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Ainda Kendrick Lamar não tinha pisado o palco da MEO Arena e já muitas vozes gritavam por ele. Uma música bastou para o público levantar os braços e deixar-se levar pela ginga do norte-americano que se estreou nas mixtapes, como muitos dos rappers que o precedem (nos quais ele se inspirou e, dirão alguns fãs mais acérrimos, conseguiu superar).

A audiência estava recetiva e outros no seu lugar poderiam ter aproveitado a deixa para cumprir apenas os serviços mínimos. Mas o senhor de Compton é de outra fibra. Se da última vez que esteve em Portugal (no NOS Primavera Sound, em 2014) ficou a sensação de que a sua música funcionava melhor em disco do que ao vivo, desta vez foi tudo diferente, em parte porque Lamar está mais maduro, mas também porque agora existe um álbum chamado To Pimp a Butterfly (considerado pela crítica e pelo público um dos melhores de 2015).

Os seus dois primeiros álbuns de estúdio, Section.80 (2011) e Good Kid, M.A.A.D City (2012) são já um sinal muito claro da sua qualidade, mas To Pimp a Butterfly (2015) foi a confirmação que o levou às nuvens, uma viagem com final feliz com muitas paragens no funk, na soul e no jazz (Kamasi Washington passou por aqui). Melodias mais arriscadas e que vão buscar a outros territórios, com letras igualmente fortes.

sbsr 2016, kendrick lamar

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Logo a abrir prometeu colocar borboletas no estômago das 20 mil almas que acorreram a vê-lo e cumpriu. Desfilou hits do último álbum e trouxe ao Palco Super Bock um alinhamento equilibrado, com troca de rimas capazes de rivalizar com os clássicos (e muito bom flow mostrou ao vivo), entrelaçadas com sonoridades funk e soul. Aliás, o mote da noite foi uma frase — “Look both ways before you cross my mind” — de George Clinton, o carismático líder dos P-Funk. Quem o viu cantar temas como “Bitch, don’t kill my vibe” e “Swimming Pools” (e quem percebeu a reação dos 20 mil que encheram o MEO Arena) saiu do concerto com uma certeza: Kendrick Lamar já não é apenas uma estrela de rap (embora a indústria, por vezes, ainda seja reticente em reconhecê-lo), é um dos mais inventivos e geniais músicos deste século.

No concerto desta noite, Kendrick mostrou isso mesmo: é uma rap star, que há algumas décadas talvez nunca tivesse chegado a tanta gente (além das ruas de Compton, do seu país ou de… Portugal). Mais: não é só autor de malhas que conquistam até os ouvidos menos treinados na métrica da street, é um performer de exceção. E emociona-se com o público.

A audiência gritava ora por ele, ora pelo Éder (os fenómenos de massas têm destas coisas), em êxtase, enamorados com a prestação de Lamar mas também abraçados pelo calor do delírio coletivo que reinava na arena. O rapper cantou sobre consciencialização política, racismo e amor próprio (“For Free?”, “I love myself”) e o público respondeu a preceito. Afinal, amor com amor se paga.