Fica em frente à estação de metro do Mercado de Matosinhos. Mas se a ideia é tomar um café rápido, nos minutos que faltam para a chegada do próximo transporte, talvez não deva entrar aqui. O Manifesto abriu a 10 de setembro, serve café de filtro e, de caminho, quer filtrar também a pressa e a superficialidade que parecem tomar conta do século XXI.

Tiago Costa e Eduardo Madeira são dois ex-jornalistas e não foi de forma leviana que escolheram batizar o novo projeto com uma palavra forte. “Numa sociedade saturada de informação, Manifesto quer ser um embaixador da narrativa lenta. Queremos oferecer publicações de referência — como a Monocle — mas queremos também ser uma montra para jovens jornalistas e editores que estejam a desenvolver trabalhos relevantes — como a Offscreen ou a Sidetracked”, pode ler-se na apresentação.

O Manifesto é então um café onde também se servem bolachas e bolos, e é food for thought, através da galeria de fotografia e do quiosque que, em breve, terá 250 publicações independentes e conceituadas. O espaço tem 13 lugares sentados, para quem quer beber um café, trabalhar um pouco ou até ler as revistas ali disponíveis. Mas é, sobretudo, uma nova associação cultural que quer “despertar nas pessoas curiosidade sobre aquilo que as rodeia”, convidando-as a abrandar o ritmo e a refletir, explica ao Observador Tiago Costa.

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Há 13 lugares sentados para quem quer beber um café 100% arábica e ler publicações como a Offscreen. © Divulgação

O projeto foi criado pela Nomad, uma agência de viagens de aventura nascida no Porto em 2007, que organiza atividades e viagens em grupo fora dos roteiros tradicionais. “É o mecenas vitalício do espaço”, sublinha Tiago Costa. Livres da pressão do lucro (ainda que o objetivo seja a autossuficiência), os mentores não se importam de perder clientes por não terem o café expresso da praxe. Em primeiro lugar está o conceito, e desse não abrem mão. Há duas variedades de café: Gichathaini, do Quénia, e Miralvalle, da Guatemala (2€). A seleção foi feita pelos especialistas do Wanderlust Coffee Lab. São ambos de filtro, 100% arábica com grãos “de excelente qualidade” e, para potenciar o sabor, demoram cerca de cinco minutos a serem feitos, em frente ao cliente.

Se o café obriga a relaxar, cada publicação que está no quiosque tem textos e produções que “demoram a ser digeridos”, explica Tiago Costa. Disponíveis para venda e/ou leitura estão publicações de referência como a New Yorker e a Monocle, por exemplo. Há uma secção dedicada à arte e ao design, outra dedicada à fotografia e à reportagem, terminando com viagens. Neste momento estão disponíveis 80 títulos, mas o objetivo é ter cerca de 250.

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Offscreen, National Geographic, Cereal Magazine, Kinfolk. Monocle e a sua publicação especializada em viagens The Escapist são alguns dos números que se encontram no quiosque. © Divulgação

O critério? “Tem de ter conteúdo”, resume Tiago. Ali encontra-se o contraponto à notícia imediata, contraria-se o hábito crescente de se “ficar pelo cabeçalho que aparece no Facebook”. Uma urgência, se o que se pretende é uma sociedade informada e consciente do que se passa à sua volta. A Manifesto vai mesmo financiar e produzir alguns livros. A Câmara Municipal de Matosinhos apoia a associação cedendo-lhe este espaço, em troca de uma renda mais baixa.

No piso inferior encontra-se a galeria. A primeira exposição a ocupar as paredes chama-se “Crónicas da Atlântida” e é feita de fotografias tiradas por António Luís Campos, colaborador da revista National Geographic Portugal. Durante dois anos, o fotojornalista português percorreu as nove ilhas dos Açores e captou o quotidiano de quem lá mora. Pelo Manifesto passarão à volta de quatro exposições por ano, sempre de fotografia documental, com curadoria de António Luís Campos.

A próxima deverá inaugurar em novembro e será uma mostra coletiva dos fotógrafos da National Geographic, “para celebrar o 15.º aniversário da revista em Portugal”, adianta Tiago Costa. Ao mesmo tempo, estão a organizar uma palestra com as melhores histórias dos fotógrafos e jornalistas portuguesas da publicação. A palestra está marcada para o dia 9 de novembro, às 21h00, no Teatro Municipal de Matosinhos — Constantino Nery.

Em janeiro, chegarão à galeria as fotografias de Mário Cruz, fotojornalista da Agência Lusa. O tema é o tráfico, os maus-tratos e a escravatura a que são sujeitas crianças do Senegal e da Guiné-Bissau, um trabalho pesado que lhe valeu o primeiro lugar da categoria de “Temas Contemporâneos” do World Press Photo deste ano.

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A Tema é outra das revistas ali presentes, para venda e consulta. © Divulgação

Para além de café, snacks, internet, publicações e exposições, o Manifesto também irá acolher alguns workshops. O próximo é no fim de semana de 12 e 13 de novembro e será dedicado à fotografia de viagem. Uma semana mais tarde, a 19 de novembro, tem lugar um workshop que ensina a preparar uma viagem de aventura.

Nome: Manifesto
Morada: Rua França Júnior, 1 (Mercado de Matosinhos)
Telefone: 22 324 2142
Horário: De terça a sexta das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 19h00 (aos sábados encerra às 20h00)
Site: www.facebook.com/manifesto.mercado.matosinhos