Tentaram chamar-lhe o ‘Combate do Século’, mas, enquanto não tem início o aguardado Floyd Mayweather-Conor McGregor, é sobretudo o ‘Combate do Dinheiro’: se existem muitas dúvidas sobre a capacidade de adaptação de um campeão das artes marciais mistas (MMA) a um duelo de boxe contra o melhor defensor da história da modalidade e que continua invicto desde que se tornou profissional, sobram certezas sobre o potencial de gerar milhões de dólares com este cruzamento de personalidades excêntricas de dois mundos distintos conseguiu criar.

Ainda assim, há mais de um século que temos combates fabulosos e que ficaram para a história. Pela parte desportiva, sendo a saga Frazier-Ali um exemplo paradigmático; por questões sociais, como aconteceu em 1910 na vitória de Jack Johnson; por aspetos financeiros, como a multimilionária luta entre Mayweather e Pacquiao em 2015; pela vertente inusitada, como a famosa mordidela de Mike Tyson a Evander Holyfield. E estes são apenas alguns dos confrontos mais marcantes a que se já se assistiu.

O primeiro ‘Duelo do Século’ a sério que rendeu uma fortuna aos protagonistas

Joe Frazier vs. Muhammad Ali (1971)

Sabe como ficou conhecido o mítico combate a 8 de março de 1971 entre Joe Frazier e Muhammad Ali? Isso mesmo que está a pensar, o ‘Combate do Século’. Mas provavelmente essa expressão nunca teve tanto sentido como nesse dia no mítico Madison Square Garden, em Nova Iorque (e num outro mais à frente, mas já lá vamos): eram ambos campeões de títulos distintos e nunca tinham perdido um combate. Naquela que foi a primeira vez em que dois pugilistas invictos lutaram pelo título de pesos pesados, Frazier levou a melhor no final dos 15 rounds por decisão unânime, mas esse seria um duelo também marcado por alguns indícios do que hoje ainda se assiste: as pouco mais de 20 mil pessoas deram uma receita de 1,5 milhões de dólares, os bilhetes à volta do ringue ficavam por 150 dólares e cada um dos lutadores recebeu 2,5 milhões de dólares. Nos dias de hoje, é só acrescentar mais uns zeros à direita…

https://www.youtube.com/watch?v=VmiSsMm1-nc

Foram Ali a Manila fazer a desforra final e Muhammad foi campeão

Muhammad Ali vs. Joe Frazier (1975)

Ali vingou-se da derrota com Frazier em 1974, mas já nenhum era campeão nessa altura. E as contas eram fáceis de fazer: se um ganhou uma vez e outro ganhou uma vez, teria mesmo de haver um terceiro combate numa espécie de tira-teimas. E assim nasceu o ‘Thrilla in Manila’, que ganhou esse nome porque Ali cantava antes do duelo que ia ser “killa anda a thrilla and a cilla, when I got that gorilla in Manila”. O que Cassius Clay, o seu nome original, queria mesmo era irritar o adversário, porque sabia que assim poderia explorar essa sede de resposta. O presidente das Filipinas tinha conseguido levar o combate para o Coliseu de Manila e a 1 de outubro de 1975, às dez da manhã locais, tudo começou. Mais do que a pressão, Frazier acusou o calor (estimou que estariam quase 50 graus no ringue por causa das luzes adicionais para a transmissão televisiva). À entrada para o 15.º e último round, o seu técnico atirou a toalha ao chão e deu o título a Ali que, mais tarde, assumiu que também já não iria aguentar mais…

O adeus de um antigo herói pelo punho de um novo herói

Joe Louis vs. Rocky Marciano (1951)

Joe Louis, outro dos maiores pugilistas de sempre, já se tinha reformado mas estava numa espécie de segunda vida no boxe quando recebeu 300 mil dólares para defrontar Rocky Marciano, o americano que levava um registo invicto de 37-0, a 26 de outubro de 1951. E partia como claro favorito, com as casas de apostas totalmente balanceadas para o seu triunfo. Mas Rocky, que chegou a dizer que Louis “era o último homem na terra que gostaria de defrontar”, conseguiu dominar por completo e venceu por TKO ao oitavo round (num momento que vale mesmo a pena ver) aquele que era um dos maiores heróis dos americanos (e que ainda fez mais um combate em Taiwan mas iria arrumar de vez as luvas na sequência desse desaire). Rocky Marciano tem ainda hoje o melhor registo da história do boxe com 49-0, o mesmo de Floyd Mayweather, que pode agora superar essa marca histórica.

https://www.youtube.com/watch?v=h9N8IxjNwaw

Quando 60 mil viram em Kinshasa Foreman perder pela primeira vez

George Foreman vs. Muhammad Ali (1974)

‘The Rumble in the Jungle’ foi outro dos míticos combate que teve Muhammad Ali envolvido, neste caso contra o campeão invicto de pesos pesados George Foreman e no Estádio 20 de maio, em Kinshasa. Disputado a 29 de outubro de 1974, foi considerado um dos maiores eventos desportivos do século XX, sendo curiosamente organizado pelo carismático Don King, na altura ainda um miúdo nessas andanças. Ali vinha da derrota contra Frazier após um longo período de afastamento do boxe por ter recusado fazer parte do exército americano, ao passo que Foreman, o grande favorito, tinha ganho a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1968 e não sabia o que era perder enquanto profissional. Até esse dia: no oitavo round, Ali conseguiu o KO perante 60 mil espetadores em completo delírio com a surpresa. Ficaram amigos e há uma imagem inesquecível de Foreman a ajudar Ali a subir os degraus para o palco quando o documentário “Quando fomos reis” ganhou um óscar.

