Um gigantesco palco em forma de folha, montado a meio de um rio na Amazónia, recebe esta noite o tenor espanhol Plácido Domingo, “um projeto completamente louco” que “alguém sonhou e alguém ousou fazer”.

O sonho foi de Roberto Medina, o brasileiro que criou o festival de música Rock in Rio, e na concretização esteve Nuno Sousa Pinto, o português que é o diretor de produção.

À Lusa, no local onde acontece esta noite o concerto, Nuno Sousa Pinto não esconde o orgulho pela obra, uma folha gigante montada no rio Negro onde vai estar o tenor e os seus convidados, além da orquestra e do coro da Amazónia e de outros artistas brasileiros, no total de quase uma centena de pessoas.

“Foi muito trabalho, foram meses consecutivos de preparação”, afirma, explicando que a equipa de 30 pessoas que há dois meses ali trabalha se deparou com uma dificuldade acrescida: as águas do rio não subiram o esperado, ficaram a 2,5 metros do normal, e o material que deveria ser transportado de barco teve de seguir em barcaças (que não tocavam no fundo) e “à mão”.

A falta de água no rio poderá ter a ver com a seca e com as alterações climáticas, o motivo principal para o projeto “completamente louco”: alertar o mundo para a necessidade de preservar o ambiente e lutar contra as alterações climáticas, uma forma de o faze plantando árvores.

O Rock in Rio (que este ano decorreu em Lisboa e onde já foi visível essa campanha) quer plantar quatro milhões de árvores na Amazónia, tendo já conseguido verbas para quase três milhões.

No rio Negro começou-se por uma folha, em tons verdes e amarelos (simbolizando a vida e a morte, nas palavras do diretor de produção), “plantada” numa enseada calma entre árvores que, durante o concerto, serão iluminadas com várias cores, predominando o vermelho ou o roxo.

Tudo para ser visto e ouvido por apenas 200 convidados.

Na noite de sexta-feira, sem convidados mas com muitos técnicos, faziam-se as últimas afinações, já com Plácido Domingo a ensaiar na folha.

Porque o maestro não tinha som de retorno, porque o coro não estava bem, porque era preciso mais luz. Nuno Sousa Pinto olha em redor, suor na cara, se calhar pela elevada humidade. “Este trabalho todo para duas horas de ‘show’…”.

E tudo começou há já um ano, quando Roberto Medina pensou em algo assim, na Amazónia, para iniciar uma campanha pela florestação. “Uma ideia de um simples palco flutuante que cresceu para isto”, diz Nuno, um sorriso de orgulho.

Afinal foi um ano de projetos, vários meses de trabalho, muita gente envolvida, 500 toneladas de material, entre balsas, som e luz e uma tela gigante que faz de folha.

E 200 pessoas para esta noite ouvirem o hino do Rock in Rio tocado pelo guitarrista brasileiro Andreas Kisser, seguindo-se o tenor, também brasileiro, Saulo Laucas, a cantar “Canto della Terra” (de Francesco Sartori, popularizado pelo tenor italiano Andrea Bocelli), e depois Ivete Sangalo, também do Brasil (que a seguir canta para milhares de pessoas em Manaus), que termina a cerimónia de abertura com Plácido Domingo a cantar “Aquarela do Brasil”, o ‘clássico’ de Ary Barroso.

Só depois vêm dezena e meia de músicas por Plácido Domingo e convidados, começando com “O Guarani”, da ópera homónima do compositor brasileiro António Carlos Gomes.

O tenor segue depois por Verdi (“Il Trovatore”) ou Zequinha de Abreu (“Tico Tico no Fuba”), canções dos musicais norte-americanos “My Fair Lady”, de Frederick Loewe, “West Side Story”, de Leonard Bernstein, ou “South Pacific”, de Rogers e Hammerstein, terminando com “La taberneira del puerto”, uma zarzuela de 1936 de Pablo Sorozábal.

Serão duas horas de música e 200 convidados. Mas Nuno Sousa Pinto acredita que haverá pelo menos mais um, um crocodilo que todas as tardes tem visitado a equipa de produção. É uma fêmea, Belinha de seu nome.