A freguesia de Lanheses em Viana do Castelo não reunia mais do que 1.645 habitantes em 2011, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Hoje, entra no mapa do ranking nacional de escolas, graças ao lugar que a Escola Básica e Secundária de Arga e Lima arrecadou no parâmetro dos “percursos diretos de sucesso” do Ministério da Educação. O novo indicador permite avaliar o percurso dos alunos ao longo de três anos, detendo-se nas retenções e nas notas nos dois exames finais trienais. A escola de Lanheses conquistou o 3º lugar no ranking elaborado pelo Observador/ Nova SBE, com 17 pontos percentuais acima da média nacional, quando comparada com escolas cujos alunos vinham com um percurso semelhante do 9.º ano — é também a primeira escola pública no ranking do sucesso escolar.

Não se ouve o burburinho de crianças e jovens no portão da Escola Básica e Secundária de Arga e Lima, talvez porque os ponteiros de relógio indicam que estão em aulas. São 9h30 e as ruas da freguesia de Lanheses sofrem de um silêncio e de uma acalmia quase incomodativos. Vê-se uma ou duas pessoas na rua, muitos carros estacionados e dois autocarros à porta da escola. Longe do ambiente dos aglomerados urbanos, o edifício da instituição escolar ainda goza de um grande dinamismo diário. Cerca de 600 alunos, do 5º ao 12º ano, estudam nesta escola. Fora destes números, estão ainda as turmas do primeiro ciclo do ensino básico e do pré-escolar.

No interior, os cerca de 27 anos da Escola Básica e Secundária de Arga e Lima notam-se à distância. As condições e os recursos disponíveis mostram a jovialidade da instituição que, como algumas escolas públicas, foi também sofrendo alterações ao longo dos anos – com a ajuda de privados ou do poder autárquico. Numa das escadas vê-se um dispositivo para ajudar os alunos com dificuldades motoras a deslocarem-se entre os andares. “Temos isto desde que uma estudante teve um acidente e depois tivemos a ajuda de uma companhia de seguros”, explica Agostinho Rodrigues, diretor da escola.

@Ricardo Castelo/Observador

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Após a subida de alguns degraus, os corredores amplos separam dezenas de salas de aula — a maioria está equipada com quadros interativos. Numa delas está a acontecer, por exemplo, uma aula de Educação Musical do 6ºano – onde os alunos estão sentados em carteiras individuais (muito ao estilo da faculdade) num pequeno auditório. O diretor chama por cada uma das crianças. “Ficam muito surpreendidos quando percebem que sei o nome deles. Faço questão de saber, não para repreender, mas para se sentirem acolhidos”, afirma. Mais à frente, uma turma de ensino profissional em comércio está a ter uma aula com a professora Manuela Castro. Os alunos têm idades entre os 15 e os 16 anos e a docente não consegue esconder o orgulho em cada um deles. “O nosso objetivo é contrariar a ideia errada que muitos têm do ensino profissional. São estudantes que querem ir para a universidade”, explica.

Antes de se prosseguir pelos cantos e recantos do edifício, está na altura de conhecer um dos sítios mais importantes e dinamizadores da escola: a biblioteca. Aqui há um pouco de tudo — uma divisão com computadores para poderem estar nas redes sociais, outra parte para ver filmes e uma zona mais recatada para fazer trabalhos. “Só não deixamos que as crianças até aos 12 anos acedam ao Facebook”, diz Agostinho Rodrigues. Os livros não faltam, sejam os clássicos de todo o mundo e de língua portuguesa ou as mais recentes novidades do mercado livreiro. E porque a importância de cidadãos informados também não é descartada, a escola fornece alguns jornais diários e revistas semanais.

@Ricardo Castelo/Observador

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O projeto “Livros às Voltas” é o responsável pelas malas de viagem cheias, de cor azul forte, debaixo de um expositor da biblioteca. Não é difícil especular o que estará lá dentro: são centenas de livros que “viajam” duas vezes por ano pelas casas das famílias dos estudantes. Apesar de ter “cativado muitos alunos para a escrita e a leitura”, ajudou ainda na decoração do espaço. Uma manta de retalhos, feita por pais e filhos, cobre quase uma parede na biblioteca. O pano está dividido em dezenas de quadrados com alusões às obras que leram no último ano.

