“Professor Presidente!”, “Marcelinho!”, “Quero tirar uma foto”. “Não tenho folha…”, lamenta uma menina. “Quem já tem autógrafos vá saindo”, diz a professora. E assim, num ápice, o pequeno palco que foi montado na praça central do município de Fronteira, distrito de Portalegre, é invadido por dezenas de crianças que tinham assistido, mais ou menos atentas, ao discurso do Presidente. A enchente é ao jeito de estrela rock. E Marcelo não se importa. Quer estar perto das pessoas, sentir “os dramas, as alegrias, as ilusões”, tomar o pulso ao interior do Alentejo desertificado e envelhecido, naquela que é a sua primeira presidência aberta.

Envelhecido, disse? Sim. Localizada algures a “meio caminho entre Lisboa e Madrid”, a vila de Fronteira perdeu quase metade da população nos últimos 50 anos e quase dez por cento entre 2001 e 2011. Isto são os factos, aos quais o Presidente não é indiferente. “É preciso fixar mais gente no interior”, fixar “as crianças e os jovens”, “investir nos acessos” para evitar o isolamento. Caso contrário “as terras vão esvaziando” e ficam só os mais velhos. “Os que, como eu, estão acima dos 60 anos”.

Mas as palavras, que ressoaram esta tarde na Praça do Município de Fronteira, no tiro de partida do primeiro Portugal Próximo de Marcelo Rebelo de Sousa, não batiam certo com a vista da assistência. Mais do que idosos ou sequer adultos, foram as escolas e creches das redondezas que aderiram em peso à iniciativa. Entre alunos da Escola Básica Frei Manuel Cardoso, de Fronteira, e crianças do infantário Nossa Senhora da Vila Velha, da Santa Casa da Misericórdia, foram os mais jovens que receberam Marcelo em aplausos e sorrisos assim que o carro do Presidente estacionou no centro da praça.

Alguns chamavam-lhe “Marcelinho”, outros “professor Presidente”. Entre beijinhos, selfies e muitos pedidos de autógrafos, os mais novos não queriam perder o momento de chegar perto do Presidente-vedeta. Ao Observador, Maria Ludovina Marcelino, professora reformada de Fronteira, que também estava a assistir ao aparato, explica que as várias escolas das proximidades, desde Vale de Maceiros, a Vale de Seda, passando por Cabeço de Vide, se mobilizaram para ir cumprimentar o Presidente, mas que em Fronteira propriamente dita só há uma escola que, este ano, só tem “cerca de 12 alunos inscritos”.

Certo é que, depois de Marcelo fazer uma pequena intervenção, onde pediu “esperança” e aposta no interior do país porque Portugal é “um só”, independentemente da esquerda ou da direita, do litoral ou do interior, as crianças que esperavam ansiosas pelo fim dos oito minutos de discurso saltaram para cima do palanque improvisado e atiraram-se aos braços do “professor”.

Um encontro inesperado com uma compatriota

Em Cabeço de Vide, onde foi inaugurar uma Estrutura Residencial para Idosos, da Santa Casa da Misericórdia, Marcelo teve nova receção de crianças, ordeiras, que esperavam pacientemente para apertar a mão ao Presidente. Cumprimentou-os a todos, um a um, beijinhos às meninas, apertos de mão (“com muita força”, queixavam-se) aos meninos. Em troca recebeu presentes dos mais novos: poemas escritos na sala de aula pelos alunos do terceiro e quarto ano. “Já vou ter leitura para logo à noite”, exclamava o chefe de Estado conhecido pelos seus ávidos hábitos de leitura.

Mas não eram só as crianças que tinham poemas para oferecer. Ana Maria, de 74 anos, olhos claros e cabelo arranjado, tinha versos mesmo à mão para quando avistasse o professor. “Excelentíssimo senhor Presidente, homem de grande valor, será um bom Presidente, como tem sido comentador”, declamou, recebendo em troca um elogio pela cor dos seus olhos. E Joaquim Manuel Calado, de 77, um “grande fã” assumido, também quis ler os versos que tinha preparado, com o papel a tremer entre os dedos mas com o entusiasmo na voz.

Sem se negar a ninguém, Marcelo distribuía cumprimentos a todos. O cenário repetiu-se à chegada ao centro de Portalegre, quando foi recebido por um enorme conjunto de estudantes do Instituto Politécnico, que, sem “vergonha” de estarem com copos de cerveja ou garrafas de sangria na mão, estenderam as capas e criaram um corredor para o Presidente passar. Mais selfies, mais beijinhos. “Esta vai para o Face”, dizia Andreia Santos, de 22 anos, que depois se arrependeu e voltou a chamar o Presidente para pedir autorização: “Posso pôr no Facebook?” A resposta foi afirmativa. “Claro! Eu é que não tenho Facebook”, lamentava Marcelo. Não faz mal.

