Katty Xiomara meteu água, mas no bom sentido. Esta segunda-feira a designer luso-venezuelana chegou ao cais Pier 59 Studios com uma coleção inspirada no mar e nos navegadores portugueses. Com ela, o Portugal Fashion atravessou o oceano Atlântico para marcar presença na fervilhante Semana da Moda de Nova Iorque. A última vez tinha sido há 15 anos, ainda havia Torres Gémeas e o calendário internacional tinha muito poucos carimbos no passaporte.

Nova Iorque é como Paris, é um centro de compras“, diz Katty Xiomara ao Observador poucos minutos antes do desfile onde apresentou as suas propostas para a primavera-verão de 2017. “Aqui acabamos por abranger também outros mercados como o canadiano, o russo ou o asiático.”

Em tempos, os portugueses também chegavam a todo o mundo com uma simples caravela. Xiomara inspirou-se nessa época e trouxe dos descobrimentos a “Corrente das Agulhas”, uma zona perigosa em que as águas do Atlântico e do Índico se encontram, conhecida pelas correntes rápidas e as ondas gigantes, e com a qual batizou a sua coleção. “As agulhas seriam as rochas muito pontiagudas e eu achei curioso o nome e o facto de ter sido dado por portugueses”, diz a designer, que agarrou precisamente em agulhas para coser um tema em torno das conquistas marítimas.

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A tradicional gola dos marinheiros marcou presença, assim como os padrões inspirados no fundo do mar.

“Por norma um tema náutico é um clássico da moda”, admite a criadora, que começou por desenhar, “em 1997 ou 98, na primeira apresentação fora da escola”, uma coleção inspirada no oceano com poemas portugueses e peças onduladas. “É engraçado fazer reviver o mesmo tema passado tanto tempo, mas no fundo é o que acontece na moda: tentamos sempre fazer coisas novas mas o revivalismo também acaba por estar presente.”

Traduzido em roupa, o mergulho de Katty Xiomara tomou a forma de colarinhos e presilhas com peixes, golas de marinheiro em diferentes interpretações, conjuntos às riscas em azul, branco e vermelho, polvos bordados com âncoras, calças e saias de cintura subida com botões, lantejoulas que remetem para escamas, saias-sereia, vestidos coral ou até rendas que deixaram o ar romântico para se aproximarem das redes dos pescadores.

Adoro a simplicidade de um vestido preto, e aqui temos alguns, mas a minha ideia é desafiar a mulher a não jogar sempre pelo seguro e divertir-se quando se veste. Isso não passa necessariamente por usar muitas cores ou ser extravagante, há outras formas e pequenos detalhes que se podem fazer para nos sentirmos únicas e diferentes”, diz Katty Xiomara.

Antes do desfile começar, os convidados receberam uma tatuagem de um polvo com uma âncora e a frase “I dare to face monsters, storms or the unknown daring to be happy” (atrevo-me a enfrentar monstros, tempestades ou o desconhecido, atrevendo-me a ser feliz). A tatuagem era temporária mas a relação de Katty Xiomara com Nova Iorque parece estar para ficar. Antes deste apoio do Portugal Fashion — que esta terça-feira leva Miguel Vieira ao mesmo destino e que tem marcado presença na Big Apple através da feira Edit –, a designer já se tinha estreado no calendário paralelo da New York Fashion Week em 2013 e, cinco desfiles e cinco estações depois, pode mesmo dizer que neste momento o maior volume de vendas da sua marca vem dos Estados Unidos. “Temos uma agente em Nova Iorque e em Las Vegas e já estamos a trabalhar no mesmo sentido na Ásia”, diz Katty Xiomara, para quem é evidente que ficar pelo país onde desenha e produz as suas peças não é suficiente. “Viver só com o mercado português não dá. É muito pequeno.”

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Katty Xiomara no final do desfile que teve lugar no Pier 59 Studios.

Continuando a tentar saltar fronteiras, depois de Nova Iorque o Portugal Fashion segue ainda este mês, e com outros designers, para as restantes capitais da moda: Londres, Milão e Paris.

O Observador viajou para Nova Iorque a convite do Portugal Fashion.