[este artigo foi originalmente publicado a 20 de outubro de 2016 e atualizado a propósito da morte de Maradona, a 25 de novembro de 2020]

Há dias mundiais para tudo e mais alguma coisa. Que o diga o mês de março, cheio como tudo. É o dia da água, a 22. O da árvore, a 21. O do teatro, a 27. Saltamos para outubro. É importante dar um toque de atualidade. No dia 1, é o da música. No dia 20, é o de Maradona. A uma semana de fazer 16 anos de vida, Diego estreia-se como sénior, ao serviço do Argentinos Juniors. Ao longo de 22 anos, escreve a história mais desconcertante de todos os tempos. Mete droga, rock n’roll e bola. Tudo à grande. Maradona, pois então. Se é o melhor de todos os tempos ou não, isso agora é irrelevante. É certamente o mais controverso.

A sua relação com Portugal é escassa, só joga aqui uma vez, em Alvalade, com o Sporting. É a primeira eliminatória da Taça UEFA 1989-90. Como Maradona chega mais tarde das férias, é relegado para o banco de suplentes. Veste a camisola número 16, a mesma do dia de estreia, a 20 outubro 1976. Quando entra, é uma histeria coletiva. Os adeptos do Sporting pagam também bilhete para vê-lo. O resultado nem sai do 0-0. O que importa isso? O momento mais impressionante é o túnel de Douglas. Sim, o brasileiro das meias descaídas mete a bola por entre as pernas de Maradona. “Nem queria fazer aquilo”, diz, meio sem jeito. “Saiu-me assim e foi bom. O Manuel José encarregou-me de o marcar, caso ele entrasse. O Estádio José Alvalade foi-se abaixo e começaram a entoar o meu nome. Foi bom, ótimo. O pessoal era fantástico. As torcidas faziam cada coreografia, do mais bonito que vi na minha vida. O nosso azar com o Nápoles foi o desempate por penáltis. Poxa, falhou o Gomes, um artista dos penáltis. A bola explodiu na trave. Nunca mais esqueço. E também não esqueço todos nós de cabeça baixa no balneário e, de repente, aparecer o Maradona com uma nota de 100 dólares para pagar a aposta ao Ivkovic.”

Soccer - Football League Centenary Match - Football League XI v Rest of the World XI - Wembley Stadium

Fotografia coletiva do jogo do centenário da Federação Inglesa de futebol, em que os melhores ingleses jogaram contra “o resto do mundo” – no lado direito da fila de baixo estão Maradona e Futre, que jogaram na mesma equipa

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Esse jogo de Alvalade ainda tem um detalhe curioso, porque Maradona abandona o relvado vestido à Sporting , então patrocinado pela Nissan. Quem a troca com ele? O capitão leonino. Solta aí o verbo, Carlos Manuel. “Só tenho uma camisola comigo e está tão bem escondida, tão bem escondida, tão escondida cá em casa que nem sei onde está. Nem quero saber. Sei que está aqui e isso chega-me. O Maradona é suplente e entra só na segunda parte com a 16. Já estou eu a descer as escadas para o balneário e a dar entrevistas para as rádios quando alguém me toca no ombro. Viro-me e é Ele, o Maradona. Queria trocar de camisolas. Era hábito dele, fazia isso com todos os capitães, e eu era o do Sporting. Essa eliminatória é aquela do duplo 0-0 e resolvida nos penáltis lá em Nápoles? Isso mesmo. Lá o Maradona recebeu-nos no Estádio San Paolo a perguntar se precisávamos de alguma coisa, se estava tudo bem. Isso é coisa de dirigente mas foi ele quem nos recebeu à porta do estádio e mostrou-nos os corredores e os balneários. O Ivkovic defendeu o penálti do Maradona, não foi? Era aí que queria chegar. Houve a tal aposta de 100 dólares e ele bate-nos à porta do balneário para pagar a aposta ao ‘Ivo’.” Pois é, todas as histórias acabam no penálti defendido por Ivkovic.

