A passagem da TVI24 a canal aberto e o lançamento de um canal dedicado a Lisboa, são alguns dos projetos que o grupo Altice tem para desenvolver a atividade da Media Capital.

A compra da empresa dona da TVI ainda depende da decisão da Autoridade da Concorrência, mas esta semana, em reação à escalada das críticas por parte dos concorrentes, em particular da Sonae, dona da NOS, o grupo francês revelou em comunicado algumas linhas da sua estratégia para a Media Capital.

Neste comunicado, a Altice realça que tenciona tornar o canal de notícias TVI24 “disponível a todos os consumidores portugueses, bem como lançar novos canais sempre que possível”. Os planos passam por disponibilizar o canal noticioso da TVI, atualmente apenas no cabo, na TDT (televisão digital terrestre), e avançar com um canal dedicado a Lisboa, que estaria disponível para distribuição por outros operadores, soube o Observador junto de fonte próxima do grupo.

Lisboa foi a âncora do primeiro canal noticioso de cabo em Portugal, o CNL, lançado em 1999 por iniciativa da então TV Cabo, empresa que foi integrada na Zon e mais tarde na NOS. O CNL acabou por ser vendido à SIC, dando origem à SIC Notícias, o primeiro canal noticioso de âmbito nacional. O Porto tem um canal próprio, o Porto Canal, que tem como acionista o Futebol Clube do Porto.

A expansão da oferta da TVI vai assentar ainda numa filosofia de plataforma aberta, diz a Altice em comunicado, sublinhando que a Media Capital depende das receitas, ou seja, quanto maior for a difusão dos seus conteúdos, maior o retorno. O grupo francês, dono da PT/MEO, assegura por isso que está interessado em manter “as relações da Media Capital com outros distribuidores, como a NOS e a Vodafone, bem como as relações da MEO com outros produtores de conteúdos como o Grupo Impresa, numa base não discriminatória”. A TVI não é um produtor de conteúdos considerados premium, como os direitos dos jogos de futebol ou filmes e séries americanas, que podem diferenciar a oferta de um operador junto dos clientes.

É a resposta às preocupações manifestadas pelos reguladores. A ANACOM e os serviços técnicos da ERC (regulador da comunicação), num parecer não válido, alertaram para o facto de a concentração entre a PT/MEO e a Media Capital criar um operador que fica em posição de fechar canais e conteúdos aos concorrentes, o que reduziria a pluralidade e diversidade nos media. Esta visão é contrariada pelos franceses que prometem também “manter a absoluta independência editorial” da Media Capital.

Os planos da Altice passam igualmente por reforçar a capacidade de produção da Plural, empresa de conteúdos do grupo que atualmente só produz para a TVI, e internacionalizar essa produção em mercados onde está presente e onde exista um público potencial de língua portuguesa para estes conteúdos, como França ou Suíça.

A compra de empresas de media e conteúdos por parte da Altice já está a ser praticada em outros mercados onde a empresa está, como os Estados Unidos e a França. A convergência entre empresas de produção de conteúdos e operadores de telecomunicações tem como objetivo potenciar a captação de receitas, em particular de publicidade. Estas receitas estão a ser desviadas para os grandes distribuidores da Internet, como a Google e o Facebook, com perdas para os negócios tradicionais de conteúdos e telecomunicações. O grupo revela no comunicado divulgado esta segunda-feira que “pretende fornecer soluções de publicidade únicas e individualizadas a grupos publicitários, anunciantes e marcas”.

A estratégia da Altice é global, mas em Portugal a sua concretização junta a maior operadora de telecomunicações, a MEO/PT, com o principal difusor de conteúdos audiovisuais, a TVI. A Media Capital é também o grupo mais sólido do ponto de vista financeiro nos media portugueses. E é o impacto desta concentração no mercado nacional que a Autoridade da Concorrência terá de avaliar, sendo de esperar que, no mínimo, sejam negociados remédios ou condições que mitiguem o efeito deste negócio na concorrência.

Apesar de alguma pressa da Prisa em vender a operação em Portugal, o Observador tem a indicação de que a Altice está disposta a fazer cedências e a esperar por um processo de autorização, que pode ainda demorar meses, para fechar o negócio de 440 milhões de euros.