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“Os alunos foram habituados a ter sempre um bloco e uma caneta”

Além da dedicação aos trabalhos fora das aulas, as atividades relacionadas com a matéria têm o mesmo empenho. “Quando têm uma palestra ou conferência, os alunos foram habituados a ter sempre um bloco e uma caneta”, diz o diretor. A medida serve para dotar os estudantes de destreza na escrita, já que lhes será pedido um texto sobre o acontecimento. Há uns dias, aconteceu uma conferência na escola a propósito do Dia Internacional dos Direitos Humanos, celebrado a 10 de dezembro, onde os docentes aplicaram o mesmo método. Se, por um lado, aumenta a concentração de cada um dos jovens face ao que viu e ouviu, o tema da palestra é também discutido posteriormente em cada uma das disciplinas.

No entanto, e porque a vida em comunidade escolar não se faz só de estudo, a direção da escola criou um espaço alternativo. Num dos corredores, tapado por uma espécie de parede branca, a Escola Básica e Secundária de Arga e Lima criou um “espaço de afetos”, para os alunos conviverem e estarem mais à vontade. No exterior, existe também um gabinete de saúde para os jovens discutirem as questões da sexualidade. Enquanto isso, todos os telemóveis (incluindo o do professor) ao início das aulas são deixados numa pequena caixa, para evitar distrações. “Se não fizéssemos isso, eles não resistiriam em pegar neles”, esclarece Agostinho Rodrigues.

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De volta ao andar de baixo, a sala de convívio é o ponto de encontro entre professores e alunos. Ainda que não seja propositado, toda a comunidade escolar reúne-se ali por causa do bar – a estrutura existente na sala dos professores e que serviria para o efeito está desativada. Ao lado, um amplo refeitório serve, durante os dias de semana, cerca de 700 refeições. “E não há nada de fritos”, afirma o diretor. A cozinha está equipada com fogão de churrasco para fazer refeições mais saudáveis.

No exterior, e apesar dos pingos da chuva que já caíam, podiam ver-se vários trabalhos manuais e de arte dos alunos do secundário, como um mural de Fernando Pessoa – uma representação quase fiel do quadro do pintor Almada Negreiros. Os alunos com necessidades especiais são também incentivados a dar o melhor de si, na arte e não só. São eles que tratam da horta ao lado de um género de chalé nas imediações da escola – foi a autarquia que o concedeu à Escola Básica e Secundária de Arga e Lima.

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“A escola não substitui a família, mas tem de dar algum conforto aos alunos”

Agostinho Rodrigues assume desde a fundação da escola o cargo de diretor. Os bons resultados nos percursos diretos de sucesso, o novo parâmetro dos rankings das escolas, são acolhidos com satisfação q. b.. O diretor considera que a Escola Básica e Secundária de Arga e Lima ainda tem muito para crescer. Apesar de bem posicionada neste indicador, com o 3.º lugar e uma taxa de sucesso de 43,4%, continua a ficar aquém do pódio nos exames nacionais. O lugar no ranking construído pelo Observador/Nova SBE é o 258º. “Somos uns eternos insatisfeitos. Acho que a escola disponibiliza um conjunto extraordinário de recursos e penso que os alunos ainda podiam fazer muito melhor”, diz. O facto de ficar aquém no ingresso do ensino superior é uma das principais preocupações.

O corpo docente, segundo os números divulgados pela direção, tem cerca de 85 professores efetivos e quatro professores contratados. Muitos deles dão aulas voluntárias, ou seja, as chamadas “oficinas de trabalho”, onde sistematizam os conhecimentos do aluno. A obrigatoriedade inicial da presença nestas aulas deixou de ser oficial, a partir do momento, em que Agostinho Rodrigues verificou que “os alunos se sentiam oprimidos”.

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Agostinho Rodrigues é o diretor da Escola desde a sua inauguração @Ricardo Castelo/Observador

A filosofia da escola assenta no “trabalhar no terreno, para depois semear”, como se os frutos fossem colhidos a cada ano de escolaridade. A participação ativa de alguns representantes de alunos nas assembleias das freguesias de Viana do Castelo, o papel que assumem como tutores de outros estudantes e as reuniões frequentes de delegados de turma, acrescentam sentido de responsabilidade a todos os elementos da comunidade escolar. “Na eleição da associação de estudantes, desafio os professores a estarem atentos à forma como se desenrola a campanha e como cumprem com o que prometeram”, esclarece o diretor.

Agostinho Rodrigues assume que o modelo colocado em prática pelo Ministério da Educação é mais justo – os percursos diretos de sucesso permitem a visibilidade da escola no ranking. “Comparar um aluno de um estrato superior e compará-lo com um aluno que faz um esforço enorme para ter o pão nosso de cada dia, não é possível”, afirma. Cerca de 55% dos estudantes na Escola Básica e Secundária de Arga e Lima recebem algum tipo de apoio social do Estado. E de uma coisa não tem dúvida: “A escola não substitui a família, mas tem de dar algum conforto aos alunos”. Com boas notas ou não.