Uma queda tão bonita que inspirou uma pintura de George Bellows

Jack Dempsey vs. Luís Ángel Firpo (1923)

Vamos agora recuar até 14 de setembro de 1923 para falar de um combate que nem sempre é recordado mas que ficou para a história: pela primeira vez um latino-americano discutiu o título de pesos pesados. Luís Ángel Firpo, conhecido como Touro das Pampas, desafiou Jack Dempsey, que parecia ser imbatível. O americano começou melhor com o seu punho de aço, mas o argentino não se ficou e foi ainda nos instantes iniciais do combate que, com dois murros certeiros, atirou Dempsey para fora do ringue, numa imagem que viria a dar uma das melhores fotografias de sempre do boxe (só se veem os pés de Dempsey na queda). A lutar “em casa”, o campeão, mesmo com um corte feio nas costas, conseguiu regressar e acabaria mesmo por vencer quando, aí sim, ninguém acreditava. A imagem da queda acabou por originar uma das obras mais conhecidas do pintor realista George Bellows.

O combate que deu um filme, o filme que se tornou património nacional

James Jeffries vs. Jack Johnson (1910)

Senhoras e senhores, vamos apresentar o primeiro ‘Combate do Século’. Neste caso, foi literalmente o primeiro, a 4 de julho de 1910. Em dia de feriado nacional, e num duelo que ficou marcado na sua antecâmara pelas diferenças raciais, James Jeffries, mais alto e mais pesado do que o adversário, queria provar que os brancos eram melhores do que os negros, mas não teve a mínima hipótese contra Jack Johnson (que viria mais tarde a ser um dos fundadores do Cotton Club, conhecido clube de jazz), que ao fim de 15 rounds obrigou o adversário a render-se. Nove câmaras fizeram duas horas de filmagens para a realização de um filme documentário que foi mais tarde considerado património nacional, mas o mesmo foi proibido em várias cidades americanas e na África do Sul. Registaram-se também confrontos nas ruas.

E ao 26.º round em Havana, o feitiço virou-se contra o feiticeiro

Jack Johnson vs. Jess Willard (1915)

Jack Johnson voltou ao ativo contra outro gigante branco, como era chamado na altura, cinco anos depois, em Havana. E desta vez os papéis invertaram-se, porque partia como grande favorito ao título de pesos pesados nesse combate a 5 de abril de 1915 (terá mesmo dito para as pessoas que estavam no seu canto que era capaz de apostar uma fortuna como iria ganhar). Mais uma vez, houve surpresa: apesar de já ter 29 anos, Jess Willard aguentou-se bem e acabou por ganhar por KO ao 26.º round (no limite chegaria aos 45 rounds).

A vingança que acabou com parte da orelha arrancada no meio do ringue

Mike Tyson vs. Evander Holyfield (1997)

Mike Tyson tinha ganho em 1996 os títulos de pesos pesados da WBC (contra Frank Bruno) e da WBA (frente a Bruce Seldon), partindo como claro favorito (estava com um registo de carreira de 45 vitórias e uma derrota) frente ao antigo campeão Evander Holyfield, que estava longe do fulgor de outros dias após sofrer o primeiro desaire da carreira com Riddick Bowe, no final de 1992. A 9 de novembro, Tyson perdeu de forma surpreendente mas justa, mas houve direito a desforra, a 28 de junho de 1997. No terceiro round, e de novo a perder, o agora ator, cantor e outras coisas mais perdeu a cabeça e mordeu a orelha de Holyfield, tendo arrancado parte da mesma e cuspido para o chão. Ninguém queria acreditar, mas aconteceu mesmo. Tyson pediria desculpas ao opositor numa entrevista a Oprah Whinfrey mas, em 2008, justificou a ação como resposta às cabeçadas do adversário.

Um duelo que ficou para a história pelo que conseguiu gerar

Floyd Mayweather-Manny Pacquiao (2015)

Seis meses depois da vitória por TKO frente a Ricky Hatton, em dezembro de 2007, Mayweather retirou-se. Nesse período, outro nome começou a brilhar no mundo do boxe: Manny Pacquiao, o filipino que, entre muitos outros duelos, conseguiu arrumar Oscar De La Hoya. E o americano decidiu regressar com o mexicano Juan Manuel Márquez. Desde esse ano de 2010 que se falava na possibilidade de Mayweather e Pacquiao fazerem um mega combate, mas apenas em 2015, com ajuda de pessoas improváveis como Bill Clinton, o duelo foi anunciado como… ‘Combate do Século’ (também lhe chamaram ‘A Batalha dos Grandes’). Mayweather venceu por decisão unânime no final de 12 rounds, mas foram sobretudo as verbas envolvidas, bem mais do que o combate da MGM Grand Garden Arena de Las Vegas em si, que impressionaram: mais de 600 milhões de euros…

Um regresso feito à medida para reformar o adversário

Marvin Hagler vs. Sugar Ray Leonard (1987)

Sugar Ray Leonard tinha-se retirado há três anos e fizera apenas um combate em cinco anos. Tinha um registo de 33-1 e ia defrontar Marvin Hagler, com 62-2-2 (o último número relativo a empates). E abdicou de uma percentagem maior de receitas do bolo total mas impor condições como as medidas do ringue, as luvas utilizadas e a duração a nível de rounds, que seriam apenas 12. No final de um duelo para atletas ‘a sério’, por decisão não unânime, e depois de uma aparente festa de Hagler, Leonard foi declarado vencedor mas o resultado desse dia 6 de abril de 1987 ainda hoje, 30 anos depois, é muito discutida. Uma coisa é certa: a seguir ao combate, ambos os pugilistas decidiram retirar-se (Sugar Ray ainda voltaria, mas aí muito longe das faculdades que lhe tinham dado toda a notoriedade).