Quem hoje olha para a lista de inscritos do Rali Dakar, ou para as tabelas classificativas das últimas edições da prova, facilmente comprovará a prevalência de modelos animados por motores a gasóleo. Mas as coisas nem sempre foram assim. Durante muitos anos, a mítica maratona do todo-o-terreno – que na sua primeira edição arrancou a 28 de Dezembro de 1978 da Praça do Trocadéro, em Paris, rumo a Dakar, no Senegal – teve lugar não na América do Sul, mas no continente africano. E só em 1987 um carro equipado com motor diesel conseguiu terminar entre os 10 primeiros.

O feito coube ao inesquecível Nissan Patrol Fanta Limon, que logrou chegar ao Lago Rosa, a 22 de Janeiro de 1987, no 9.º posto da geral, naquela que foi a primeira edição da prova realizada após o falecimento do seu criador, Thierry Sabine. O carro, com o número 211, acabou por ser oferecido à colecção privada do Museu Salvador Claret, em Girona, e pouco mais dele se soube durante quase três décadas.

Até que, em Fevereiro de 2014, alguns membros do NTCE, o centro técnico europeu da Nissan em Barcelona, se depararam com fotografias do mesmo num fórum da Internet, acabando por concretizar que se encontrava em estado verdadeiramente deplorável. Mas nem isso os desmotivou de encetarem nova aventura: proceder à respectiva recuperação a tempo do 30.° aniversário do seu resultado histórico, com o custo da operação a ser suportado pelo fundo “Performance Innovation” da Nissan.

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Uma tarefa que, mesmo assim, não foi de pouca monta, tendo em conta que o veículo era, então, um autêntico destroço. “O motor estava em condições terríveis. Era impossível de pôr a trabalhar e muitas peças apresentam uma grande corrosão. O eixo dianteiro estava bastante danificado, mas o pior era a parte eléctrica, que tinha sido fortemente atacada pelos ratos”, recorda um dos membros da equipa que abraçou este projecto, Juan Villegas.

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Solicitada ao museu a sua devolução, e transportado para o NTCE em Maio de 2014, o Patrol Fanta Limon ficou, desde então, a cargo de uma equipa de restauro composta por oito técnicos, que nele trabalharam nos seus tempos livres, tanto à noite como aos fins-de-semana. Ao mesmo tempo, foram obrigados a procurar peças originais por toda a Europa, algumas das quais tiveram de ser adquiridas já usadas, e depois, também elas, restauradas.

Em Novembro passado, a tarefa ficou concluída e o Patrol Fanta Limon pôde regressar, depois de três décadas afastado dos olhares do público, ao seu lar espiritual: as dunas do deserto do Sahara. E em perfeito estado de funcionamento, já que os antigos manuais e desenhos do NTCE foram seguidos à risca para dotar a versão restaurada de todos os ajustamentos que permitiram recriar, fielmente, a afinação de corrida usada no Dakar de 1987. Um momento memorável, a que se seguirá, por certo, um futuro bem mais condicente com o seu palmarés.