O uso de contracetivos hormonais foi associado ao aumento do risco de depressão nas mulheres entre os 15 e os 34 anos, num estudo conduzido na Dinamarca e publicado na revista científica JAMA Psychiatry. Contudo, os especialistas contactados pelo Observador levantam algumas dúvidas sobre os resultados e conclusões deste trabalho e reforçam que o que está demonstrado é uma associação entre os dois acontecimentos e não que um causa o outro.

“A publicação é particularmente importante para médicos de família e obstetras”, afirma Albino Oliveira-Maia, médico psiquiatra, pois os especialistas que prescrevem este tipo de fármacos precisam de ter acesso a esta informação. Mas acrescenta que o trabalho, só por si, não justifica a alteração da prescrição destes contracetivos.

Não justifica de todo, concorda Maria do Céu Almeida, da Sociedade Portuguesa de Contraceção. A ginecologista e obstetra acautela mesmo que, se este estudo levar ao condicionamento da prescrição, pode ser ainda “mais perigoso”. “Pode até haver mais depressões por haver gravidezes não desejadas”, especula a médica.

João Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, reforça que “não é por sair um artigo [científico] que isso se torna verdade”. Isto é, o conhecimento científico vai-se construindo com o tempo e com o acumular de informação. Só quando existirem artigos suficientes na área pode ser feito um estudo comparativo para perceber se os resultados são consistentes.

Neste caso ainda não são. Como a equipa de Øjvind Lidegaard, professor de ginecologia e obstetrícia na Universidade de Copenhaga, afirma: “Há poucos estudos que tenham quantificado o efeito dos contracetivos hormonais modernos, de doses baixas, e o risco de depressão. Identificámos 12 estudos com resultados conflitantes no que diz respeito ao uso de contracetivos hormonais e risco de depressão”. Uns dizem que os contracetivos aumentam a frequência do uso de antidepressivos, outros que não foi encontrada qualquer relação, outros ainda que os contracetivos orais estavam associados a melhorias no humor.

“São precisos mais estudos para examinar a depressão como um potencial efeito adverso do uso de contracetivos hormonais”, referem os autores do estudo.

Mas não poder afirmar que as conclusões do estudo são uma verdade absoluta não significa que o estudo seja falacioso ou que tenha falhas na forma como foi conduzido. Em termos metodológicos a investigação parece ter sido bem feita, mas é preciso cautela ao elaborar conclusões sobre a mesma, recomendam os especialistas. Sugerir que se deve deixar de tomar contracetivos hormonais não reflete os verdadeiros resultados do estudo, é “alarmista” e “não é bom para a saúde pública”, reforça o psiquiatra João Teixeira.

Tanto João Teixeira como Maria do Céu Almeida levantam ainda outra questão: é muito difícil definir o que é ou não uma depressão, porque esta patologia é multifatorial (depende da combinação de diversos fatores). “Não podemos saber a incidência da depressão porque nem todas as pessoas vão ao médico”, acrescenta a ginecologista. E mesmo considerando que os autores do estudo usaram a primeira toma de antidepressivos como referência, os médicos portugueses lembram que os antidepressivos são dados em muito mais situações do que para a depressão.

Resultados e conclusões: o que diz o artigo

Quem participou no estudo?

O trabalho de investigação, que decorreu entre 2000 e 2013, incluiu mulheres dinamarquesas entre os 15 e os 34 anos que não tinham tido nenhum episódio de depressão, ou qualquer problema psiquiátrico, antes do início do estudo. Também foram excluídas as mulheres com historial de cancro e trombose venosa, para as quais já é contraindicado o uso de contracetivos hormonais, assim como as mulheres submetidas a tratamentos de fertilidade.

Todas as mulheres – 1.061.997 – foram seguidas desde o dia 1 de janeiro de 2000, ou desde que fizeram 15 anos, até terem tido o primeiro episódio de depressão (ou a primeira toma de antidepressivos), ou até 31 de dezembro de 2013 (caso não tenha qualquer problema do foro psicológico).