Muito bem, a única experiência de Maradona em Portugal é essa em Alvalade. E mais, e mais? Mais nada. Nããããão? Quer dizer, Maradona nunca divide balneário com um português? Não. Nunca? Irra, que chato. Não, nunca. Nem o Futre? Oláááááááá, tu queres ver? Isso mesmo, Maradona e Futre ao vivo e a cores desde Wembley em 1987. E depois, mais Maradona e Futre desde o Parque dos Príncipes em 1988. Ora bem, isto vale um sms para Futre. A resposta é pronta e de elevado nível técnico, como se fosse um jogo de ténis de mesa. O telefone toca e é Futre. “Rui, estou em Madrid. Dá-te jeito falar agora?” Errrrrr, por acaso não. Dá-me uma hora. “Força, Rui, força.” Agora é a minha vez. Cá vai disto. O barulho de fundo é o de um jogo. “Estou a ver o Liverpool-Manchester United.” Xiiiii, esqueci-me completamente. “Não faz mal, não faz mal, estás à vontade. Queres falar do quê?” Desta vez, nem é do quê. É de quem.

Quem?

Maradona.
Uyyyyyyy. Diz.

Isto é a propósito dos 40 anos da estreia dele, nos Argentinos Juniors. Quero falar com alguém que tenha jogado com ele e tropecei no teu nome.
No jogo em Wembley, não foi?

Exacto.
Foram os 100 anos da federação inglesa. Na altura, o Resto do Mundo era uma seleção de respeito. Não é como agora com os amigos deste e os amigos daquele. Não. Naquele tempo, éramos convocados com pompa e circunstância. Aliás, fui convocado para o jogo nesse Verão, enquanto saía do Porto para o Atlético Madrid. Ainda pensei, ‘tu queres ver que isto ainda vai tudo por água abaixo? Mas não, o Atlético Madrid libertou-me e fui jogar com o Maradona. Aquilo era para ser levado a sério. Quer dizer, o ambiente fora do campo era descontraído. Lá dentro era para ganhar.

Nessa tarde, como foi?
Perdemos 3-0. Era a seleção inglesa em peso, mais rotinada que nós.

Nós, quem?
Dasaev, Elkjaer, Celso, Berthold, Hysen, Platini, Maradona, eu. Ah, e o Lineker. Como ele jogava no Barcelona, estava do nosso lado.

Grande equipa. Quem era o treinador?
Terry Venables, o inglês do Barcelona.

E o deles?
Boooooby Robson [diz o Bobby como se estivesse na rádio]

E como foi conviver com o Maradona?
Maravilha, claro. Ele já estava num outro patamar. Chegou com guarda-costas. Só assim é que ele podia avançar na rua. Não me lembro se o conheci no jantar, na véspera, ou no balneário, pouco antes do jogo. Inclino-me para a segunda opção. Não tenho ideia de o ver no jantar.

Como foi o aperto de mão?
Todos os apertos de mão com ele foram memoráveis. Ele era o Maradona, não é? Uma figura distinta. Por muito bom que fosses ou que tivesses sido, o Maradona é o Maradona. Sem tirar nem pôr, é um génio. Levou a Argentina a duas finais de Mundiais. Levou o Nápoles a dois títulos de campeão italiano. Nem é preciso conhecer muito bem a história do futebol para se entender que esses quatro momentos são de se tirar o chapéu. E ele, Maradona, não só estava lá como ainda foi o ator principal. Génio, génio, génio.

Como te correu esse jogo em Wembley?
Não fiz nada de jeito. Estava encantado por jogar ao lado de Maradona, vê bem. Passou-me tudo ao lado. Lembro-me que o jogo passou em Portugal, na RTP, em direto. Lá está, naquele tempo, a seleção do resto do Mundo tinha um peso indiscutível. E, claro, o nome de Maradona levava qualquer um ao delírio.

Até os ingleses?
Até os ingleses, sim, sim.

Pergunto-te porque isso foi um ano depois daquele 2-1 à Inglaterra no Mundial do México-86?
Pois, percebo a pergunta. Digo-te uma coisa. Aquele estádio Wembley era lindo, a relva estava impecável, os adeptos acorreram em massa. Tudo se conjugava para uma tarde soberba, única. E foi. Mas aqueles assobios ao Maradona foram devastadores. Para ele, para nós, jogadores, e para o próprio futebol. Imaginas, ò Rui, 70 mil pessoas a assobiar um único jogador sempre e cada vez que ele tocava na bola? Ele aguentou-se bem, mas lembro-me da sua frustração no balneário e até no hotel.

