Antero Henrique negou todos os crimes de que é acusado no âmbito do Processo Fénix. Em declarações muito semelhantes às já prestadas por Pinto da Costa, o antigo vice-presidente do FC Porto disse esta quarta-feira, em julgamento, que falar diretamente com Eduardo Silva “não era habitual”.

O ex homem forte da SAD do FC Porto disse ter conhecido Eduardo Silva — principal arguido e responsável pela empresa de segurança SPDE — através de Reinaldo Teles e Daniel Lawrence, “circunstancialmente”, num jogo dos dragões. E negou ter influenciado a contratação da empresa. “Foi através de concurso. A SPDE candidatou-se, tal como outras empresas”, acrescentando que questões operacionais estão a cargo da Porto Estádio, às quais é alheio.

Falar diretamente com Edu Silva “não era habitual”, uma vez que isso seria feito por Carlos Carvalho, o diretor de segurança. Antero Henrique admitiu que Edu lhe ligou “uma vez” para que o FC Porto saldasse montantes em atraso, embora Edu tenha dito em tribunal que ligava diretamente para o telemóvel do ex-vice-presidente quando o clube se atrasava nos pagamentos.

Eduardo Silva nega que Antero Henrique fosse o elo de ligação entre F.C. Porto e SPDE

Um dos mais mediáticos entre os 54 arguidos está acusado de seis crimes de exercício ilícito de atividade de segurança privada no mega julgamento do Processo Fénix, também conhecido por Máfia da Noite. Antero Henrique garantiu que, nem Eduardo Silva, nem outros vigilantes da empresa, prestaram qualquer serviço individualmente. E, tal como Pinto da Costa já tinha dito também, o transporte da ex-mulher do presidente portista, Fernanda Miranda, para o Estádio do Bessa foi apenas isso mesmo, uma boleia, e não um acompanhamento de guarda-costas.

O momento mais conhecido deu-se na madrugada de 18 de maio de 2015. O FC Porto tinha perdido com o Belenenses em Lisboa e a equipa perdia, assim, a hipótese de disputar o título com o rival Benfica. Os adeptos portistas esperavam a equipa no Dragão, descontentes. “Não me recordo”, disse o ex-presidente do clube. “Mas a operação foi coordenada pela PSP”, acrescentou, como, aliás, todas em que há risco de confusão.

Sobre os 72 mil euros que a polícia encontrou em casa de Antero Henrique, este disse que, por um lado, tinham “a ver com a resolução de pagamentos” que “fazia diariamente”, por outro, tratava-se da “gestão de cariz pessoal” de património dele e do irmão, recusando que o dinheiro servisse para pagar serviços de segurança pessoal à SPDE.

“Eu não sei o que estou aqui a fazer”

Antes de Antero Henrique falou Alberto Couto, acusado de crimes de associação criminosa, tráfico e mediação de armas, coação, exercício ilícito de segurança privada e detenção de armas proibidas. “Eu não sei o que estou aqui a fazer”, começou por dizer, antes de o juiz Miguel Teixeira começar com as perguntas. O ex-PSP, tal como todos os arguidos que já prestaram declarações, negou todas as acusações de que é alvo. Passar informações de cariz policial à SPDE? “Nunca em tempo algum”. Coagir o ex-vigilante da SPDE Alcides Júnior a desistir da queixa contra a empresa de segurança? “Quando lá cheguei [junto ao tribunal] já estava tudo resolvido e fomos tomar café”.

Alberto Couto, que a meio do seu depoimento desfaleceu no chão, não quis, mesmo assim, deixar de responder às questões do juiz, do procurador e dos advogados. Disse que é amigo de Eduardo Silva “desde os 11 ou 12 anos de idade” e que a relação nunca entrou no campo profissional. Reformado da polícia por invalidez desde 2012, o arguido justificou uma por uma as armas que lhe foram apreendidas. A carabina foi “esquecida” por um amigo em casa, e Alberto Couto garantiu que acabou por comprá-la para ajudar o amigo, em dificuldades financeiras.

A arma de alarme tirou-a a “dois indivíduos” que o teriam tentado agredir. “Nunca mais me lembrei dela”, disse. Os punhais eram simples facas de mergulho. As joelheiras, cotoveleiras, coldres e bastões extensíveis, guardava-os por nostalgia. “Nunca deixei a pele de polícia”, justificou, apesar de saber que a posse de alguns destes objetos é ilegal.

Alberto Couto é acusado de fornecer armas, entre as quis uma soqueira. “Nunca tive uma na vida. Nunca vendi”, disse ao juiz, que, em resposta, leu uma escuta em que um homem conta, ao telefone, como quase usou a soqueira que Alberto Couto lhe tinha dado.

Quando o sr. Bruno lhe fala da soqueira, o sr. não disse nada. E confirma, “sim, sim.”, leu o juiz.
Vivemos num tempo em que há pânico do telefone. Eu quando ouvi soqueira quis foi desligar o telefone, justificou.
Não foi bem assim, porque a chamada ainda continua.

Mais tarde, Alberto Couto daria outra explicação para a resposta “sim, sim”. “Sr. doutor, quando ele me liga, às vezes a chamada excede uma hora. Eu a certa altura já digo que sim a tudo…”

O mega julgamento vai durar meses. A próxima sessão está marcada para sexta-feira, 3 de março, no quartel dos bombeiros de Guimarães.