Um grau celsius (°C) de aumento de temperatura em 50 anos basta para agravar o número de casos de malária e doenças diarreicas em Moçambique, conclui um relatório apresentado esta quinta-feira pelo Ministério da Saúde em Maputo.

“Com o aumento da temperatura de um a 1,5 graus, teremos um incremento do número de casos”, afirmou à Lusa Tatiana Marrufo, médica e pesquisadora do Observatório Nacional de Saúde.

Tatiana Marrufo falava à margem da cerimónia de apresentação do primeiro relatório sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde em Moçambique, uma pesquisa elaborada pelo Observatório Nacional de Saúde, em parceria com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

Além da temperatura e da pluviosidade, que também se prevê que aumente em pelo menos um milímetro (ou seja, um litro de água por metro quadrado) no mesmo período, a pesquisadora adverte para a existência de outros fatores que podem fazer crescer o número de casos de malária e doenças diarreicas.

Através de pacotes estatísticos específicos, o estudo avaliou informações dos últimos 20 anos do Boletim Epidemiológico Semanal, que arrola as principais doenças epidemiológicas do país, e os dados climáticos de temperatura e precipitação.

De acordo com a pesquisa, as mudanças climáticas nos próximos tempos em Moçambique vão resultar na modificação do perfil da malária.

“Algo importante que também encontrámos foi que a subida da temperatura vai fazer aumentar o número de casos de malária em zonas de maior altitude”, acrescentou a médica, apontando as zonas altas das províncias de Manica, no centro de Moçambique, e Niassa, norte do país, como as que mais podem ser afetadas.

O estudo recomenda um trabalho multissetorial e o primeiro passo já foi dado, com a recente criação da Plataforma de Observação do Clima, Ambiente e Saúde, que é composta por equipas técnicas dos ministérios da Saúde e da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural.

“Vamos tentar desenvolver uma parceria técnica para analisar, cada uma com a sua experiência, e relacionar os fatores ambientais e climáticos com os impactos diretos na saúde”, acrescentou.

A falta de hábitos de higiene, o deficiente saneamento público e a chuva têm sido apontadas como as principais causas da propagação de doenças diarreicas e malária em Moçambique.

Dados oficiais indicam que, entre 1997 e 2014, as autoridades registaram mais de sete milhões de casos de doenças diarreicas em Moçambique.