Nesse dia, Maradona joga com o 10?
Claro.

Claaaaaro? Então e o Futre?
Eheheheheheh. Pois, tive de abrir uma exceção. Joguei com o 11. E o Platini a 9. Pronto, está tudo dito sobre o Maradona.

Mais algum jogo com o Maradona?
Olha, agora falei no Platini e lembrei-me do seu jogo de despedida, em 1988. Aí, joguei com o número 6.

Seis?
Exactamente, eheheheheh. Número 6. O 2 foi o João Pinto.

E mais do Maradona?
Mais do Maradona? Ele tirou-me da tristeza em 1986.

Então?
É o Mundial do México. A nossa seleção vem para casa no final da fase de grupos. Ganhámos à Inglaterra e, depois, perdemos com Polónia e Marrocos. Casa. Por sorte, o nosso voo chega a Lisboa às seis da manhã. Ainda não havia muita gente. Se fosse às seis da tarde, ainda hoje lá estávamos a levar com tomates e ovos. Mal cheguei, fui para casa dos meus pais. Abro a porta e o meu pai faz-me aquele olhar de vergonha. Aquilo matou-me. Quer dizer, já vinha do México sem pica nenhuma. Chegas a casa e, taaauuu, toma lá disto. Nada a apontar, atenção. O meu pai lançou-me aquele olhar e arrepiei caminho. Fui para o Algarve e tranquei-me numa casa, desanimado com tudo. Nem saía de casa. Mesmo. Juro. Se saísse, seria o cabo dos trabalhos. Optei por ficar dentro de um cubículo.

A ver o Mundial?
Claro. Quando há aquele jogo, o Argentina-Inglaterra, há muita conversa pela Guerra das Malvinas. Começa o jogo e aquilo muda-me a disposição. Mudei o chip, Rui. Aquele 2-0 é um sonho. Mesmo. Sonhamos com aquilo desde pequeninos. Sonhamos fazer a diferença daquela maneira. O Maradona, assim do nada, começa a correr e eu acompanhá-lo no sofá. Também corro por ele. Ultrapassa um, dois, três, quatro. Quando faz golo, é o delírio. Ele tornou realidade um sonho. Rui, isso é praticamente impossível. E ele tornou-o possível no jogo mais importante das suas vidas, pela tal Guerra das Malvinas, em pleno Mundial, em pleno mata-mata. Estou a ver tudo, a jogada, as emoções. Aquilo mudou-me. Maradona mudou-me com aquele golo. Libertei-me do meu estado parado e triste. Quis imitá-lo, um dia. Na final da Taça dos Campeões 1987, quando faço aquela jogada, que não se compara com a do Maradona, atenção, estive tão perto. Já passou e o que interessa é que aquele slalom do Maradona deu-me vida quando mais precisava.

A partir daí, puxaste pela Argentina?
Sem dúvida. Aí e também no Mundial-90. Argentina, sempre.

E no Mundial anterior?
Em 1982? Itália, então? Só via o Bruno Conti à minha frente. Era o meu ídolo e eu torcia pela Roma. Grande Conti. Que fez um grande Mundial. Agora vê a cena: todos os meus amigos eram pelo Brasil do Zico, Sócrates, Júnior, Falcão e eu era o único da Itália. Estás a ver a cabeça deles naquela tarde do Sarriá, não ‘tás? Eheheheheheh, 3-2 para mim. Itália, grande Itália. Agora, aquela marcação do Gentile ao Maradona é uma coisa… Pfffff, pobre Maradona. Digo-te: Messi e Ronaldo nunca foram marcados assim.

E no Mundial anterior? (desculpem, isto está em loop)
Em 1978? Holanda. Era uma paixão de 1974. Só tinha oito anos mas já sabia o que era e quem era o Cruijff. Era cá um génio. Outro. O cruijff não foi ao Mundial-78 mas agarrei-me ao Rensenbrink para torcer pela Holanda e aquela final dos papelinhos em Buenos Aires continua bem presente na minha cabeça. Com prolongamento e tudo, foi um festival de bola. O Kempes deu a volta à Holanda.

E mais do Maradona? (desculpem, isto está em loop)
Apertei-lhe outra vez a mão num jogo em que fomos capitães: eu no Atlético, ele no Sevilha. Era um jogador distinto, como já disse, e uma pessoa tranquila.

