Sentir-se integrado com uns jogos de submissão pelo meio. Sentir-se protegido e receber ordens violentas ao mesmo tempo. É assim o ambiente do “dá e tira” vivido na praxe, segundo Elísio Estanque. O sociólogo e investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra decidiu pegar no fenómeno a que assiste na sua própria universidade e analisá-lo. Daí resultou o ensaio “Praxe e Tradições Académicas”, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Em entrevista ao Observador, o também professor universitário diz que a praxe rege-se pela ideia de que “para se singrar na vida, é preciso aceitar a humilhação e respeitar a autoridade sem questionar”. E admite ser “um crítico” da praxe porque esta incorpora uma naturalização do “poder despótico”.

Qual é o lado bom da praxe? É a integração dos mais novos?
Sim, há um lado humano de integração e de inserção do indivíduo no seio de um grupo. Aquele indivíduo acaba de chegar a um grupo desconhecido e sente-se integrado. Isso imprime um sentimento de proteção nesse indivíduo, que se sente merecedor e digno de um determinado estatuto.

O contexto da praxe comporta muitas vezes a imprevisibilidade. Comporta situações de algum risco e de algum excesso. Mas é curioso que é também nas praxes que os recém-chegados forjam a maioria das suas amizades e das suas relações afetivas, o que imprime mais segurança no indivíduo, que está a atingir uma fase de autonomia. O caloiro está a adquirir um estatuto de adulto responsável e aquele ambiente de integração, que ele sente nas praxes, contribui para que se sinta seguro.

E essa segurança é adquirida à custa de quê?
Do exercício do poder despótico. Essa segurança e integração decorrem de uma construção social que aponta no sentido de uma atitude de aceitação acrítica e de reverência perante o poder do mais velho, só porque é mais velho. É a aceitação da disciplina e da autoridade como algo incontornável. E isso está sujeito a críticas. Se vivemos numa sociedade democrática em que todos estão em pé de igualdade, a construção dos papéis deve assentar numa base igualitária — sobretudo num contexto estudantil. Há uma imposição disciplinar que se tem reproduzido ao longo dos tempos, com base apenas na dominação inquestionável do mais velho.

O doutor que praxa é o anjo e o diabo e tem a “lógica da cenoura e do chicote”. Esta expressão é sua. Pode explicar?
É, ao mesmo tempo, a humilhação do outro e o prazer de estar com ele. É por aí que passa a subvalorização por parte do estudante que foi praxado. É um reforço de uma relação quase paternal, em que o mais novo se projeta na figura do doutor ou do padrinho. Aquele superior é o modelo que ele quer seguir. O padrinho que protege e que vai para os copos com ele foi o mesmo que o obrigou horas antes a deitar-se no chão ou a ficar de quatro. O padrinho que lhe dá conselhos é o mesmo que lhe gritou agressivamente ao ouvido. Passa-se do frio para o quente muito facilmente. Essa passagem brusca de comportamentos não é boa.

Quem está na parte de baixo da relação obedece às ordens de quem manda. Sejam elas quais forem. Mas depois no convívio informal e de boémia, é como se essa relação de mandar e obedecer se desvanecesse. “Parece que é tudo muito duro, mas afinal é tudo um jogo”, pensarão os caloiros. Mas essa relação entre quem manda e quem obedece não se desvanece. Quando vejo jovens alinhados, ou de quatro, ou de olhos vendados a receber ordens gritadas em tom de arrogância, não deixo de pensar o que sentem ou o que pensam, enquanto estão a vivenciar esse tipo de situações.

Uma estudante disse num programa que tinha o “direito a ser humilhada”. Porque é que alguém reivindica o direito à humilhação?
Há um défice de informação e de cultura. E há sobretudo um défice democrático. Uma ignorância relativamente aos direitos humanos e aos direitos cívicos. A praxe comporta uma ideia perigosa, que depois pode marcar os jovens para o resto do seu percurso: a ideia de que, para se singrar na vida, é preciso aceitar a humilhação e respeitar a autoridade sem questionar. “Temos de aceitar ser humilhados porque a vida é assim, porque as empresas tem uma atitude de autoridade perante os assalariados. Temos de aceitar que a vida é só contrariedades, que é preciso que alguém nos dê com o martelinho na cabeça para sermos alguém na vida”. Como se a praxe fosse uma espécie de formação intensiva para a vida. Como se isto fosse a verdade acabada na forma como nos devemos comportar em sociedade. É a naturalização do poder despótico — e isso, sim, tenho muita dificuldade em aceitar.

Qual é o poder do traje? Quem o veste sente-se outra pessoa?
O traje representa o simbolismo das coisas. Sabe que, segundo o Código da Praxe, qualquer caloiro pode vestir o traje logo que entra na Universidade. É essa a regra que está no Código, que tem 200 e muitos artigos. Mas as regras nem sempre coincidem com a prática, seja por desconhecimento ou por dificuldade de incorporação desses requisitos. O traje é exemplo disso: formalmente qualquer caloiro pode vestir o traje assim que entra na faculdade, mas na prática é preciso passar por uma série de rituais para estar autorizado a vesti-lo. É preciso penar para merecer.

Afinal, de onde vem a praxe?
A praxe deriva de um tempo em que a universidade tinha instrumentos e instituições de governação que faziam dela um “estado dentro de um estado”. Na Universidade de Coimbra chegou a existir a polícia académica e uma prisão académica. Havia um quadro jurídico respeitante à praxe a que se tinha de obedecer. Era todo um conjunto de mecanismos que velavam pela tradição dos valores e por um estatuto elitista que a universidade guardou durante muitos séculos. Depois, os estudantes mais velhos foram ficando investidos de uma certa “responsabilidade formal” sobre os que acabavam de chegar em cada ano letivo. E aí residia a continuação da praxe. Mas a verdade é que, em termos históricos, as praxes sempre comportaram um ritmo punitivo.

Com ou sem exageros, com ou sem modalidades mais amigáveis, mesmo que às vezes as situações resvalem para a humilhação, a praxe é um fenómeno que envolve milhares de jovens estudantes do Ensino Superior. No caso do contexto de Coimbra, a tradição é mais profunda e porventura isso contribuiu para que aqui tenha de haver mais cautelas. Eu tenho uma visão bastante crítica da praxe, mas o jovem pode valorizar as relações de afeto criadas no âmbito da praxe. No fundo, tudo está bem quando acaba bem.

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