O ano ainda não acabou, mas 2017 está bem encaminhado para se tornar o segundo ano mais quente de que há registo. À sua frente no top 3 apenas o ano de 2016, graças a um El Niño particularmente forte. Em terceiro lugar aparece 2015, que também pode ter tido alguma influência do El Niño. 2017 é assim o ano mais quente sem influência do fenómeno climático El Niño. Os dados foram divulgados esta segunda-feira pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês).

O mais significativo é que as temperaturas ainda não voltaram aos registos pré-El Niño, mesmo tendo passado um ano e meio desde o seu fim”, disse Pep Canadell, diretor executivo do Global Carbon Project, como comentário ao relatório.

De janeiro a setembro de 2017 a temperatura média global estava 1,1 graus Celsius acima da época pré-industrial, divulgou a organização no primeiro dia da Conferência do Clima – COP23 (23ª Conferência das Partes)–, em Bona, Alemanha. Em 2015, durante a COP21 em Paris, as partes acordaram que se deveria “manter o aumento da temperatura média global menor que 2° C em relação aos níveis pré-industriais e prosseguir com os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5° C”.

“Este aumento da temperatura global é alarmante, mas não inesperado. Os níveis globais de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera são, atualmente, 46% mais altos do que os níveis pré-industriais“, disse Liz Hanna, membro honorário do Instituto das Alterações Climáticas da Universidade Nacional Australiana, como comentário ao relatório.

“Os últimos três anos estão no top 3 em termos de recordes de temperatura. Isto faz parte de uma tendência de aquecimento de longo termo”, disse Petteri Taalas, secretário-geral da WMO. “Assistimos a eventos climáticos excecionais, incluindo temperaturas a chegar aos 50 graus Celsius na Ásia, furacões que bateram recordes em rápida sucessão nas Caraíbas e oceano Atlântico que chegaram à Irlanda, cheias devastadoras causadas pelas monções que afetaram milhões de pessoas e uma seca sem tréguas na África oriental.” Como disse o secretário-geral, só falta definir exatamente quantos destes eventos foram causados pelas alterações climáticas.

As alterações climáticas com causas humanas provocaram agora um aumento da temperatura global ligeiramente acima de um grau Celsius. Mesmo que se atinjam as metas do Acordo de Paris, podemos esperar ver no futuro mais eventos climáticos extremos com mais frequência e maior intensidade, em especial ondas de calor”, disse Andrew King, especialista em eventos climáticos extremos na Universidade de Melbourne, como comentário ao relatório.

Os eventos extremos afetam milhões de pessoas, especialmente aquelas que estão mais vulneráveis. As grandes tempestades, cheias e secas provocaram perdas agrícolas (culturas, gado, pesca, aquacultura e floresta). Os países em desenvolvimento representam 26% das perdas totais, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês).

Espera-se que a COP23 sirva para estabelecer os princípios para atingir as metas do Acordo de Paris. Um trabalho que, segundo Patricia Espinosa, secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), deve ser feito não só pelos governos, mas também pelos municípios, territórios, negócios e sociedade civil.

Os eventos climáticos mais importantes de 2017

1. Precipitação

  • A América do Sul, China ocidental e partes do sudeste asiático foram mais chuvosos do que o normal. Mas nos Estados Unidos registou-se o período – de janeiro a setembro – com maior precipitação. Choveu mais do que a média em regiões do Sahel, provocando cheias em regiões como o Niger;
  • As pradarias canadianas, a região Mediterrânica, a Somália, Mongólia, Gabão e o sudoeste da África do Sul receberam menos chuva do que a média. A Itália teve, de janeiro a setembro, o período mais seco de que há registo.

2. Gelo

  • A extensão do gelo do Ártico esteve abaixo da média ao longo de 2017, com os quatro primeiros meses do ano a bater os recordes de níveis mais baixos, segundo o Centro de Dados de Neve e Gelo (National Snow and Ice Data Center) e o Serviço Copernicus de Alterações Climáticas. A extensão de gelo no Ártico está no top 5 das mais baixas, todas elas registadas desde 2006.
  • A extensão do gelo na Antártida esteve também abaixo da média.

3. Oceano

  • A manter-se a tendência deste ano, as temperaturas médias globais da superfície do oceano estarão entre as mais altas que há registo. Os níveis globais de calor acumulado no oceano em 2017 também se mantém próximos dos níveis mais altos.
  • O oceano absorve cerca de 30% do CO2 produzido pelo homem, ajudando a aliviar os impactos das alterações climáticas no planeta, segundo a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Mas o aumento da acidez dos oceanos, causada pela absorção de CO2, afeta negativamente a saúde dos corais e dos animais com concha, acabando por afetar toda a cadeia alimentar.

4. Eventos extremos

  • O Atlântico Norte teve uma época de tempestades tropicais e furacões muito ativa – pelo menos três furacões de elevado impacto seguidos;
  • Chuva intensa em Freetown, Serra Leoa, matou 500 pessoas; no Bangladesh, choveu tanto em dois dias – 11 e 12 de agosto – como seria de esperar num mês;
  • As cheias no Bangladesh originaram 13 mil doentes. Devido às cheias na região – Bangladesh, Índia e Nepal – morreram 1.200 pessoas e 40 milhões ficaram desalojadas ou foram de alguma forma afetados;
  • As cheias no Peru provocaram 75 mortos e 70 mil desalojados;
  • A seca extrema durante 2016 e 2017 levou à deslocação de 760 mil pessoas na Somália, estando 800 mil pessoas neste país à beira da fome;
  • O Quénia declarou a seca como uma catástrofe nacional;
  • A Itália teve uma quebra de 62% na produção de azeitona devido à seca;
  • O Chile teve o pior verão, termos de incêndio, em 2016-2017, com 614 mil hectares ardidos; a região Mediterrânica também teve muitos incêndios, com mais de 100 mortos em Portugal; nos Estados Unidos ardeu mais 46% do que a média entre 2007 e 2016.