Trocaste de camisola com ele?
Não, olha nunca fui de trocar camisolas com ninguém. Quanto muito, alguém me pedia. Se eu pedisse a todos, ou quase todos, não havia armários para tanta coisa. Pobre Ikea.

Nem uma camisola tens?
Uma só, a do Schuster do Barcelona. Era miúdo e admirava-o imenso.

Depois jogaste com ele, no Atlético Madrid.
Sim, e ganhámos a Taça do Rei ao Real Madrid, no Santiago Bernabéu. Eu marquei um golo, ele outro, 2-0. Era um líder nato. Quando falava, o pessoal calava-se automaticamente.

O dia em que trocaste de camisola com o Schuster é o do Porto-Barcelona, aquele do hat-trick inglória do Juary: 3-1 e Porto eliminado?
Esse mesmo. Foi um daqueles jogos que ainda hoje te faz sofrer. Estivemos tão tão tão perto de eliminar o Barcelona. E seria épico dar a volta ao 2-0 de Camp Nou. Só que, às vezes, há derrotas que te fazem bem. Esta é uma delas. Um pouco como aquele 2-1 do Sporting no Bernabéu, há um mês. É uma derrota que te faz crescer, que te dá confiança, em que tu pensas ‘vamos ganhar qualquer coisa’. Quando ganhámos ao Barcelona e fomos eliminados, o nosso pensamento foi de vitória. E a verdade é que conquistámos a Taça dos Campeões no ano seguinte, naquele 2-1 ao Bayern. Já o Barça dessa época, foi à final de Sevilha e perdeu com o Steaua. Insisto nesta ideia: há jogos de uma vida, do mais moralizador que há. Esse Porto-Barcelona é um deles.

Então e o Porto-Wrexham da época anterior?
Xiiiiiiii. Esse jogo também está lá nesse ranking, sim. Chovia chovia chovia e chovia. O Porto ganha mas é eliminado. Ganhámos 4-3 e saímos da Taça das Taças. E à primeira [na 1.ª mão, 1-0 para o Wrexham]. E eles jogavam na 4.ª divisão inglesa. E nós tínhamos estado na final da época anterior [2-1 para a Juventus, em Basileia]. Pensávamos que as camisolas ganhavam jogos. Poderíamos ter dado seis ou sete e caímos.

Mas como?
Não sei Rui, é inexplicável. Aos 30 minutos, 3-0 para nós. Eu estive em todos os golos: no 1-0, dei para o Gomes, no 2-0 fiz o cruzamento para o Jaime Magalhães e sofri o penálti do 3-0. Foi o meu primeiro grande jogo nas Antas, aquele que encheu as medidas dos adeptos.

E como se portaram eles, consumada a eliminação?
Também ficaram sem muito a dizer. É que foi daquelas situações inexplicáveis. … Lembro-me de estar a tomar banho, todo rebentado, porque a chuva constante mais o vento forte puxam muito mais por nós, e de olhar para o Frasco e para o Quim… Sem palavras. Estávamos mudos. Mas então havia 3-0 aos 40 minutos e… E eles marcaram dois de rajada, ambos de bola parada, ambos pelo lateral-direito [King] e o Borota a não se sair bem na fotografia. Era um guarda-redes jugoslavo que defendia com os pés e nunca se atirava para o chão nos treinos. Naqueles dois golos do Wrexham, na sequência de cantos, o forte vento funcionou a desfavor dele mas o curioso é que nunca mais jogou no Porto.

E a segunda parte?
Fiz o 4-2, à entrada da área.

De bico, não foi?
Isso mesmo, isso mesmo, de bico: 4-2. E eles foram lá uma vez, perto do fim [89’] e marcaram de cabeça. Que balde de água fria. Gelada. Essa noite entra no top 5 para contar aos netos. Das noites más, quero dizer.

E o ambiente?
Tudo sem palavras. Até que o Pinto da Costa entra e apela à calma. Disse qualquer coisa como ‘é preciso dar um passo atrás para dar dois à frente’. E o que aconteceu dois anos e meio depois? Viena-1987. Pois é, 2-1 ao Bayern e campeões europeus. O Wrexham marca o início dessa campanha, por assim dizer. Há outro pormenor: a nossa equipa era mesmo fenomenal e a verdade é que fomos campeões nacionais nessa época 84-85, só com uma derrota.

