Marcar golos é uma arte, mas evitá-los também. Bom bom é quando se tem de os evitar e está-se obrigado a jogar bem. Esse é o paraíso na terra que o Barcelona procura num defesa. E já o descobriu: Samuel Umtiti estreou-se esta noite, nos quartos-de-final vs. Islândia, e ajudou a sua seleção a engolir os vikings (5-2).

Esta lengalenga porquê? É que Umtiti acertou todos os passes que fez em campo, tal como o ADN blaugrana exige: 77 em 77. Em março, o então defesa do Lyon não se mostrava desesperado por continuar sem ser chamado à seleção. “Se calhar ainda não é a minha hora. Ser chamado por França acontecerá mais cedo ou mais tarde, espero. Não vou reivindicar nada na imprensa. Não é por dizer que mereço ser chamado que vou ser chamado, será através de exibições”, disse na altura à France Football. O que ele ainda não imaginava é que seria chamado para substituir o lesionado Mathieu, o defesa também ele canhoto e também ele do Barcelona.

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A qualidade de passe de Umtiti, o novo central do Barcelona (fonte: FourFourTwo)

“Quando estou em campo, é a minha vida. Eu jogo toda a minha vida em campo. Luto por ela, é o meu trabalho”, dizia, certo do compromisso que tem com a profissão. Passados poucos meses destas palavras maduras desde rapaz de 22 anos, Umtiti estreou-se pela seleção num Campeonato da Europa, imitando assim Robert Herbin e Michel Stievenard, em 1960. Ele nem teve assim tanto trabalho, nem foi assim tão (im)pressionado pelos islandeses, mas este tipo de números ficam na retina. Na mesma entrevista à France Football, o defesa disse ainda que não há que hesitar em jogar feio. Por isso, será interessante ver como vai jogar (se jogar) contra a Alemanha, na próxima quinta-feira, pelas 20 horas, em Marselha.

Abriu-se finalmente a torneira do golo no Campeonato da Europa. A França marcou quatro golos na primeira parte e deitou por terra o sonho dos islandeses, que até tinham o presidente daquele país na bancada.

Giroud marcou primeiro, logo aos 13′. Matuidi levantou a cabeça, picou a bola por cima da defesa e o avançado do Arsenal mandou uma bomboca com a canhota, para aliviar a tensão dos homens da casa. Sete minutos depois foi a vez de Pogba, de cabeça, imponente, depois de um canto de Griezmann. Payet marcou a seguir e Griezmann imitou-o pouco depois, com um golaço: picou a bola, depois de ser isolado pela simulação de Olivier Giroud. Estava fácil. E bonito. E fácil.

Giroud fez um jogo de sonho: tocou 18 vezes na bola, marcou dois golos, fez uma assistência, e ganhou dez dos 12 duelos que disputou. E ainda ganhou duas faltas. Está muito forte o avançado que faz esquecer Karim Benzema.

Os islandeses tiveram problemas a toda a hora, mas nunca baixaram os braços. Quando ganhavam a bola, tentavam virar o jogo e fazer dois, três, quatro homens disparar na frente, para um eventual jogo direto. Os lançamentos laterais, a arma que lhes oferecera dois golos no passado recente, continuavam a ser os lances mais perigosos.

Ao intervalo, Samuel Umtiti registava 56 passes certos em 56 tentativas, o que fazia levantar as sobrancelhas aos homens e mulheres que são “doentes” das estatísticas, doença essa que ganha outra dimensão nas redes sociais, que mais parecem o Payet a inventar conteúdos.

No arranque do segundo tempo até foi a Islândia a dar uma lição perpetuada pelos seus adeptos: não desistir. O criativo da equipa, Gylfi Sigurðsson, apareceu na direita e sacou um belíssimo cruzamento, daqueles de quem sabe. Kolbeinn Sigþórsson surgiu ao primeiro poste, esticou a perna direita e empurrou para as redes da baliza de Hugo Lloris, 1-4.

Bastaram três minutos para os gauleses calarem os rivais, que navegavam em águas complicadas. Foi Giroud, novamente. Depois de um livre no corredor no central, daqueles que raramente dão alguma coisa quando são batidos diretamente para a área, o avançado do Arsenal meteu a cabeça e fez levantar a chapa 5. Foi a quinta vez que Giroud bisou pela seleção. Allez les bleus? Oui.

A França tirou o pé e muito nesta segunda parte, pensando já na Alemanha, naturalmente. Vão precisar de estar no limite para bater os germânicos. A concentração baixou, o pé perdeu força, só os avançados mantêm a fome do costume e olham-se com aquela azia muito própria entre eles, deixando cair os ombros quando o outro não passa. Eles tentam disfarçar, mas é mais forte do que eles.

Quando se caminhava para os 90′, os islandeses deram mais uma alegria ao seu povo: o segundo golo (2-5). Foi Bjarnason quem cabeceou, aos 84′, depois de um cruzamento tenso vindo da esquerda. A Islândia conseguiu meter quatro jogadores dentro da área. Quando fazem isto, algo que normalmente acontece nos lançamentos, ganham muuuitas bolas, porque são muito agressivos a atacar a mesma.

Antes, para a posteridade, ficou a entrada de Eidur Gudjohnsen, o ex-craque do Barcelona e Chelsea, que chegou às 88 internacionalizações. A história o avançado na seleção, já se sabe, começou há 20 anos, substituindo o seu pai. Foi a despedida de mais um craque dos Campeonatos da Europa. Tal como aconteceu ontem com Gigi Buffon…