Desde quinta-feira, mais ao menos a partir dos dez minutos do Alemanha-México (obrigado Goretzka, por teres decidido o jogo tão cedo), que começámos a procurar qualquer coisa de interessante para dizer sobre um jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares que era suposto não aquecer nem arrefecer. Logo à cabeça, há aquela questão da honra, do querer sempre ganhar. Depois, aquela oportunidade para alguns dos menos utilizados se mostrarem. Se forçarmos um bocadinho, o dado estatístico de não perdermos com equipas da América do Norte desde o desaire com os Estados Unidos em 2002. E o dinheiro, claro – o prémio monetário seria pouco mais de três milhões, mais 440 mil euros do que se perdêssemos.

Fizemos o nosso trabalho mas percebemos, desde manhã, que tinha sido uma tarefa pouco proveitosa. Sobretudo quando soubemos que, mal acabasse o jogo frente aos mexicanos, estaria um avião pronto em Moscovo para trazer a equipa de volta. E que o estádio estava com aquele ambiente de jogo de fim de época, sem grande emoção, com aquele ruído do burburinho de quem está na conversa com o amigo da cadeira ao lado. A pressa para terminar a participação na Taça das Confederações e ir de férias era tanta que o apito inicial do encontro teve de ser retardado para ser mesmo às 15 horas locais, menos duas em Portugal.

Esqueçamos essa parte, olhemos para o jogo. Teve qualidade, foi mexido, registou inúmeras oportunidades. Incluindo uma grande penalidade, aos 17’, marcada com ajuda do vídeo-árbitro (falta de Rafa Márquez) mas não cobrada por André Silva, que permitiu a defesa a Ochoa. No último ano, Portugal tinha falhado três penáltis, por Ronaldo; no desempate com o Chile, ninguém marcou nas três oportunidades. E a malapata dos 11 metros manteve-se (pelo menos até ao prolongamento, mas já lá iremos).

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Rui Patrício, que cumpria um encontro especial por ultrapassar o número de internacionalizações de Manuel Bento (63), teve apenas uma intervenção com maior relevo durante os primeiros 45 minutos, mas foi uma defesa espetacular a remate de pé esquerdo de Chicharito Hernández (30’). Tudo o resto teve mais Portugal, com Pizzi a comandar bem o meio-campo e Gelson Martins a fazer estragos pela ala direita. Umas vezes, faltou presença na área; outras, pontaria. O 4x3x3 assumido por Fernando Santos resultou em todas as fases menos uma, a última, que por acaso é a mais importante do futebol.

O segundo tempo começou com Gelson Martins, após jogada com André Silva, a desperdiçar o golo numa das melhores jogadas do encontro (52’). E com o México a passar para a frente: Chicharito consegue ganhar em velocidade na esquerda a Nélson Semedo (uma das exibições menos conseguidas, longe do habitual rendimento no Benfica), cruza tenso para a área e Luís Neto desvia para a própria baliza (54’). Portugal estava melhor, mas perdia.

Durante dez minutos, ficámos com a sensação que o empate seria algo inevitável. Houve de tudo: grandes defesas de Ochoa, grandes falhanços portugueses na área, uma ou outra intervenção vital de Rui Patrício. Mas aquela substituição da ordem de Fernando Santos parecia não ter funcionado. Quaresma não acertava nos cruzamentos, perdia bolas, não ganhava faltas. Até que Quaresma voltou a ser Quaresma e, nos descontos, inventou um centro certeiro para Pepe, que estava na área, aplicar uma entrada tipo Karaté Kid na bola para fazer o empate (90+1′).

No prolongamento, voltou a haver Patrício e voltou a haver penálti, de novo para Portugal, desta feita por mão do portista Layún na área após finta de Gelson Martins. Adrien quebrou essa questão de nervos com 11 metros e deu pela primeira vantagem a Portugal a um minuto do intervalo do prolongamento, que teria ainda duas expulsões (uma de Nélson Semedo, outra de Raúl Jiménez, ambas por acumulação de amarelos), mais uma defesa de Patrício e uma cowboyada tipo América do Sul mas com atores mexicanos, a reclamarem uma alegada falta de Pepe na área.

O jogo do 3.º/4.º lugares é uma coisa a feijões? Esqueça isso. Nem sempre foi bem jogado, mas teve um pouco de tudo o que gostamos no futebol: golos, autogolos, grandes defesas, emoção, picardias e até vídeo-árbitro, essa coisa nova que tem de começar a andar no nosso quotidiano futebolístico. E Portugal ganhou, assegurando o terceiro lugar da Taça das Confederações com três vitórias e dois empates, um deles a culminar em derrota nos penáltis.

Luís Neto, que ainda não tinha perdido uma única posse de bola até ao autogolo, pôde festejar. E com justiça: fez a estreia na prova e esteve bem. Também ele mereceu este prémio de consolação no final. Até porque, quando se fala da renovação de Pepe, Bruno Alves e José Fonte, pode ser ele o fio condutor para uma nova geração que virá.