É a época do 4-2 na Luz.
Do que foste falar, ò Rui. Que noite memorável. Uma das minhas melhores noites. Foi uma exibição de sonho de toda a equipa. Tu não estás a ver.

Ai não?
Eheheheheh. Aquilo foi numa quarta-feira que não era europeia, mas andava lá perto pela força dos clubes. A adrenalina era a mesma. O Benfica é sempre o Benfica. A Luz é sempre a Luz. É o inferno da Catedral, não é? Mas nessa noite estava tudo calado. Imagina, 4-2 na Luz. E eu, dois golos. Incrível. Ganhar de forma tão expressiva no campo do Benfica é sempre motivo de uma festa enorme. Agora repara, no jogo seguinte, empatámos em casa com o Varzim [0-0]. O Artur Jorge deu-nos uma descasca daquelas. Ui, até me arrepio.

Obrigado Paulo.
De nada, Rui. Olhas, sabes outra coisa: em 1988, o Maradona diz à imprensa que eu sou o seu sucessor. Lembrei-me agora disso. Beeeeeem, não estás bem a ver a força que aquilo me deu. Ele era assim: uma palavra e mudava o mundo de qualquer um. Imagina ouvir isso da maior figura do futebol.

Curioso, porque o Rui Barros também diz isso: quando coincidiram em Itália, o Maradona apreciava-o muito e não devia ser só porque mediam quase o mesmo.
O Rui, o Ruizinho, que jogador. Saí eu do Porto, entrou ele e partiu a loiça toda com o Ajax, lá em Amesterdão. Que orgulho.

Vocês cruzaram-se em Marselha, não foi?
Marselha? Xiiiiiii, grande caldeirada. Era essa a frase mais comum entre mim e o Rui Barros. Quando nos encontrávamos de manhã, eu dizia-lhe ‘ò Rui, g’anda caldeirada, g’anda bronca, já viste no que nos fomos meter.’

E esse Marselha é um equipazo?
É o campeão da Europa, só. Quando me convidaram, nem pensei duas vezes. Ainda por cima, fui lá encontrar o Rui Barros, que me ajudou imenso. Primeiro, já aí era um amigo dos jogos da seleção. Naquele tempos, nós éramos as estrelas, entre aspas… e também sem aspas, éramos as estrelas da seleção. Segundo, o Rui vinha de três anos no Monaco, portanto dominava o francês e nem querias saber como me ajudou. Terceiro, o Marselha era o campeão europeu. Volto ao mesmo. Aquilo era uma constelação de estrelas. Deschamps, Barthez, Amoros, Di Meco, Boli, Desailly, Boksic, Völler e os dois tugas: o Ruizinho e eu.

Tinha tudo para dar certo.
É verdade. Acontece que o Marselha vê-se envolvido no escândalo de resultados combinados. Nem imaginas a loucura. Havia manifestações diárias.

Dos adeptos?
Também, mas não eram promovidas por eles. Chegávamos ao centro de treinos de manhã para uma sessão normal e éramos avisados de uma manifestação da cidade, marcada pelo próprio presidente Bernard Tapie. E aquilo era levado a sério. Milhares de pessoas juntavam-se, protestavam e ouviam o presidente Tapie durante uma hora. Pobre Rui, a traduzir-me tudo aquilo. G’anda caldeirada.

Tapie, que tal esse presidente?
Era um mister. Mesmo. Digo-te, a sério, ele entendia mesmo de bola. Durante a semana, nem o víamos por lá. De repente, antes dos jogos, aparecia no balneário, tirava o casaco, arregaçava as mangas e dava a tática. Como tinha linha direta com o treinador [Marc Bourrier], sabia de tudo o que se passava no treino. Por isso, dava bronca no sábado a um jogador que tinha feito uma asneira na terça-feira. Ninguém abria a boca, só falava Tapie. E com propriedade. Ele acabava a preleção e nós ficávamos a olhar uns para os outros, como quem diz ‘está certo, vamos a isso’.

E contigo, como era o Tapie?
Incentivava-me. Dizia sempre ‘hoje vais marcar’. Era um motivador nato. Quando marcava, ele vinha ter comigo, às vezes ao intervalo, e atirava-se a mim: ‘não te disse que ias marcar?’”