Instalada no coração da capital francesa, a Catedral de Notre Dame de Paris é palco de romances — como o eternizado no livro de Victor Hugo que mais tarde inspirou o Corcunda da Disney — e de tragédias — como a vivida em abril de 2019, com um incêndio devastador. Porém, a construção gótica também consegue inspirar conspirações como a que surgiu (novamente) nas redes sociais nos últimos dias.
“Jihadistas na França ameaçaram incendiar a Catedral de Notre Dame de Paris a menos que as autoridades libertem Brahim Aouissaoui, que assassinou três pessoas na Basílica de Notre Dame de Nice em outubro de 2020”, lê-se numa publicação que, com ligeiras nuances no texto (nomeadamente no nome do assassino), tem sido partilhada por várias contas no Facebook.
A acompanhar a legenda surgem imagens intimidantes com três homens vestidos com casacos negros, de luvas e com uma balaklava que permite ver apenas os olhos, enquanto um deles fala.
“Nós exigimos que o Governo de França liberte o nosso irmão Brahim Aouissaoui. Se ele não for libertado, a ira de Deus vai cair sobre o vosso povo aqui. As vossas igrejas vão arder pela vontade de Deus”, diz o homem ao centro que, como os outros dois participantes, tem um logótipo bordado na manga direita do casaco. Se o homem mais à esquerda acompanha a coreografia do que fala e aponta para o céu no final do vídeo, o outro, que surge sempre com uma tocha na mão, termina a filmagem a pegar fogo a uma maquete da Catedral de Notre-Dame de Paris.
Num dos textos analisados pelo Observador, é dado o seguinte contexto sobre as alegadas reivindicações dos supostos jihadistas. “Em seu julgamento, Aouissaoui admitiu pela primeira vez o ataque a faca que matou Nadine Vincent (60), o sacristão Vincent Loquès (55) e Simone Barreto Silva (44), uma brasileira mãe de três filhos. (…) Magistrados franceses o descreveram como uma “bomba humana” radicalizada na Tunísia antes de chegar à França semanas antes do ataque, observando que ele não demonstrou remorso e continua a expressar ódio contra o Ocidente. A nova ameaça jihadista aumentou as preocupações com a segurança em torno de Notre Dame, um dos marcos cristãos mais simbólicos da França”.
Por partes: o atentado retratado no texto é verídico. Aconteceu na manhã de 29 de outubro de 2020, na Basílica de Nice. Aouissaoui entrou no espaço religioso armado com uma faca de cozinha. Depois, quase decapitou Nadine Vincent, de 60 anos, esfaqueou 24 vezes Simone Barreto Silva, franco-brasileira de 44 anos (que fugiu do local, mas acabou por morrer) e cortou a garganta de Vincent Loquès, sacristão de 55 anos e pai de duas filhas.
Durante muito tempo, o suspeito, que sofreu ferimentos graves na ação policial para parar o ataque e esteve em coma algumas semanas após ter sido atingido a tiro, reiterou que não sabia como tinha conseguido matar três pessoas. Depois de ter negado o seu envolvimento nos atos no arranque do julgamento, mudou radicalmente a versão e assumiu a ação em nome da vingança dos muçulmanos, apesar de ter negado uma conotação terrorista.
“Todos os dias são mortos muçulmanos. Todos os dias matam muçulmanos e não se importam. Não mostram empatia por eles”, disse no tribunal, antes de ser condenado a prisão perpétua. Se a veracidade desse episódio é facilmente comprovada, o mesmo não se pode dizer das várias incongruências da atuação das três pessoas encapuzadas gravadas a proferir supostas ameaças aos franceses.
Uma rápida pesquisa sobre o tema permite retirar uma primeira conclusão: o vídeo é antigo, tendo começado a ser partilhado nas redes sociais, pela primeira vez, em janeiro de 2025. No dia 28 desse mês, segundo a France24, o ultra-conservador britânico Jim Ferguson partilhou o vídeo e detalhou que tinha sido difundido por “militantes” do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), um grupo chegou a ser liderado por Ahmed al-Sharaa, antigo Presidente interino da Síria.
Autor do ataque na basílica de Nice em 2020 condenado a prisão perpétua
O emblema na manga do casaco dos homens que surgem no vídeo parece suportar a tese de que seriam membros desse grupo (considerado terrorista pelos EUA), mas especialistas consultados pela emissora pública francesa dizem que “as pessoas neste vídeo parece que tentaram copiar certos elementos do logo do HTS”. Mas, completou Broderick McDonald, perito em grupos jihadistas, o “resultado está longe de ser semelhante”.”Não se parece com nenhum dos grupos aliados tradicionais que lutaram ao lado do HTS na última década”, rematou.
Wassim Nasr, jornalista da France24 especialista em grupos jihadistas, classificou o vídeo como uma “encenação ridícula e absurda” e denunciou outra evidências que traduzem a falsidade das descrições associadas ao vídeo: as imagens foram partilhadas de forma anónima em vez de terem sido divulgadas nos canais habituais do HTS, como costuma acontecer.
Bem antes das declarações que prestou à emissora francesa no início de setembro, Nasr já tinha, logo em janeiro, denunciado estas incongruências. “Tudo neste vídeo que está a circular nas redes sociais é ridículo: a mensagem, o sotaque egípcio, as roupas e a maquete… Não, a HTC não está a pedir a libertação de ninguém em França, nem está a ameaçar incendiar a Notre Dame de Paris”, escreveu. Outro jornalista que fala árabe também denunciou que o homem que fala no vídeo, além de ter uma pronúncia pouco clara, também não tem sotaque sírio.
No entanto, fica por esclarecer qual a origem e o objetivo do vídeo, com vários jornais franceses a associar a forma e o conteúdo ao estilo de propaganda utilizada por meios russos. A página que partilhou originalmente as imagens foi suspensa pouco tempo depois da publicação.
Tout est ridicule dans cette vidéo qui fait des tours sur les réseaux, le propos, comme l'accent égyptien, comme les tenues et la maquette… Non HTC n'appelle pas à la libération de personne en France et ne menace pas de brûler Notre Dame de Paris. pic.twitter.com/2CPyscqs18
— Wassim Nasr (@SimNasr) January 28, 2025
Conclusão
É falso que um grupo de jihadistas tenha publicado um vídeo a ameaçar pegar fogo à Catedral de Notre Dame de Paris caso não fosse libertado um homem condenado a prisão perpétua por terrorismo. Os franceses especialistas no tema explicaram várias incongruências das imagens divulgadas já em janeiro deste ano. Além disso, o vídeo não foi publicado por nenhum meio habitualmente ligado ao grupo a que alegadamente pertenceriam os três homens — o que não é congruente com o facto de os três terem o emblema na manga do casaco: se fosse uma reivindicação oficial, seria partilhado nos meios próprios; caso contrário, não iriam assumir a pertença ao grupo.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook.