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Pela primeira vez desde julho, o preço do barril de petróleo Brent ultrapassou a barreira dos 100 dólares. É uma escalada no preço que acontece na mesma medida em que se intensifica o conflito entre Estados Unidos e Irão no Médio Oriente. Esta noite as forças norte-americanas atacaram navios petroleiros iranianos e o Irão retaliou também contra navios e bases dos Estados Unidos no Golfo. Junta-se a nós em direto o Filipe Garcia, economista da informação de mercados financeiros. Boa tarde, Filipe. Agora que estamos já perto da hora de almoço, como é que estão as cotações do petróleo, mas não só, também do gás e do gasóleo? Que enfim, tudo isto está relacionado.
Olá, bom dia. Temos, de facto, o petróleo, em termos de mercado de futuros, acima de 100 dólares, está 100,70 dólares por barril. Já acumula 44% de subida desde o início da guerra no Irão, mais 60% desde o início do ano. E se olharmos não para os futuros, mas o preço spot, ou seja, aquele que transacciona de um dia para o outro, já estamos a 111 dólares por barril, o que significa que há, de facto, constrangimentos de oferta no mercado. Seis meses após o início da guerra. Persiste impasse. Há relatos de tentativa de negociações entre Estados Unidos, União Europeia e Irão, mas nada de muito sólido e, portanto, para já, a tendência continua a ser de alta. Mas vale a pena realmente falar do mercado de refinados, nomeadamente de gasóleo, porque é esse que faz realmente funcionar a economia, é aquele que vai ao bolso das empresas e das famílias, e está novamente em alta, está em máximos de abril. Um litro de gasóleo está a custar € 1,07 nesta altura no mercado internacional, que é quase o dobro face a 28 de fevereiro. Isto reflete os constrangimentos na oferta, não só pelo lado do Médio Oriente, mas também pelo lado da guerra entre a Ucrânia e Rússia, com muitas infraestruturas, quer de refinação, quer de distribuição russas a serem destruídas e, portanto, a gerar uma dificuldade de abastecimento no mercado. E finalmente, no gás, que faz também um movimento muito impressionante, já está a subir 140% desde o início da guerra, está a subir 175% desde o início do ano. Neste momento, a cotação é 78 €/MW hora. E isto também tem a ver com o facto de os stocks na União Europeia estarem em 67%, face a 88, que normalmente é o nível de stocks nesta altura do ano, e está ainda a 23 pontos percentuais daquilo que é o objetivo da União Europeia de ter 90% dos stocks para o inverno no dia 1 de novembro. Isto é particularmente importante porque não só afeta a indústria que utiliza gás natural, como também é um input importante para a produção de eletricidade. E só um número que impressiona: o preço médio de agosto da eletricidade no mercado Ibérico foi 138 € por dia. Em 2025, tinha sido 67. Portanto, basicamente duplicou.
E isto, claro, Filipe, vai ter impactos de forma mais ou menos rápida nos nossos bolsos.
Tem, desde logo, os imediatos são para quem abastece o carro com este tipo de combustível. Os mais indiretos são também evidentes. A economia portuguesa depende em mais de 90% do transporte rodoviário e, portanto, ligado ao diesel, essencialmente. Em termos de eletricidade, todos estamos expostos, como é evidente. E portanto é por aí que se vai ao bolso das famílias, mas também pelo lado dos juros. Nós temos amanhã a reunião do Banco Central Europeu. Deverá haver mais uma subida de taxa de juro, neste caso, agora para 2,5%, já está perfeitamente descontada e de resto, a Euribor a 12 meses já está até bem acima disso, porque o último nível é 3,11%, já quase um ponto percentual acima dos níveis de fevereiro.
E não é de esperar que estes valores de hoje tenham ainda impacto na reunião de amanhã do BCE, eventualmente poderá ter impacto a mais longo prazo.
Não, diria que criam um contexto. Da forma como o BCE analisa a evolução de preços, criam um contexto de mais urgência na subida. É discutido que isso seja uma boa medida, dado que se trata de um choque de oferta e não há sinais de particular força na economia europeia. E, portanto, isto pode ser até um erro de política monetária, mas sabemos qual é a função de reação do BCE. E neste caso em concreto, sabemos que com um ambiente de subida de preço e ainda sem qualquer tipo de expectativa de que esta situação se vá alterar no curto prazo, a decisão mais evidente será a subida de taxas. E já agora, o mercado está a descontar com 95% de hipótese uma nova subida depois em dezembro também.
Filipe Garcia, obrigado por ter estado em direto conosco. Filipe Garcia, economista da informação de mercados financeiros, a ajudar-nos a olhar para aquilo que se vai passando nos mercados, sobretudo com subidas no preço do petróleo, do gás e também do gasóleo