Nas últimas semanas têm sido atingidos sucessivos recordes na produção de eletricidade pelas centrais térmicas, que funcionam com combustíveis fósseis como o carvão e o gás natural. Na passada quinta-feira foi mesmo batido o recorde no consumo de gás natural em Portugal com todos os 10 grupos que funcionam com este combustível a trabalhar na plena capacidade durante algumas horas.

São as consequências de um ano muito seco que provocou uma queda substancial na produção hidroelétrica, que é renovável, obrigando a recorrer às centrais que usam combustível fóssil. Ao longo das últimas semanas têm sido atingidos vários máximos, uma situação que deverá voltar a repetir-se com o agravamento da seca nos meses do verão e em períodos de baixa produção dos parques eólicos.

Dados fornecidos pelo presidente executivo da REN, Rodrigo Costa, numa conferência sobre a energia limpa e as interligações, revelam que no dia 13 de julho, na passada quinta-feira, o consumo de gás natural pelas centrais de ciclo combinado foi o mais alto de sempre — 127.6 Gigawatt hora. O recorde anterior tinha sido alcançado em 7 de fevereiro de 2011, num inverno muito seco, quando foram consumidos 116,7 GW hora.

Dados da REN obtidos pelo Observador indicam que no dia 13 de julho, as centrais a gás natural produziram 66 GW hora para abastecer a procura nacional, mas também para exportar para Espanha. No total, a produção das centrais térmicas — gás natural, carvão e cogeração — atingiu os 121 GWh, representando 68% do consumo nacional nesse dia. A produção de origem renovável, a partir da água, vento e solar fotovoltaico, abasteceu apenas 32% da procura. Cerca de 14%do que foi produzido teve como destino o mercado espanhol.

Portugal tem 16 grupos de produção de energia térmica: seis a carvão em Sines (EDP) e no Pego (Trustenergy) e 10 a gás natural — Tapada do Outeiro e Pego (Trustenergy), centrais do Ribatejo e Lares (EDP). No passado recente, estas centrais estiveram quase sempre paradas, devido a uma conjugação de fatores que incluía uma forte produção hídrica, fruto de anos chuvosos, altos preços de gás natural e a expansão de capacidade renovável eólica e também hídrica. A situação provocou uma queda no consumo de gás, já que as centrais elétricas são as principais clientes deste combustível. Os consumidores domésticos representam apenas 8% da procura.

Produção das centrais a gás e carvão dispara com a seca

Apesar de uma utilização quase residual, as centrais a gás natural são fundamentais para a segurança de abastecimento, constituem um backup para um sistema elétrico como português que está muito exposto a fontes renováveis cuja produção não é controlável nem previsível. Nos primeiros seis meses do ano, a produção de origem renovável representou menos de metade do consumo, com a energia não renovável (que usa combustível) a ter uma quota de 55%.

O cenário começou a mudar no verão de 2015, em consequência de um verão também seco, e agora as centrais a gás em Portugal até conseguem produzir a preços competitivos, vendendo a energia a Espanha. A tendência ganhou força no início deste ano quando uma paragem em várias centrais nucleares em França fez disparar a procura e os preços da eletricidade no mercado grossista, levando mesmo o Governo português a pedir respostas ao regulador.

Qual é a relação entre o nuclear francês e o preço da eletricidade em Portugal?

Para o presidente executivo da REN, no futuro vamos continuar a assistir a estas grandes oscilações na procura de gás natural, em contraciclo com a geração hidroelétrica. O atual pico de procura tem conduzido também a recordes de utilização da capacidade de infraestruturas de transporte e armazenamento de gás, que incluem o terminal de gás natural liquefeito de Sines.

Apesar da atual capacidade ser suficiente para o previsível consumo do mercado doméstico, é insuficiente para alimentar o Mibgas (mercado ibérico de gás natural) e o projeto de maior integração dos mercados europeus, por via do reforço de interligação com França. Recados de Rodrigo Costa numa conferência realizada esta segunda-feira na Faculdade de Engenharia do Porto onde esteve também o secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro e Sanches e que foi encerrada pelo vice-presidente da Comissão Europeia. Maroš Šefčovič tem o pelouro do mercado único de energia e está de visita a Portugal numa altura em que a União Europeia discute as metas do novo pacote de energia limpa.