Bom, vamos lá falar do Cristiano.

Não é por eu querer, sinceramente, é porque tem de ser, e dá jeito escrever agora que o que tem de ser tem muita força. Talvez não tanta quanto a que ele teve quando, ladrão, pegou no microfone de um jornalista e o atirou para um lago. Tudo a falar de Ronaldo. Nem a mesma que faz com que, a cada conferência de imprensa, seja regra não instituída perguntar por ele, qualquer que seja a questão. Tudo a falar de Ronaldo. E há ainda a força com que, jogue ele bem, mal ou assim-assim, os jornais lá fora destacam o que o português faz ou deixou de fazer. Tudo a falar de Ronaldo, mas quase nada a favor dele.

É o que ele diz, o quanto se ri, como reage, o exemplo que dá, a forma como se comporta, se está bem-disposto nos treinos, se tira ou não uma selfie com os adeptos. De jogo, além de como bate os livres ou o penálti, quase nada. Mas lá está ele, no meio dos húngaros, mais espevitado que o costume. Corre muito para apertar a saída de bola que o adversário quer fazer pela relva, com passes curtos, uma equipa de peito feito — Fernando Santos avisou, não era bluff. Ele e Nani correm, apertam os centrais, puxam a corda a que Moutinho está agarrado, o médio também pressiona Zoltán Gera, o trintão que está perto dos quarenta em quem a Hungria quer meter a bola. Ninguém fala de Ronaldo aqui.

Aos cinco minutos os húngaros esquecem o gosto de ter a bola no pé. Bola para Szalai, longa e pelo ar, ele que a domine e a segure para a equipa subir. Ou então recuam, juntam médios a centrais, encurtam o campo onde Portugal pode atacar, fazem Ronaldo e Nani sentirem-se como fãs enlatados no concerto da banda preferida. Eles mexem-se pouco, caem no erro de se deixarem estar, o contrário do que fazem André Gomes e João Mário, que foge das linhas para estarem mais ao centro do campo. Só que ali não fazem nada. Pedem a bola e não a recebem, quando a têm é tramado virarem-se e tabelarem com alguém. Não há espaço nem tabelas e um-dois rápidos, com a bola, para o abrir.

Os húngaros esperam e fecham-se e são matreiros como Fernando Santos diz que não eram. E são espertos, sabem que Portugal está coxo, sem a velocidade, rapidez de reação e o instinto à esquerda. Não está o irrequieto Raphaël Guerreiro, está o prudente Eliseu, que faz a seleção preferir atacar só pela direita enquanto o adversário defende tentando obrigar Portugal a ir pela esquerda. É um ver se te avias que obriga os jogadores a mexerem-se muito, trocarem de posições, correrem muito. Não o fazem e por isso chegam ao intervalo com 25 passes longos, o sintoma aéreo que reflete quando as coisas não estão bem na relva.

E com um golo sofrido, pelo mal que Eliseu causou ao tentar apostar na velocidade que não tem para se tentar esgueirar por entre dois húngaros. Deu bola perdida, contra-ataque, corte de um Pepe que foi como um santo na primeira parte e canto. O cruzamento saiu da área pela cabeça de Ronaldo, mas não se afastou mais porque Nani falhou o tempo de salto e não lhe acertou. Gera devolveu-a com força e para o fundo da baliza (19’). Os problemas continuaram sempre para Portugal e Gábor Király apenas suja o fato de treino com que insiste jogar num livre de Ronaldo. É pouco até Cristiano fazer o muito que se lhe pede, quando foge da área, deixa um espaço e dá a pista para Nani se desmarcar, em diagonal, da esquerda para a direita. O capitão dá o passe rasteiro e o pé esquerdo de quem corre bate de primeira. Que agora se fale bem de Ronaldo.

A seleção vai descansar com o empate que lhe chega para os oitavos-de-final, mas fica logo sem ele. Uma falta para a bola à entrada da área, na direita, a jeito do pé esquerdo de Dzsudzsák, que dá mais trabalho a escrever do que a ver como a bola que bate (47’) desvia no ombro de William Carvalho e engana Rui Patrício. Os húngaros, confiantes e de novo com o peito feito, fazem o contrário do que se espera e cedem ao entusiasmo. Pressionam mais à frente, vão à queima, têm pressa em recuperar a bola, avançam os jogadores. Até resulta uma vez, quando William é apanhado entre a sua descontração e a genica húngara, perde a bola perto da área e Lovrencsics corre até a rematar à rede lateral.

