Mohamed Lahouaiej Bouhlel, autor do atentado com um camião na cidade francesa de Nice, preparou o ataque de forma extremamente minuciosa durante os três dias anteriores. Fez o percurso várias vezes durante dois dias com o camião alugado, a 11 de julho, em Nice, enviou selfies suas naquela noite, além do SMS momentos antes do atentado a pedir mais armas. Bouhlel frequentava sites de encontros, procurando o envolvimento com homens e mulheres.

O Estado Islâmico chamou-lhe “soldado do Islão”, apesar de entretanto já ter sido conhecido que Bouhlel bebia álcool, comia porco e consumia drogas. De acordo com o The Telegraph, os registos do telemóvel do atacante, apreendido pelas autoridades na noite do ataque, revelaram que era também frequentador de sites de encontros, que utilizava para se envolver com mulheres e homens.

A análise aos movimentos bancários de Bouhlel revelou dois detalhes. No dia 7 de julho, pagou o colégio dos seus três filhos. No dia anterior, tinha feito uma compra através da Internet, no valor de 24 euros. A descrição apenas continha “Islam”, mas a investigação ainda não conseguiu concluir de que é que se tratava.

Mas nada disto o impediu de ter passado três dias a preparar o atentado ao detalhe. O jornal El Español descreve os passos de Mohamed Bouhlel nos dias que antecederam o atentado. As informações, obtidas através da análise dos testemunhos dos vizinhos e conhecidos, pagamentos com cartão de crédito e imagens de videovigilância, revelam que a preparação começou na segunda-feira, dia 11, com o aluguer do camião.

Nesse dia, Bouhlel dirigiu-se ao centro comercial Nice Lingostière — que anunciava o filme “Bastille Day” (um thriller sobre um atentado em Paris no dia 14 de julho) — não para ir às lojas de roupa ou ao cinema, mas para ir a uma loja ao lado do centro comercial. Trata-se da Via Location, um estabelecimento de aluguer de veículos. Foi lá que Bouhlel encontrou um camião que lhe agradou e que, depois de estudar as suas especificidades técnicas, alugou por dois dias. Deveria devolver a viatura no dia 13.

Levou o camião para casa, mas teve de o estacionar longe, porque a sua rua é demasiado estreita para lá estacionar um veículo com aquela dimensão.

No dia seguinte, terça-feira dia 12, Bouhlel quis testar o percurso que iria fazer dois dias depois. Ao volante do camião, percorreu várias vezes a Promenade des Anglais, para um lado e para o outro. Esses momentos ficaram registados pelas câmaras de vigilância.

A volta de reconhecimento de terça-feira não foi suficiente para Mohamed Bouhlel, pelo que na quarta-feira regressou à avenida marginal da cidade. Bouhlel ia pronto para, se fosse parado pela polícia, se apresentar como condutor de entregas, a sua profissão habitual. Após ter percorrido calmamente a avenida várias vezes, estacionou o camião ali perto e foi para casa.

No dia 14 de julho, a quinta-feira em que se celebrava o dia da tomada da Bastilha, a festa nacional dos franceses, Bouhlel tinha tudo pronto para a noite — o camião estacionado perto da avenida, com algum armamento no interior, e o local bem estudado.

Algumas horas antes do ataque, enviou uma fotografia sua ao irmão, e falou com ele. O irmão, que reside na Tunísia com o resto da família, contou à agência Reuters que Mohamed Bouhlel “disse que estava em Nice com os seus amigos europeus para celebrar as festividades nacionais”. Apesar de ter recusado partilhar a imagem, o irmão garantiu: “Parecia muito feliz, ria-se muito”.

Às 22h27, enviou uma mensagem a pedir mais armas. “Traz mais armas, traz em 5 a C”. Queria as armas em cinco minutos, num local identificado como C, explica o El Español. Foi recebê-las da parte de dois albaneses que acabaram por ser detidos dias depois. Depois, foi de bicicleta até ao lugar onde tinha o camião, e começou o ataque.

Na Promenade des Anglais, encontravam-se mais de 30 mil pessoas a assistir ao fogo-de-artifício que assinalava a festa da Bastilha. Para entrar na avenida, que estava fechada, Bouhlel explicou à polícia que iria vender gelados. Ficou a observar o cenário até ao momento em que decidiu arrancar. Chegou aos 80 quilómetros por hora, e só foi parado dois quilómetros depois. Atrás de si, deixou 84 mortos e mais de duas centenas de feridos.

Cazeneuve não confirma ligação entre o atacante e terroristas

O ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, afirmou esta segunda-feira que ainda não tinham sido “estabelecidas pela investigação” ligações entre Mohamed Lahouaiej Bouhlel e “redes terroristas” – nem mesmo com o Estado Islâmico que já reivindicou o ataque, informa a TVI24.

Apesar de, ao longo da entrevista à rádio francesa RTL, dizer que as ligações ainda não foram estabelecidas, “o modo operacional pede emprestada totalmente as mensagens do Daesh que pede, e provocam o terrorismo”.

“Não podemos excluir que um indivíduo desequilibrado e muito violento” se tenha, “através de uma rápida radicalização, comprometido com este crime absolutamente horrendo”, acrescentou ainda Cazeneuve.

Notícia atualizada às 9h49