O número de mulheres estudadas e o período de tempo em que foram acompanhadas é valorizado pelos especialistas contactados. Mas Maria do Céu Almeida afirma sem dúvidas: “Nem com um milhão de mulheres conseguem ser conclusivos”. Um dos problemas-chave é a dificuldade na definição e diagnóstico da depressão. O outro é a falta de caracterização exaustiva de outros fatores na vida da mulher que podem condicionar a depressão, como a profissão, o número de parceiros sexuais ou mesmo a religião.

Quais foram os resultados?

A cada ano, entre cada 100 mulheres que tomavam contracetivos hormonais, 2,2 mulheres utilizaram, pela primeira vez, medicamentos antidepressivos. Comparativamente, para cada 100 mulheres que não usaram contracetivos hormonais, 1,7 iniciaram antidepressivos. Sendo a diferença entre os dois grupos de apenas “meia pessoa” em cada ano, será por isso necessário que 200 mulheres utilizem contracetivos hormonais, para que mais uma destas inicie a toma de antidepressivos, em relação a 200 mulheres que não usaram contracetivos hormonais.

De notar que, por si só, o uso de antidepressivos não significa que a pessoa tenha efetivamente uma depressão. O número de mulheres diagnosticadas com depressão num hospital psiquiátrico, no âmbito deste estudo, foi de 0,3 em cada 100 pessoas, em cada ano, para as mulheres que tomavam contracetivos, e de 0,28 entre as mulheres que não tomavam.

Estatisticamente pode falar-se num aumento do número de casos de primeira toma de antidepressivos, logo um aumento do risco, entre as mulheres que tomam contracetivos hormonais. Mas as mulheres que não tomam contracetivos não estão isentas de risco. Ainda assim, o risco de depressão, ou de tomar antidepressivos pela primeira vez, é baixo e o aumento do risco (devido à toma dos contracetivos) é moderado, conclui Albino Oliveira-Maia, professor na Faculdade de Ciências Médicas na Universidade Nova de Lisboa.

O que se concluiu?

“Neste estudo, o uso de todos os tipos de contracetivos hormonais foi associado ao uso subsequente de antidepressivos e um diagnóstico de depressão”, escrevem os autores do artigo. Mas correlação não implica causalidade. Ou seja, não é porque dois eventos acontecem relacionados um com o outro que um é a causa do outro. “Não sabemos se existe uma relação causal, pode haver alguma coisa comum que leve à toma do contracetivo e que depois leve à toma do antidepressivo”, nota Albino Oliveira-Maia.

Muitas adolescentes começam a tomar contracetivos hormonais, não só para prevenir uma gravidez indesejada, mas também por razões médicas, para reduzir a pilosidade ou o acne, por exemplo, conta Maria do Céu Almeida. O motivo que leva à toma da pílula, como o acne, pode ser o mesmo motivo que desencadeia um estado depressivo – por não estar satisfeita com a imagem que tem de si própria -, e o estudo agora publicado não avaliou este tipo de situações, critica a ginecologista.

Para que se pudesse estabelecer uma relação causal entre os dois eventos – a toma de contracetivos orais leva à depressão – o desenho experimental teria de ser diferente, refere João Teixeira. Para começar, para perceber se um determinado fármaco tem um determinado efeito ou não, tem de ser comparado com a toma de um placebo. Depois, o protocolo experimental teria de ser mais rigoroso e os grupos mais bem controlados.

Também por isso Maria do Céu Almeida se mantém muito cética em relação às conclusões dos autores e não poupa nas críticas: outros estudos continuam a mostrar-se contraditórios na ação das hormonas no humor, a depressão é multifatorial e depende de cada mulher — fatores equivalentes podem provocar depressão numa mulher e noutra não, ou causar depressão num momento da vida e noutro não.

A ginecologista lembra que a “contraceção não é tratamento, é aconselhamento”. As mulheres devem estar bem informadas sobre os benefícios e os riscos e tomar a decisão com a qual se sentem mais confortáveis. Mas para a médica os benefícios da contraceção hormonal na mulher saudável continuam a ser maiores do que os riscos: evitam uma gravidez indesejada e para algumas mulheres resolvem problemas como hemorragias, menstruações irregulares ou dores. “O descanso e a liberdade são fundamentais”, conclui Maria do Céu Almeida. “Se as mulheres não precisassem de contraceção, não a usavam.”

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