LYON, FRANCE - JUNE 22: Cristiano Ronaldo (R) of Portugal celebrates scoring his team's second goal with his team mate Nani (L) during the UEFA EURO 2016 Group F match between Hungary and Portugal at Stade des Lumieres on June 22, 2016 in Lyon, France. (Photo by Michael Steele/Getty Images)

Foto: Michael Steele/Getty Images

Não se fala de Ronaldo, porque ele não apanha esses passes, não volta a sair da área e nem recebe um passe. Até, lá está, os húngaros saírem da casca quando a deviam proteger e abrirem-se para a seleção atacar rápido os espaços pela relva. É fácil para João Mário tabelar com Nani, era difícil Ronaldo desviar o cruzamento tenso para a baliza, porque estava de costas e teve de trazer o calcanhar à baila. Que se fale muito bem dele, porque acerta (50’) e torna-se o primeiro a marcar em quatro Europeus diferentes. Mas cinco minutos passam e tem que se falar da forma como ele esbraceja, deita palavrões para fora, refila contra a relva, passa-se com a sorte que o pé esquerdo de Dzsudzák volta a atrair.

O capitão húngaro tem outro livre, que é outro que bate na barreira que, desta vez, lhe devolve a bola, para a rematar de novo. As costas de Nani fazem as vezes do ombro de William e volta a haver um desvio (55’) que torna Rui Patrício inútil. Portugal está dentro, sai, reentra e volta a sair do Europeu em menos de uma hora, enquanto os húngaros sorriem. E se fecham, porque já não caem na tentação do excitamento e obrigam Fernando Santos a mudar. Pelo meio não há espaço, é difícil, por isso Quaresma dá um homem esticado numa ala e estica a equipa no 4-3-3. Os húngaros recuam mais, abrem-se, põem-se a jeito de cruzamentos, fazem de Ronaldo o homem-alvo.

O canto curto que vai parar a Quaresma, portanto, só podia ter um destino, quando o homem das trivelas usa a parte de dentro do pé para curvar a bola que Ronaldo salta para desviar na área. É golo, é um bis (62’), é Cristiano a puxar a seleção de volta para as contas, é o capitão a festejar neste Europeu. É motivo para se falar muito em quem dá uma assistência e marca dois golos e que, dois minutos volvidos, se assusta quando Pintér remata ao poste esquerdo. Estamos quase com 70 minutos e jogo feito, nada mais. Parece, porque passa a haver duas equipas contentes no relvado e a portuguesa acalma-se, deixa de acelerar tanto, troca a bola com mais cautela e mais prudente fica quando Nani sai para entrar Danilo. É um sinal que Fernando Santos dá à equipa.

A partida despede-se com os portugueses a verem os húngaros com a bola, a esperarem na linha do meio, com o selecionador de braços abertos, a pedir calma, a dizer-lhes para avançarem com parcimónia. Para se manterem quietos nas posições certas. E connosco, no estádio, a vermos duas equipas confortáveis com um fim calmo para um jogo frenético, para ambas seguirem na competição. Ronaldo abre os braços, vê-se que até quer pressionar, mas respeita.

Também saberá que, hoje sim, muito de bom se vai falar nele. No rapaz que em tempos disse que era com gente a assobiá-lo, a criticá-lo, a apupá-lo, que rendia mais e decidia mais jogos. Quando o árbitro apita, o empate atira Portugal para os oitavos-de-final em segundo lugar, o pior que podia ser. Mas uns segundos passam e, no outro jogo, a Islândia marca para ganhar e dar à seleção o que ela não quis arriscar procurar — a qualificação em terceiro lugar, que nos livra da Inglaterra, da Espanha, da Alemanha, da Itália e da França até apanharmos algum deles na final. Obrigado, islandeses.

E obrigado a Ronaldo, que se chateou, atirou um microfone para o rio, reagiu, deu um golo, marcou dois, foi a figura de que a equipa precisa e resolveu como todos sempre esperam que resolva. Agora sim, falar-se-á muito dele. Mesmo que talvez lhe apeteça mandar toda a gente para um certo palavrão que até soa parecido a Király.