José Júlio Pereira Gomes está debaixo de fogo. Depois das histórias trazidas a público por Ana Gomes, Luciano Alvarez e José Vegar — relatos dos dias vividos pela missão portuguesa em Timor e que lhe traçam um perfil demasiado frágil para um futuro líder das secretas –, o atual embaixador português em Estocolmo garante ao Observador que coube inteiramente ao Governo português (então liderado por António Guterres) a decisão de sair de Timor Lorosae depois de serem conhecidos os resultados do referendo pela independência do país. E, sem apontar nomes, devolve uma mensagem àqueles que colocam em causa a sua capacidade para as funções: “Há mentiras que seriam duras de suportar caso não tivesse a consciência tranquila”.

Ainda antes de se saber que os timorenses tinham votado pela independência da Indonésia, a tensão já era elevada no país. Assim que foi conhecido o resultado do referendo, começaram as perseguições, houve pilhagens, casas queimadas. A missão portuguesa no país, responsável por acompanhar a consulta ao povo timorense, não ficou imune à escalada de violência que se viveu nesses dias de agosto de 1999.

“Presumo que todos os que estiveram em Timor, naquele período, experimentaram em diferentes momentos a sensação de medo“, admite Pereira Gomes. Medo, mas não pânico, como relatou ao Observador o jornalista José Vegar, que estava no país a acompanhar o referendo pelo jornal Expresso.

Depois da votação e a publicação dos resultados senti algum desespero – e desilusão – resultante da nossa impotência para responder à violência generalizada“, recorda o embaixador português, apontado por António Costa para suceder a Júlio Pereira no cargo de secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa.

No relato que fez ao Observador dos dias que os elementos da missão portuguesa em Timor passaram encerrados nas instalações da UNAMET (United Nations Mission in East Timor), após a divulgação dos resultados, José Vegar conta que “foi aí que Pereira Gomes e [o embaixador] António Gamito colapsaram totalmente“. “Passavam o dia na cama, não tomavam quaisquer decisões”, conta o jornalista.

Pereira Gomes recua alguns dias, a 6 de setembro, para recordar um episódio com o jornalista e cuja memória deixou expressa no livro O referendo de 30 de agosto de 1999 em Timor-Leste. “José Vegar pede para falar comigo, em nome dos jornalistas portugueses… Diz-me que Ian Martin está sem estratégia, não sabe o que se passa nem o que fazer. Vegar continua: ‘Como chefe da missão, você tem de mandar vir um C-130 para nos evacuar. Senão vamos ser todos massacrados'”. E sublinha, a propósito do referendo, que foi “criticado por, durante a consulta, ter sido demasiado otimista no sentido de pensar que o referendo poderia ter lugar com níveis de violência – que nunca deixou de existir – que não impediriam a consulta”.

Dias mais tarde, quando se coloca a questão de abandonar ou não o país, Pereira Gomes terá, segundo Ana Gomes (então embaixadora de Portugal na Indonésia), Luciano Alvarez e José Vegar, forçado a retirada da missão portuguesa. No artigo de opinião que escreveu no Público, Alvarez recorda esses momentos. “Na notícia, escrita por mim ainda em Timor na madrugada do dia da evacuação [9 de setembro de 1999], relato os muitos esforços feitos pelo Governo português junto de Pereira Gomes, nomeadamente de António Guterres, nas 48 horas anteriores, para que a missão ficasse pelo menos até à chegada dos homens do Conselho de Segurança da ONU. Relato ainda discussões entre Pereira Gomes e António Gamito e Francisco Alegre, o diplomata júnior da missão, que sempre insistiu e tudo fez para que a missão não abandonasse Timor.”

A versão de Pereira Gomes é oposta. É certo que, “como chefe de missão, tinha o dever e a responsabilidade de informar e fazer recomendações ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) sobre toda a atividade da missão incluindo, naturalmente, as condições de segurança”. Mas a decisão final caberia, assegura, a Lisboa.

Não tinha o poder de decidir sobre o se, o quando e o como da eventual evacuação. Isso era responsabilidade do Governo. Que a assumiu no momento julgou adequado”, diz o embaixador Pereira Gomes.

Aliás, acrescenta, procurando contrariar a ideia de que forçou a decisão de retirada, “nas horas que precedem a evacuação, todos falaram individualmente ao telefone com o MNE e tiveram a oportunidade de exprimir a sua posição“. A partir do momento em que o grupo ficou fechado na sede da UNAMET, na “condição de refugiados”, Pereira Gomes passou a avaliação da situação para os militares. “Passei a confiar nos juízos da UNAMET com quem mantive permanente contacto”, refere.

Ainda sem saber quando será ouvido no Parlamento, mas consciente de que o primeiro-ministro está a reavaliar a sua escolha inicial, depois de admitir que não tinha conhecimento dos episódios de Timor, o embaixador Pereira Gomes afasta a possibilidade de recusar o convite apresentado por António Costa. “Ponderei longamente antes de aceitar e não me candidatei ao lugar”, sublinha. “Aceitei o desafio como mais uma missão de serviço público, que é o que tenho feito desde há cerca de 42 anos”.

Não comenta a ideia de que não é o homem adequado para as funções, mas deixa uma mensagem aos que têm posto em causa a sua capacidade para liderar as “secretas” portuguesas e que têm difundido “calúnias e falsidades” a seu respeito. “Há mentiras que seriam duras de suportar caso não tivesse a consciência tranquila”. A seu tempo, “as dúvidas serão esclarecidas”.