente associativo, referindo-se ao rumor de que a Segunda Circular ia ficar sem uma faixa de rodagem em cada lado. Ainda assim, aproveitou o púlpito para disparar algumas críticas, afirmando que “a vida da cidade não é só para os peões” e que “o eixo ribeirinho foi mutilado”, à semelhança do Areeiro (“uma vergonha!”) e do Marquês de Pombal. Quanto a projetos de colocar ciclovias na Segunda Circular — algo que Manuel Salgado admitiu no início da sessão –, o presidente da ANTRAL foi contundente.

Ciclismo? Epá, pelo amor de Deus. Vamos tratar primeiro dos automóveis, porque o ciclista passa por um sítio qualquer”

Depois deste debate bem menos polémico do que as últimas semanas faziam antever, a assembleia municipal volta a discutir o assunto no próximo dia 10 de fevereiro, quando estiver pronto o relatório da sessão desta segunda-feira.

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