Entre o mar de estudantes, uma surpresa inesperada. “Sabe de onde sou?”, perguntou a jovem Susana Martins. “Da sua terra, de Celorico de Basto”. Marcelo, saudosista, não queria acreditar e depressa mergulhou a jovem entre os braços.

Proximidade, sim. Marcelo não tem medo de aparecer demasiado

Marcelo está de volta à estrada por três dias em ritmo acelerado. Não tem parado desde que chegou a Belém, ou melhor, desde que se candidatou a Belém. E não é agora que tenciona abrandar. Em início de mandato é assim mesmo, nada a fazer. Além de que presidente próximo que é presidente próximo tem de estar na rua, não se pode fechar no palácio.

“Quando de vez em quando me perguntam – e a comunicação social gosta muito de perguntar – se não há o risco de aparecer muitas vezes, eu pergunto: como é que é possível estar próximo estando distante? Ou se está próximo ou não se está próximo”, explicaria no final de um jantar na Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre.

“Prometi proximidade, estou aqui. Prometi vir ao interior, começo por aqui porque somos um só Portugal e porque não pode haver diferenças entre os que vivem mais perto do mar ou mais longe”, tinha dito em Fronteira quando explicou ao que vinha neste roteiro pelos montes e vales alentejanos. Falou não em nome próprio, não como “cidadão Marcelo Rebelo de Sousa”, mas sim como “Presidente da República, presidente de todos os portugueses”. E foi ai que pediu “esperança”, autoestima e otimismo para “irmos mais longe”.

Depois do interior do Alentejo, Marcelo já sabe onde vai a seguir no contexto da sua estratégia de proximidade: dentro de um mês vai visitar o interior trasmontano, e depois do verão o interior beirão. “Depois tenho compromissos internacionais e com as Forças Armadas, são coisas inevitáveis de início de mandato”, disse o chefe de Estado quando questionado pelos jornalistas sobre se não estaria a gastar todos os cartuchos de uma vez, provocando algum desgaste.

Nada disso. Marcelo lembra a toda a hora que prometeu em campanha estar próximo dos portugueses, e é isso que está a fazer. “Estar ao serviços dos portugueses implica estar próximo, e isso obriga a estar sempre presente”, disse. A ideia é precisamente “ouvir os dramas, as alegrias, as ilusões, e também as desilusões de todos”. E foi precisamente com o drama e a desilusão do desemprego que se deparou assim que parou o carro no centro de Portalegre.

À sua espera estava uma jovem de 28 anos que tinha trabalhado como estagiária numa exposição em Alter do Chão, que Marcelo visitou. A tremer e com lágrimas nos olhos, a jovem contou ao Presidente o drama de estar desempregada e deu-lhe um cartão com o seu contacto. Sem prometer nada, mas segurando o cartão e acenando com a cabeça, Marcelo secou-lhe as lágrimas. Ao seu lado, a autarca de Portalegre que acompanhava a visita chegou mesmo a dizer à jovem para passar também na câmara. “É também por isto que estamos aqui”, ouviu-se.

Proximidade, sim, mas ainda assim é notório entre a equipa que acompanha o Presidente que, apesar de a agenda ser extensa e minuciosa, repleta de visitas, encontros, passeios e contactos com a população, há um esforço para o chefe de Estado falar menos vezes à comunicação social, para não “banalizar” as intervenções. Esta quinta-feira, falou apenas sobre o Programa de Estabilidade aprovado pelo Governo, para elogiar o caminho escolhido pelo Executivo de não confrontação com Bruxelas e para dizer que espera que o Governo cumpra a execução orçamental que desenhou.

Depois da campanha eleitoral dos afetos, o Portugal Próximo do Presidente segue esta sexta-feira e sábado pelo Alentejo a baixo. Segue-se Évora, Portel, Reguengos, Serpa, Mora, Alvito e Beja. Sempre a medir o pulso à população. Pelo meio, o Presidente não descura da política nacional e, enquanto vai deixando apelos aos populares para a união “num só Portugal”, prepara também a reunião semanal que vai ter, esta sexta-feira, com o primeiro-ministro num hotel em Évora. Aí o apelo será não tanto à união, mas seguramente à estabilidade.